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Por que a frase “Se não gosta da polícia, chama o Batman” é falaciosa e atrapalha o sonho do Brasil de se tornar mais seguro e pacífico

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É comum pessoas de convicções reacionárias responderem a quem critica a abusiva polícia militar brasileira e defende sua reforma institucional e desmilitarização com a frase “Se não gosta da polícia, chama o Batman”. Esse argumento, além de falacioso, coloca pedras pesadas no caminho do Brasil rumo a se tornar um país mais seguro e pacífico.

A tal frase, na prática, silencia e censura as críticas feitas à polícia brasileira. É uma resposta irracional e esnobe às acusações, repletas de provas, de que a PM é despreparada e incide frequentemente em crimes como abuso de autoridade, racismo, corrupção, tortura, constrangimento ilegal, falsidade ideológica, homicídio de inocentes etc.

Incide, em sua (falta de) qualidade argumentativa, em pelo menos duas falácias. A primeira é uma dupla falácia do espantalho: imputa à pessoa ou ideia opositora uma falsa característica negativa e critica-a com base na mesma. Nesse caso, alega falsamente que as críticas não são por motivos objetivos, mas sim por simples questão de gosto pessoal, ou seja, pelos críticos supostamente “não gostarem da polícia”. Carrega também a falsa pressuposição de que os críticos da PM hoje existente defendem a extinção de toda e qualquer instituição pública de segurança, e não simplesmente a reforma e desmilitarização da corporação.

E também é uma falsa dicotomia, uma vez que coloca o interlocutor num dilema que na verdade é falso. Estipula a existência de apenas duas “opções”: depender de uma polícia abusivamente violenta e criminosa ou apelar para super-heróis (ou para o sobrenatural). Descarta erroneamente a alternativa de contar com uma polícia realmente ética, que não trata a violência urbana e as questões sociais (como a existência de pessoas sem moradia e menores abandonados) como um problema de ordem bélico-militar.

Apesar de ser “apenas” uma frase de deboche, ela pode ter um impacto negativo muito mais forte do que se pensa nas chances de o Brasil se tornar um país mais seguro. Desqualifica o debate sobre como a polícia poderia servir melhor à sociedade, realmente prover segurança e contribuir para a consolidação de uma cultura de paz.

Ao reduzir falaciosamente as críticas criminais à PM a uma mera questão de “não gostar” de policiais e da instituição polícia, impõe que todos deveriam aceitar que ela continue perpetuamente sendo aquilo que é hoje: uma instituição que não só é ineficaz em combater o crime, como também comete seus próprios crimes. E interdita as críticas sem que lhes seja dirigida qualquer tentativa séria de refutação.

“Contar” com uma polícia que, ao invés de diminuir as estatísticas criminais, contribui ativamente para aumentá-las ainda mais é necessariamente estar condenado a viver numa sociedade duplamente insegura e ter a vida e a propriedade ameaçadas por duas frentes: bandidos civis e policiais militares criminosos. Essa ameaça é ainda mais nítida quando a potencial vítima é negra e moradora de bairros pobres, já que há indícios de que o racismo é institucional na polícia, e não algo concernente a soldados individualmente preconceituosos.

Se quisermos realmente enfrentar esse problema de segurança e defender um país mais pacífico onde o direito à vida esteja consolidado, precisamos dispensar e rechaçar respostas maliciosas e conformistas que nos provocam a “chamar o Batman” por “não gostarmos da polícia”. Criticar uma polícia ineficiente e criminosamente violenta não é questão de gosto ou de crença ideológica, mas sim de respeito à vida, consciência de direitos fundamentais e desejo de viver em paz. Quem faz essa menção maliciosa ao Homem-Morcego da DC Comics, por mais que ache estar defendendo a segurança e o combate ao crime, está na verdade resguardando a própria criminalidade e perpetuando a insegurança pública.

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5 comentário(s). Venha deixar o seu também.

vitor soares

novembro 23 2016 Responder

Hipocrisia Não adianta nada a desmilitarização da PM em quanto houve baixa salário jornadas exaustiva direitos humanos defendo bandidos uma legislação ridícula que só desmotiva não só a polícia militar mais também as outras polícias o fatos e que a polícia milita tem vários bandidos disfarçado de mocinho as a grande maioria é feita de heróis que honra a policial milita e corpo de bombeiros militares como também é o caso da policia civil

Aline linhares

novembro 1 2016 Responder

Bom dia gente venho aqui fazer um comentário com vcs pelo fato de ter cido ameaçada e chingada.. Bom fiz um comentário em uma Publicação no face de um amigo certo dai o que aconteceu colocarão meu comentário em um plantão policial dai la várias pessoa me criticaram me chingarao gente eu to com medo de ser assacinada eles falarão que iam me espancar até eu pedir desculpas… gente To desesperada

Luca

janeiro 13 2016 Responder

Se for assim , se vc foi mal atendido em um posto de saúde chamem o Dr House , se tem problemas no transporte público chame a turma da corrida maluca .

Newton

janeiro 12 2016 Responder

Geralmente essas respostas são dadas para aqueles que possuem páginas no Facebook ou outras redes dedicadas a xingar policiais.

Criticar construtivamente é necessário, porém o que acontece é que ambos os lados se preocupam mais em ofender.

Alysson

janeiro 12 2016 Responder

É uma lógica ditatorial, pois se a seguirmos pra tudo, não poderíamos criticar quase nada. É tipo “critica a mineração mas anda de carro”, ou “critica o capitalismo mas tem Smartphone” (essa última é mais problemática ainda). É absurdo mas faz sentido para as mentes binárias, me lembra o famoso “ame-o ou deixe-o” dos primórdios da Ditadura. Isso poderia ser traduzido como “se vc precisa ou pode vir a precisar de algo ou alguém, aceite-o incondicionalmente”. Esse tipo de postagem é só mais uma prova de que abordagens (se é que podemos chamar isso de abordagem) simplistas de temas complexos só geram desinformação e perpetuam a alienação e a ignorância!

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