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fev16

Acredite se quiser: o segundo mandato de Dilma está à direita até do governo FHC
Dilma à direita de FHC: a situação absurda a que se chegou

Dilma à direita de FHC: a situação absurda a que se chegou

Fala-se muito de que Fernando Henrique Cardoso deixou uma “herança maldita”, por ter feito um sufocante governo de direita – privatizador, sucateador do serviço e funcionalismo públicos, submisso ao FMI, promotor de uma política econômica desastrosa. Mas uma análise desapaixonada da atual conjuntura política brasileira, que deixe no escanteio eventuais paixões políticas antitucanas e antipetistas, pode nos revelar algo surpreendente e estarrecedor: considerando-se diversos aspectos de políticas públicas, Dilma Rousseff, nesse segundo mandato, está sendo ainda mais de direita do que FHC, ou tão direitista quanto ele.

Antes de dizer por quê, é necessário deixar claro que este artigo não é uma defesa do governo de FH, tampouco um atestado de que eu votaria no velho tucano se ele viesse a se candidatar em 2018 com um programa de governo similar aos de 1994 e 1998. Mas sim uma amostra do absurdo a que chegou o quadro político do país, com um governo do PT mais à direita do que o PSDB dos anos 90 e uma oposição direitista que flerta com o extremismo autoritário.

Cheguei a essa conclusão absurda, refletora de uma realidade idem, porque o governo de FHC tinha políticas ambientais, de redistribuição agrária e de demarcação de terras indígenas menos medíocres do que as de Dilma. E ele fez o que o segundo mandato de Dilma conseguiu não fazer: novidades em termos de políticas sociais – já que, em 2015, não vimos bons anúncios nesse âmbito.

No campo econômico, está-se perto de um empate entre “Dilma 2” e “FHC 1 e 2”: desemprego em alta, inflação acima do aceitável, decrescimento econômico – sem que tenha havido nenhuma política proposital de decrescer a economia para salvar o meio ambiente -, beneficiamento vultoso dos lucros de grandes empresas para mantê-las a salvo da crise, impostos e tarifas em alta, investimento em subsidiar o ensino superior privado em detrimento do público etc.

Isso sem falar nas privatizações – desta vez voltadas a conceder a consórcios privados aeroportos, portos, ferrovias de carga, rodovias, usinas hidrelétricas e jazidas de petróleo – e na precarização de serviços públicos – com cortes na educação e na saúde, que têm levado quase ao colapso muitos hospitais e algumas universidades. Vale dizer também, além disso, que, por pouco, o Bolsa Família não levou cortes fulminantes, que devolveriam ao abismo da miséria e da fome milhões de famílias brasileiras.

Isso nos faz pensar, com razão, que o governo Dilma, ideologicamente falando, é de uma imensa mediocridade, que o faz ser menos de esquerda do que o do próprio Fernando Henrique e tão antipopular quanto.

Esse fato, aliás, tem algo a dizer não só sobre os descaminhos ideológicos e sociais do PT, mas também da direita brasileira. Se Dilma está conseguindo, em muitas áreas, ser tão direitista quanto FHC ou ainda mais e mesmo assim a oposição a considera “bolivariana” e “socialista” e não a respeita, isso significa que a direita brasileira virou quase uma extrema-direita – e isso inclui o mesmo PSDB de Fernando Henrique.

Dos anos 90 para cá, o PSDB abandonou os princípios liberais e socialdemocratas nos quais suas políticas se pautavam e se tornou um partido amigo do ultraconservadorismo. Isso se vê pelo tanto que alguns tucanos de alto escalão insistem em tentar derrubar Dilma quase que pela força e até mesmo clandestinizar o PT, e também pela quase total ausência de propostas políticas alternativas vindas desse partido e pelo fracasso de seus governos estaduais – que não conseguem ser exemplos positivos de governança tucana. Nisso os tucanos de hoje estão à direita mesmo dos tucanos liberais de 20 anos atrás, e caminham rumo ao radicalismo reacionário de extrema-direita.

A conclusão lógica desse endireitamento acentuado de Dilma é que aqueles que quinze anos atrás tanto gritavam “Fora FHC” deveriam estar hoje lutando pela renúncia da presidenta em prol de um governo realmente de esquerda. Mas o medo do “golpe” – ou seja, do impeachment encabeçado pela direita radical brasileira – está engessando grande parte da esquerda brasileira em sua insatisfação contra ela. Daí é necessário rever essa posição, desistir de qualquer esperança de guinada do PT à esquerda e construir uma ou mais novas opções de futuros governos de esquerda, se o desejo é de não ter que sempre votar no “mal menor” para evitar que uma direita muito mais radical e destrutiva do que foi FHC suba ao poder.

