23

fev16

O anacronismo do aproveitamento, pela direita de hoje, do discurso liberal pela diminuição do Estado e dos impostos
O discurso liberal "menos Estado = mais liberdade" funcionava no século 19, não hoje

O discurso liberal “menos Estado = mais liberdade” funcionava no século 19, não hoje

Frequentemente ouvimos pessoas declaradamente de direita promovendo discursos em prol do enxugamento do Estado e da redução dos impostos. O que esses indivíduos não percebem é que essa bandeira, de origem liberal, foi retirada do seu contexto histórico, e não convém mais numa época em que o Estado tem muito mais funções do que beneficiar e privilegiar uma elite e exercer força repressiva contra os governados das classes mais baixas.

A defesa, pelos intelectuais do liberalismo, de menos Estado e impostos data de antes da Revolução Francesa. Naquela época, os Estados, monárquicos e nada democráticos, eram pouco além de aparelhos de poder utilizados por nobres, clérigos e reis para manter seus privilégios e seu padrão de vida elevado e silenciar, por meio da repressão militar, os plebeus – dos camponeses e artesãos aos burgueses.

Naquele contexto, a reivindicação por Estados menos fortes vinha sob medida para afrontar regimes que em quase nada beneficiavam a grande maioria da população. E a demanda por menos impostos vinha com o propósito de libertar a burguesia do sufocamento econômico imposto pelos Estados monárquicos, que não estavam interessados em deixá-la ganhar muito poder.

A bandeira por Estados e impostos menores era libertadora para os padrões da época, tanto que o liberalismo era considerado uma corrente político-ideológica de esquerda, contrária ao conservadorismo monarquista. Além dessa defesa, a pregação da meritocracia socioeconômica também vinha a calhar como revolucionária, num tempo em que ter sangue azul ou pertencer ao clero católico era essencial para o indivíduo (homem branco) ter um mínimo de condições de vida razoáveis e prestígio social. Também eram libertárias naquele contexto as defesas das liberdades de crença e de expressão e dos direitos universais à propriedade privada e à segurança contra atentatos à vida humana.

O tempo passou, a maioria das monarquias deu espaço a sistemas políticos republicanos e/ou parlamentares e, com as lutas políticas das esquerdas socialistas, comunistas, socialdemocratas, feministas e antirracistas, os Estados europeus e americanos se tornaram muito mais do que mantenedores da ordem. Passaram a ter uma função social, de garantir direitos humanos, civis, políticos e sociais aos governados, por meio tanto da lei protetora como de serviços e políticas como a previdência social, a redistribuição de renda, as empresas estatais de serviços diversos (bancos, transporte público, eletricidade, correios etc.), os investimentos públicos e a participação democrática dos cidadãos nas decisões dos Três Poderes. Isso pelo menos idealmente falando, em se tratando dos Estados de bem-estar social europeus da segunda metade do século 20.

Considerando essa transformação dos Estados ao longo dos últimos três séculos, o discurso liberal por Estado mínimo e impostos reduzidos, ao ser utilizado hoje pela direita de países como o Brasil, se torna anacrônico, descontextualizado. O liberalismo dos séculos 19 e 20, defensor de Estados menos opressivos, menos economicamente sufocantes e mais meritocráticos, não existiu para afrontar os Estados socialdemocratas de bem-estar social e de Direito, mas sim as monarquias conservadoras não democráticas da Europa pré-industrial. Hoje o contexto socioeconômico e também ambiental demanda bandeiras políticas bem diferentes daquela época.

Portanto, quando alguém vier com o discurso de menos Estado e impostos e mais meritocracia, questionemos o que a pessoa está fazendo ao defender, no século 21, bandeiras cruamente retiradas dos séculos 18 e 19 e, portanto, descontextualizadas e anacronicizadas. Perguntemos também por que bandeiras que no passado foram usadas para combater hierarquias, privilégios e opressões estão sendo manejadas hoje para manter ou radicalizar uma ordem injusta de dominação capitalista e fortemente hierárquica.

imagrs

Seja a primeira pessoa a comentar

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo