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O uso de palavras-chave políticas sem conceituá-las: uma falta grave em discursos e debates políticos
A imagem original (editada para suprimir os rostos), que não diz "Eu luto pelo fim da democracia", apesar de a pessoa estar de fato lutando pelo fim da democracia no Brasil

A imagem original (editada para suprimir os rostos), que não diz “Eu luto pelo fim da democracia”, apesar de a pessoa estar de fato lutando pelo fim da democracia no Brasil

Editado em 19/01/2016 às 14h06 com substituição da imagem pela original, sem as coxinhas e a palavra “eu”

Muitas pessoas pensam estar arrasando em seus discursos que supostamente defendem a liberdade, a democracia, a ética na política etc. Mas no final das contas, percebemos que elas, por não saberem conceituar essas palavras-chave, trazem discursos fracos cuja única consequência é promover o caos no panorama político brasileiro e mundial. E enquanto não têm consciência do que tais termos realmente significam, não estão aptas a debates razoáveis que visem construir um mundo melhor.

É muito comum presenciar, por exemplo, discursos de direita dizendo defender a democracia e a liberdade. Mas em algum momento, essas mesmas falas ou textos fazem apologia a alguma ideologia econômica ou sistema político baseado fundalmentalmente em restringir ou abolir direitos individuais e valores democráticos, como a ditadura civil-militar e o fundamentalismo de mercado.

Isso se dá porque esses textos ou falas não conceituam a liberdade e a democracia. Nem buscam direta e explicitamente em trabalhos de outras pessoas as definições para ambas. Mas sim discursam como se fossem conceitos óbvios, naturais, únicos, invariáveis, que as pessoas já nascem conhecendo.

Acreditar nessa naturalidade e imutabilidade dos conceitos políticos é um erro grave. Faz com que não haja o mínimo de condições para o debate e destitui os discursos do mínimo aceitável de bases racionais.

Isso faz com que a pessoa não possa tomar parte em debates sérios, já que ela precisa saber expressar o conceito usado e fazer com que o interlocutor o considere adequado e concorde em usá-lo. E uma opinião indebatível não é passível de ser considerada em demandas políticas honestas e responsáveis.

 

A questão do acordo sobre o conceito usado num debate

É essencial que se estabeleça que definição está sendo usada para o tema em debate e se entre em acordo sobre os dois lados concordarem com ela. Caso contrário, acontecerá algo como, numa discussão sobre regimes políticos democráticos, um pensar que democracia é A e o outro crer que é B. Daí não estarão falando sobre a mesma coisa, e o entendimento e, por tabela, a troca e embate de ideias serão inviáveis.

A exceção é quando se discute qual conceito do termo debatido é o mais adequado e quais falhas e vulnerabilidades cada conceito concorrente contém que o tornam, de alguma forma, impróprio. Nesse caso é possível o uso de definições distintas para o mesmo termo, desde que no final das contas uma delas seja aceita mutuamente como a mais viável – ou se complementem mutuamente sem contradição e possam ser combinadas.

Mas não é isso o que muitas vezes acontece. Muito frequentemente um lado vem munido da convicção de que o termo central usado na discussão tem um dado significado, enquanto o outro carrega em sua mentalidade uma significação distinta e oposta.

É quando, por exemplo, um direitista defensor do Estado mínimo e uma ativista de bandeiras de esquerda debatem sobre as não correspondências das crenças de direita com a realidade. O primeiro crê que ser de direita é simplesmente defender a diminuição do Estado em favor do poder das instituições privadas, e que ser de esquerda é advogar por um Estado cada vez mais forte e dominante. E o segundo acredita que direita e esquerda são definidas por muito mais questões, como o que pensa sobre a propriedade privada dos meios de produção, a igualdade ou desigualdade social, a aceitabilidade do capitalismo, a tolerância a culturas estrangeiras, a natureza humana, as hierarquias sociais etc.

