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O capitalismo deixou de ser uma tentativa de promover felicidade e bem-estar para se tornar um fim em si mesmo
Nem aos empresários multibilionários o capitalismo garante a felicidade

Nem aos empresários multibilionários o capitalismo garante a felicidade

Muitas pessoas ainda acreditam que é possível obter prosperidade e, por tabela, felicidade por meio do capitalismo, do empreendedorismo e do trabalho duro. Não percebem que há muito o capitalismo deixou de ser uma tentativa de filósofos, economistas e empresários de construir um mundo feliz de bem-estar e se tornou um fim em si mesmo, algo cuja existência já não tem mais uma finalidade ou objetivo.

Acreditava-se, no passado, que um mundo regido pelo empreendedorismo industrial e pela livre circulação de mercadorias iria trazer prosperidade ao mundo e, consequentemente, faria os seres humanos, mesmo aqueles nas posições mais baixas das hierarquias organizacionais das empresas,  terem vidas confortáveis e felizes. Foi isso que motivou, pelo menos teoricamente, o trabalho de pessoas como Adam Smith, Henry Ford e os liberais sociais.

Mas o capitalismo industrial já nasceu fracassando nesse intuito, lá na aurora da Revolução Industrial inglesa e da Revolução Estadunidense. Afinal, além de não libertar os negros escravizados nos recém-independentes Estados Unidos, confinou milhões de ingleses em trabalhos operários industriais sob condições sub-humanas, e não trouxe para as mulheres nenhuma perspectiva de derrubada da dominação masculina.

No século 20, a luta operária, em grande parte anticapitalista, conseguiu vitórias decisivas que tornaram grande parte do trabalho industrial, comercial e de serviços minimamente suportável. Se não fosse ela, ainda seríamos obrigados a trabalhar insalubremente 16 horas por dia, sem férias, folgas e outros direitos básicos, por salários miseráveis. E dependeríamos da misericórdia de alguns poucos patrões fordistas que viessem nos oferecer empregos menos indignos para sair dessa situação de subvida.

E desde o século 19, como Karl Marx já denunciava, o capital adquiriu vida própria. Sobrepujou a intenção dos liberais de trazer felicidade ao mundo e obrigou os seres humanos a viverem para trabalhar, para ganhar dinheiro e assim ter o mínimo de condições de sobreviver num mundo em que este se tornou o sangue que move as sociedades modernas.

Em outras palavras, não aceitamos empregos medíocres com poucas chances de ascensão social e organizacional para seremos felizes. Mas sim para poder comprar alimentos, transporte, lazer, vestuário etc. Ou seja, para viver o mínimo suportável de condição de vida. E nem isso, aliás, bilhões de seres humanos conseguem.

A uma ínfima parcela da humanidade é dado o direito de ascender socialmente de maneira acentuada ou permanecer na classe alta. Mas nem a esses felizardos, é necessário dizer, a felicidade é garantida pelo sistema capitalista.

Isso porque tenderão a viver vidas conturbadas, marcadas pelo estresse de gerenciar e/ou presidir grandes e supercomplexas empresas, pelo medo de passarem por uma crise irreversível que drible até mesmo os eventuais pedidos de socorro estatal, pelo risco de traições e sabotagens dentro da empresa e por frequentes dilemas que põem em jogo a sobrevivência de sua corporação. Se há pessoas plena, permanente e inabalavelmente felizes no capitalismo, elas são raridade mesmo na mais alta elite corporativa global.

Também não têm felicidade garantida os artistas e esportistas milionários. Sua carreira pode a qualquer momento decair sem possibilidade de reversão ou ser destruídas por contratos abusivos, dívidas imensas poderão ser cobradas, violências como estupro e agressões domésticas podem ruir a autoestima artística ou esportiva de mulheres talentosas.

Ou seja, mesmo os milionários e bilionários, mesmo quando têm tendências psicopatas de passar o lucro por cima da dignidade humana, acabam sendo apenas peças de uma enorme máquina dotada de vida própria. Não vivem para serem felizes com as graças da riqueza material, mas sim para ganhar e acumular dinheiro.

Das três uma: vive-se ou para ganhar o dinheiro necessário à sobrevivência, ou para obter sustento e pequenos prazeres que passam longe de garantir a felicidade de uma vida, ou para acumular riquezas sem que haja uma destinação humanitária para elas. Em nenhuma das ocasiões o capitalismo transforma pessoas infelizes em felizes.

Precisamos ter consciência de que o sistema capitalista não existe, e nunca existiu, para garantir a felicidade humana. Pelo contrário, ele nos impede de sermos felizes, uma vez que nossa vida perde qualquer outro sentido quando estamos demasiadamente imersos no propósito pessoal de ganhar dinheiro ou garantir o mínimo necessário para sobreviver. Tanto é que muitas pessoas precisam encontrar escapatórias, por exemplo, na religião ou em trabalhos que fujam à lógica do acúmulo de riqueza material.

Sabendo disso, reconheçamos nossa necessidade inerente de buscar a felicidade em vida. E lutemos para desconstruir a ordem capitalista na qual fomos forçados desde nascença a viver imersos. Ela nos impede ou limita de encontrar valores e meios que podem dar sentido às nossas vidas e nos garantir felicidade de verdade, sob a falsa promessa de nos fazer felizes por meio da riqueza material e financeira.

A felicidade humana depende de se derrubar aquilo que nos impede que a vivamos plenamente, e isso inclui rejeitar e enfrentar o capitalismo. Aliás, mesmo o enfrentamento anticapitalista pode nos dar fagulhas de felicidade, mesmo que temporária, já que buscamos ter o direito de sermos felizes numa vida não capitalista.

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Alex

fevereiro 23 2016 Responder

A maioria da população n o Brasil é de classe média, ou seja, nem está passando fome e trabalhando desesperadamente como descrito no texto e também não e um bilionário que vive trabalhando pra manter seu status e suas empresas. Por isso, pode-se dizer que – apesar de todas trabalhadas do governo – o capitalismo deu certo aqui sim, as pessoas trabalha 8 horas por dia (mais que isso é hora extra e nem todo mundo faz), folga no fim de semana, tem férias uma vez por ano e não passa por necessidades.

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 24 2016 Responder

    Alex:
    1. O critério de patamar mínimo de “classe média” é duvidoso no Brasil. Em 2011, famílias que ganhavam menos de 300 reais por membro eram consideradas da classe média.
    2. Houve sim um progresso imenso em dezenas de milhões de brasileiros deixarem de passar fome e até adquirir condições de consumir eletrodomésticos e eletroeletrônicos do governo Lula pra cá. Mas isso não se deu apenas pelo capitalismo privado, mas sim por políticas governamentais como o Bolsa Família e as linhas de crédito pra consumo e pra microempresas. Ao meu ver, isso é capitalismo de Estado – e pelo visto, ao contrário dos “liberais” de internet, vc não discorda de que o capitalismo continua sendo capitalismo quando é “turbinado” pelo governo.
    3. “as pessoas trabalha 8 horas por dia (mais que isso é hora extra e nem todo mundo faz), folga no fim de semana, tem férias uma vez por ano e não passa por necessidades.” – Nesse caso, o melhor seria encontrar uma estatística sobre quantos por cento da população economicamente ativa recebe esses benefícios. Isso porque não inclui, por exemplo, muitos terceirizados, trabalhadores ambulantes, muitos trabalhadores de home-office (cujo envolvimento no trabalho também perpasssa as horas e dias que deveriam ser de folga), vendedores em shoppings etc.

      Narciso

      fevereiro 29 2016 Responder

      Considere o seguinte:

      (Assumindo que exista uma parcela da população que nem trabalhe demais nem passe fome, e é, portanto, feliz).

      (1) Capitalismo requer a existência de grandes corporações ou as tem como inegável consequência;
      (2) Todas as corporações precisam de um empresário ou de uma sociedade para gerí-los;
      (3)Capitalismo requer a existência de empresários e/ou sociedades que comandam grandes corporações ou os tem como inegável consequência. (de (1) e (2));
      (4) Empresários e sociedades que comandam grandes corporações são pessoas infelizes;
      (5) O capitalismo depende da existência de pessoas infelizes ou os tem como inegável consequência.(de (3) e (4)).

      Eu não sei sobre (1) porque não sou muito familiarizado com as vertentes dos pensadores liberais atualmente, mas parece que a existência da grande corporação é necessária, senão inevitável consequência, do capitalismo.
      (2) dispensa defesas e (4) é provavelmente verdade dados nossos conhecimentos de psicologia humana. (Ainda acho que precisa de mais apoio, nenhum cientista já pesquisou sobre isso?).

