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fev16

A controvérsia socioambiental de megausinas de energia solar
Projeto Ituverava, enorme usina de energia solar, em construção na Bahia

Projeto Ituverava, enorme usina de energia solar, em construção na Bahia

Está em construção, na Bahia, a usina de energia solar atualmente chamada Projeto Ituverava, que, quando pronta, será a maior usina fotovoltaica da América Latina. Prevê uma capacidade de geração de 253MW e produção anual de 500GWh. O projeto tem sido elogiado por muitas pessoas, que acreditam que ele é um grande passo adiante na sustentabilização da geração de eletricidade no Brasil. Mas será que sua construção é realmente uma notícia positiva para o meio ambiente e a sociedade?

Faço essa pergunta tendo em vista dois problemas que permeiam esse e outros projetos enormes: os impactos ambientais negativos de usinas solares de grande porte e os problemas inerentes à geração centralizada e capitalista de energia. Levando-os em consideração, podemos perceber que megausinas de energia renovável podem deixar de ser uma esperança para se tornar um pesadelo, mais um entre tantos com que somos obrigados a lidar na temática ambiental.

Em relação aos impactos ambientais, são numerosos, ao contrário do que a fé do senso comum acredita. O site governamental estadunidense Solar Energy Development Programming EIS expressa preocupações com as seguintes consequências destrutivas:

– Perturbação de áreas vizinhas (fazendas, unidades de conservação ambiental, cidades etc.), devendo essas usinas ser construídas isoladas, distantes de locais onde possam causar esse tipo de interferência;

– Desmatamento local e destruição de colinas, morros e vales, com o aplainamento do terreno;

– Morte de pássaros que sobrevoarem os painéis, mesmo dezenas de metros acima, por queimaduras e calor excessivo;

– Uso intensivo de energia não renovável e metais pesados na fabricação dos painéis solares e outros equipamentos da usina.

Além disso, quando usadas para fins de abastecimento industrial, para favorecer a construção e inauguração de novas fábricas, as megausinas podem provocar impactos ambientais indiretos, por conta das consequências nocivas daquelas empresas que não vierem a promover uma gestão ambiental séria.

Já em se tratando da geração de energia de maneira centralizada e com fins capitalistas, temos como consequências indesejáveis a dependência crônica da população abastecida da empresa que transmite a energia. Quando submetida a uma regulação econômica fraca, a companhia pode se sentir no direito de aumentar abusivamente as tarifas e não prover um serviço decente, tal como tem acontecido comumente em grande parte do Brasil.

E famílias que não podem arcar com uma energia cara podem ter diversos direitos inviabilizados, como a alimentação, a segurança, o lazer, a proteção contra calor ou frio excessivos e o conforto fisiológico básico do descanso e do sono. Em outras palavras, a aparente solução ambiental da megausina solar pode apertar ainda mais os grilhões que prendem os cidadãos à ordem capitalista.

Uma solução realmente sustentável, com impactos socioambientais adversos muito pequenos, seria a geração descentralizada de eletricidade renovável. Cada casa ou comunidade contaria com sua própria usina de pequeno porte, que poderia, a depender da região e de suas peculiaridades geográficas, ser movida a energia solar, a ondas, a calor geotérmico, a força eólica, entre outras, inclusive hidrelétrica – uma vez que a usina não desfigure o rio onde for implantada nem desmate as margens.

Isso tornaria as pessoas independentes de taxas e tarifas para se sustentar e desfrutar de todos os direitos inerentes ao consumo de eletricidade. O dinheiro que hoje é pago para empresas de transmissão de energia teria muitas outras possibilidades de ser despendido ou investido comunitariamente.

O fortalecimento dos movimentos sociais tem levado a sociedade a repensar aquilo que parecia ser uma solução ecológica formidável, mas na verdade tem impactos socioambientais bastante destrutivos. E o caso de megausinas de energia solar como o Projeto Ituverava é uma dessas coisas a serem reavaliadas pela população. Precisamos reivindicar e desenvolver alternativas que realmente poupem o meio ambiente de grandes consequências destrutivas e promovam a democratização econômica.

imagrs

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Newton

fevereiro 23 2016 Responder

Além disso, as pessoas não mais estariam dependentes das mega usinas, e se tornariam dependentes dos fabricantes de geradores, que estariam dependentes dos fornecedores de matérias primas, que estariam dependentes das empresas de mineração, etc, etc. Não dápra não depender de nada e de ninguém. A única maneira de conseguir isso é retornando ao tempo das cavernas e vivendo sozinho, mas mesmo assim, dependeríamos do clima, das safras sazonais, etc..
Resumindo: a vida fora da sociedade é um lixo, e é muito mais fácil e produtivo utilizarmos nossos talentos individuais e trocarmos coisas ou serviços com outros talentos. O resto subentende-se

Newton

fevereiro 23 2016 Responder

É desnecessário eu ser proprietário de algo que é um bem de capital. A eletricidade somente interessa como utilidade.

Além disso, as pessoas não têm “direito à eletricidade”, justam,ente pelo fato de que ninguém tem obrigação de produzi-la. Direitos não existem sem que haja a contrapartida da obrigação de outro.

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