Nesse conflito de definições, não haverá como dizer se uma dada crença é mesmo de direita ou também é de algumas vertentes da esquerda – como a oposição a Estados muito fortes, empreendida tanto por “libertários” de direita quanto por anarquistas de esquerda. Só poderá haver algum progresso na discussão quando se entrar em consenso sobre qual conceito do que seja a direita política é o mais apropriado e menos falho.

 

Como o desacordo de conceitos e a falta de noção sobre como definir os termos centrais usados tornam manipulável e sem sentido a opinião do indivíduo

Nesse contexto em que não se entra em acordo sobre qual conceito está sendo usado nestes tempos de debates intensos dentro e fora da internet, acontece muito de o opinador não estar em concordância com nenhuma teoria política séria. Para ele, por exemplo, comunismo significa algo como “tudo o que há de ruim”, e isso o torna necessariamente inapto a tomar parte em discussões políticas maduras.

Além disso, alguém que usa termos políticos sem saber o que significam é especialmente suscetível a ser manipulada. E por meio dessa manipulação, por exemplo, alguém que não sabe dizer o que é democracia pode vir a crer que uma ditadura que revoga direitos políticos, criminaliza a livre expressão e traz tortura e assassinato a quem critica o governo é um regime “democrático”. E assim estará na verdade defendendo, sem perceber, o fim do pouco que há de democracia no Brasil.

E nisso estamos diante de alguém que não contribui construtivamente para as discussões sobre a reafirmação da democracia no Brasil e, através do voto em políticos reacionários, os ajuda a cavar um futuro no qual todos os brasileiros perderão seus direitos e liberdades e correrão risco cotidiano de morte nas mãos do Estado.

Daí fica muito evidente que as opiniões dessa pessoa, além de não serem racionais, não fazem nenhum sentido. Afinal, ela diz defender a democracia, mas, na verdade, está fazendo apologia a uma ditadura cruel e sufocante.

Isso também acontece ocasionalmente na esquerda. É o caso de quem chamou o prefeito de São Paulo Fernando Haddad de “fascista” por não ter atendido à exigência das manifestações de janeiro de 2016 para revogar o aumento das passagens de ônibus. Usou-se o termo “fascista” sem que este fosse respaldado por conceituações sérias.

Haddad pode ter sido autoritário e ignorador das vozes populares por esse desrespeito econômico aos mais pobres que usam ônibus. Mas essa postura em nada tem a ver com o conceito histórico de fascismo, que passa por edificar um Estado totalitário de extrema-direita, uma ideologia ultranacionalista e xenofóbica, a designação de uma minoria política a ser tratada como “inimiga da nação” e perseguida até o extermínio total, a eliminação assassina de toda e qualquer oposição, o culto à guerra como meio de “engrandecer a pátria”, entre outros aspectos que passam astronomicamente longe da gestão do prefeito petista de São Paulo e mesmo dos limites dos poderes políticos que tem um prefeito municipal que não seja chefe de uma cidade-Estado. Essa acusação de que ele é “fascista” desqualifica a crítica e torna a oposição de esquerda à atual prefeitura paulistana um tanto imatura e ineficaz em suas reivindicações e lutas.

A partir disso, evidencia-se a necessidade de se saber conceituar o que é aquilo que se está supostamente defendendo, como já incentivava o filósofo Sócrates há mais de 2.400 anos em seus diálogos com quem, por exemplo, dizia defender a justiça sem ao menos saber o que significa o termo justiça. Só assim teremos a plena capacidade de, com nossas colocações, contribuir para o amadurecimento político de nossa sociedade.

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Newton

janeiro 19 2016 Responder

O fascismo é o sistema de governo que carteliza o setor privado, planeja centralizadamente a economia subsidiando grandes empresários com boas conexões políticas, exalta o poder estatal como sendo a fonte de toda a ordem, nega direitos e liberdades fundamentais aos indivíduos e torna o poder executivo o senhor irrestrito da sociedade.

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