      Por fim, se o argumento é sólido, então parece que a ideia defendida no texto, que o capitalismo não visa a felicidade, é suportada pela conclusão de que capitalismo necessita de pessoas infelizes (ou inevitavelmente as faz existir).

        Robson Fernando de Souza

        fevereiro 29 2016 Responder

        Isso mesmo, Narciso. O capitalismo como existe hoje não visa trazer felicidade a ninguém, nem aos bilionários. E precisa essencialmente de pessoas infelizes pra vender muitos de seus produtos.

Newton

fevereiro 23 2016 Responder

“No século 20, a luta operária, em grande parte anticapitalista, conseguiu vitórias decisivas que tornaram grande parte do trabalho industrial, comercial e de serviços minimamente suportável. Se não fosse ela, ainda seríamos obrigados a trabalhar insalubremente 16 horas por dia, sem férias, folgas e outros direitos básicos, por salários miseráveis. E dependeríamos da misericórdia de alguns poucos patrões fordistas que viessem nos oferecer empregos menos indignos para sair dessa situação de subvida.”

A grande diferença entre o trabalho no socialismo e no capitalismo é que no segundo o fruto de nosso esforço pertence a nós, e não ao estado. E eu só trabalho 16 horas por dia se eu quiser, não por obrigação.
Em relação ao que foi dito sobre “patrões fordistas”, o interessante é que Henry Ford somente conseguiu realizar seu intento através do empreendedorismo privado, algo que naõ é o forte de qualquer sistema que não seja o capitalismo. Ou seja, afirmou-se que os males do capitalismo foram combatidos pelo…capitalismo!!!

    Narciso

    fevereiro 29 2016 Responder

    Hmm, me parece que se a jornada de 16 horas fosse opcional, as lutas dos trabalhadores para a redução dessa carga horária foram desnecessárias, afinal eles poderiam apenas não trabalhar 16 horas.

    O que implora a questão: O que os fez trabalhar 16 horas para começo de conversa? Se houvesse outra opção cabível no momento, certamente os trabalhadores teriam optado por ela. Então ou (1) os trabalhadores escolheram deliberadamente trabalhar por 16 horas (assim como você mantém que os trabalhadores atuais fazem) ou (2) eles foram forcados pelas circunstâncias, I.e. precisavam alimentar a família, auto sustento, etc.

    Eu acredito que a probabilidade de (2) supera muito a de (1). No entanto, se você sugere que o trabalhador ainda mantém a escolha apesar das circunstâncias, isto é, a escolha última foi dele, então parecemos estar diante de um problema.
    O marujo tem a escolha de descer a prancha, mesmo com uma arma apontada à ele pelas costas?

      Newton

      março 2 2016 Responder

      Sim, parece incrível, mas as leis trabalhistas são um obstáculo àqueles que querem ganhar mais; se um trabalhador deseja estender sua jornada de trabalho voluntariamente, é impedido pelo patrão, justamente pela excessiva oneração imposta pelas leis trabalhistas. Na prática, para não ficar sobrecarregado por impostos, adicionais, etc., o dono da empresa acaba não deixando o funcionário trabalhar mais do que o permitido por lei, apesar do mesmo desejar. Pior para o empregado.
      Em relação à sua segunda hipótese, o obstáculo imposto pelas leis trabalhistas fica ainda mais evidente. Obviamente, sabemos que se quisermos ganhar mais, deveremos trabalhar mais, e não há nada de errado nisso, desde que seja de livre escolha. Mas caímos novamente no empecilho colocado pela excessiva regulação do setor. Neste caso, o causador do infortúnio do trabalhador são as circunstâncias, que não são da responsabilidade nem do patrão e nem do empregado. Se houvessem mais liberdades com leis mais flexíveis e que não onerassem tanto o empresário, todos seriam mais felizes.

Newton

fevereiro 22 2016 Responder

“A diferença entre o remédio e o veneno está na dose.”

    Nathalie

    março 5 2016 Responder

    os telemarketing e cortadores d cana precisam trabalhar mais pra conseguir ganhar 1200 reais por mes, tempo q poderia estar sendo gasto com sua familia ou com cultura, tipo ler livros, ir ao cinema. se tivessem um salario digno pra uma jornada, nao precisariam trabalhar mais do q uma jornada. qdo falamos d trabalhadores nao podemos considerar apenas os vendedores d carro ou corretores da bolsa, q ganham por comissao. temos q pensar na verdadeira peozada q faz a roda do comercio girar e a vida deles é uma miseria.

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