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6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Edmar

fevereiro 13 2016 Responder

Bom dia, Robson.

Ao ler sua publicação, resolvi apresentar-lhe um contraponto, publicando um artigo em meu blog, que gostaria que você avaliasse.

A publicação está no seguinte endereço: http://www.unipress.blog.br/governo-dilma-tao-mais-direitista-governo-fhc/.

Aguardo sua manifestação.

Parabéns pelo seu trabalho.

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 13 2016 Responder

    Obrigado, Edmar =) Vou lê-lo em instantes. Abs

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 13 2016 Responder

    Obrigado pela resposta, Edmar. Sempre esperei por um momento como esse, em que alguém vem trazer uma discordância saudável, não baseada em falácias e sem agressividade, trazendo um contraponto diante do qual o leitorado pode decidir qual dos textos faz mais sentido.

    Li a resposta e gostei da forma como vc explanou. Mas senti falta de vários pontos, como a política agrária, ambiental e indigenista muito pior e mais pró-capitalista e opressora do que a do governo FHC.

    Além disso, o aumento de impostos trazido por Dilma foi na linha empreendida no passado por gente como Margaret Thatcher na Inglaterra: aumentar os impostos dos mais pobres e da classe média e diminuir ou manter estáveis os impostos pagos pelos mais ricos. O discurso da direita de “menos impostos” é hipócrita, uma vez que não se posiciona nitidamente contra políticas conservadoras de aumento de impostos pros mais pobres. E a esquerda estatista defende que os impostos dos mais pobres e da classe média sejam reduzidos em favor de um aumento da taxação aos mais ricos, de modo que haja dinheiro em caixa pra investimentos e seja promovida a diminuição da concentração de renda.

    Sobre os programas sociais, não nego a importância de todos esses aspectos do planejamento prévio. Mas percebo que nada disso parece ter acontecido na transição do primeiro pro segundo mandato. Vimos no primeiro mandato a implantação do Minha Casa Minha Vida (e acredite, há críticas pesadas a esse programa, no que tange a tratar os beneficiários como números ao invés de seres humanos, vide conjuntos habitacionais que mais parecem campos de concentração sem cercados) e o Mais Médicos. Mas não vimos a arquitetação e desenvolvimento de políticas sociais que viessem a ser aplicadas no segundo mandato. O próprio discurso de Dilma nas eleições de 2014 era de manter os programas sociais, e não de criar novos que viessem trazer novos avanços sociais.

    E aliás, percebamos que a política “lulista” de focar no estímulo ao consumo não foi substituída por uma de garantir a cidadania por meio de direitos fundamentais. Nesse ponto, Lula e Dilma foram bastante de direita, seguindo as recomendações de gente como o (neo)liberal Milton Friedman (e sua ideia de imposto de renda negativo).

    Em relação às “concessões” – que são uma palavra mais light a rotular uma maneira sutil de privatização na tradição econômica e administrativa brasileira -, senti falta de um quadro comparativo (mesmo que em forma de texto corrido) entre as concessões dos governos Lula e Dilma e as desestatizações do governo FHC.

    Espero que essas colocações minhas venham fortalecer um futuro texto seu que tente mostrar que o governo Dilma não seria tão de direita como tem mostrado ser.

    Abs

    [vou copiar e colar este comentário na caixa de comentários do seu texto também]

      Edmar

      fevereiro 13 2016 Responder

      Olá, Robson, obrigado pela sua resposta. Mas, dando sequência ao diálogo, publiquei outro artigo, contendo novas reflexões para a sua consideração e dos demais leitores, na postagem: http://www.unipress.blog.br/impostos-concessoes-publicas-politicas-sociais-governo-dilma/.

      Volto a expressar a discordância quanto aos seus pontos de vista no que diz respeito aos temas da tributação, das concessões públicas e das políticas sociais.

      Abs.

        Robson Fernando de Souza

        fevereiro 15 2016 Responder

        Obrigado novamente, Edmar, por responder. Postei nos comentários de seu texto minha colocação em réplica. Abs

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