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O que é “vitimismo”? É aquilo no que vivem incidindo aqueles que adoram chamar minorias políticas de “vitimistas”

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Uma palavra, ao longo desses últimos anos, caiu no gosto de muitos reacionários e opositores dos Direitos Humanos: “vitimismo” (ou seu sinônimo “coitadismo”). Para eles, pessoas insubmissas que, em nome das minorias políticas às quais pertencem, se revoltam contra a discriminação e o preconceito que sofrem cotidianamente são “vitimistas”. Mas o que realmente significa essa palavra? E, aliás, quem realmente está sendo “vitimista”?

O Dicionário Informal define o “vitimismo” como “a doença das pessoas que se acham punidas com qualquer coisa ou assunto”, e os “vitimistas” como “qualquer pessoa que é ligada, ou adepta ao vitimismo; pessoa mentirosa, falsa, hipócrita, fingida, arrogante”.

Dadas essas definições, podemos perceber nas redes sociais que o rótulo reacionário do “vitimismo” costuma ser usado para atribuir um tom de falsidade e exagero às queixas de pessoas que repudiam, por exemplo, discursos de ódio e piadas preconceituosas. Para quem não conhece as dores de uma vida constantemente fustigada por racismo, machismo, heterossexismo, transfobia, intolerância religiosa e/ou outros preconceitos, a queixa da mulher, do negro, da pessoa homossexual, da pessoa trans, da pessoa adepta de alguma minoria religiosa ou irreligiosa etc. é sempre “exagerada”, e essas pessoas “se fazem” de vítimas de tais ódios.

“Se fazem” porque, para um homem branco cisgênero heterossexual cristão conservador dotado de tantos privilégios e imune a todas as formas citadas de inferiorização moral, sentir-se ofendida(o) diante destas é “frescura”, é “fraqueza”, é “não aguentar a lei da selva” que supostamente rege a sociedade. E qualquer manifestação de descontentamento com tais tradições é vista como uma maneira de “se fazer de vítima”, afinal, não são vítimas verdadeiras delas.

Essa impressão vai na lógica distorcida da falácia egocêntrica: considerar a si mesmo como parâmetro universal, padrão global, de ser humano. Consiste em acreditar que, se ele não sofre diante de demonstrações de discriminação racial, de gênero, de orientação sexual, de classe etc., é “lógico” que todos os demais seres humanos também têm tal imunidade. É baseada na falta de empatia, de senso de aceitação e respeito às diferenças e também de conhecimento histórico sobre as variadas categorias de dominação, discriminação e ódio ao diferente que flagelam, com intensidades diversas, a grande maioria da humanidade.

Para o indivíduo que acusa quem é diferente dele de “vitimista”, só seria verdadeiramente vítima a pessoa assassinada ou gravemente ferida por causa de algum crime de ódio óbvio. Quando rejeita rir de uma piada racista, machista, homofóbica, transfóbica ou pauperofóbica, a pessoa estaria “se doendo demais diante de algo tão inofensivo”. Afinal, para o multiprivilegiado sem empatia por quem é diferente, o gênero “politicamente incorreto” de piadas é “inofensivo” e até “engraçado”, “incapaz” de ferir o psicológico de alguém.

“Se faz” de vítima, não é realmente vítima, afinal não saiu com o corpo ferido – não importa se se sentiu muito ofendida, humilhada e verbalmente agredida de maneira sutil (ou não tão sutil assim). Por isso é considerada uma pessoa “vitimista”, que estaria “mentindo” sobre a gravidade do preconceito sofrido.

Fica claro que essa rotulação pejorativa é uma maneira de diminuir a dor da outra pessoa, tentar conservar seu “direito” de não rever e desconstruir seus privilégios e preconceitos. É fazer parecer que o problema não está no preconceito manifestado e no preconceituoso, mas sim em quem sofre por causa de ambos. O rotulador transfere o problema para quem sofre com o preconceito dele e se sente psicologicamente livre para continuar tratando outras pessoas como inferiores.

Mas é falando de estados psicológicos que vemos uma faceta bem curiosa de muitos que adoram rotular outrem de “vitimistas”. Eles mesmos assumem uma postura de falsas vítimas quando são intimados a parar de promover preconceito e discriminação.

Passam a dizer peripécias como a crença de que “o homem branco heterossexual conservador é o maior alvo de preconceito na sociedade hoje” e alegações de que está sofrendo “heterofobia”, “cristofobia”, “misandria” (ou “femismo”) e “racismo reverso”. Projetos de lei de bancadas reacionárias que intencionam excrescências como a criminalização da “heterofobia” e a punição rigorosa a atos de “cristofobia” são exemplos vívidos disso.

Considerando que não são alvos de preconceitos estruturais, nem passaram a vida sofrendo privações por motivos de discriminação (de gênero, raça, religião, classe, orientação sexual, identidade de gênero, deficiência etc.), sua “queixa” de que estão “sofrendo preconceito” das minorias políticas é uma tentativa de silenciá-las e colocá-las “de volta ao seu lugar”. Não é uma verdadeira demonstração de que está sendo vítima de uma violência verbal, física, psicológica ou simbólica.

Ou seja, segundo o próprio conceito reacionário de “vitimismo”, eles são os próprios “vitimistas” em pessoa. Fraquejam diante da reação das minorias políticas que não aceitam mais a submissão e o silêncio. Forjam que estão sendo “vítimas” delas, simplesmente para que não percam o falso direito de continuar vitimando-as verdadeiramente com seu preconceito e falta de empatia.

Com isso, me sinto à vontade de dizer: “vitimismo” é o que os reacionários fazem ao dizerem estar sendo “ofendidos” pelas minorias políticas insubmissas quando estas reagem ao ódio deles. “Vitimistas” são aqueles que de dia enchem a boca ou os dedos para atribuir tal rótulo às revoltosas e revoltosos dessas categorias, mas de noite não hesitam em se dizer “vítimas de preconceito reverso” quando têm seus privilégios ameaçados. Vítimas de verdade são sim as pessoas que sofrem por causa de opressões, e não os opressores que se ressentem quando elas reagem – só elas sabem mesmo o que é sofrer por causa de discriminação, “humor” antiético e discursos de ódio.

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10 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Gabriel

novembro 23 2016 Responder

Eu tenho uma teoria: chamo ela de “A REVOLTA DOS COMUNS”.
Na minha opinião, o que estamos observando tem duas causas:
A primeira: a pessoa comum, classe média, trabalhadora, religiosa e para quem a família é tudo de repente passou a representar todo o mal do mundo:
* Pessoas que nunca foram donos de escravos passaram a ser cobrados por quem jamais foi escravo uma certa dívida histórica sem jamais entenderem porquê. Ato contínuo, passaram a ser taxados de racistas;
* Pessoas que apenas queriam viver sua religião passaram a ser tratados como extremistas, e acusados de toda sorte de coisa;
* Pessoas que apenas estavam preocupados em criar seus filhos dentro dos princípios morais que lhes conviesse passaram a ver o Estado querer doutrinar seu filho intelectual e espiritualmente.
* Pessoas que só queriam ter um emprego para sustentar a família, perderam esse emprego por conta de um processo de globalização que não entendem. (Ps.: quanto mais comércio, melhor, é a primeira lição das aulas de economia, mas não pode deixar o desemprego estrutural se instaurar).
Assim, essas pessoas estão se rebelando. Mas como você não percebe isso?
Simples. Se você se informa pelos meios de comunicação em massa, curte Quebrando o Tabu e segue esses artistas hipsters que se acham descolados e gosta de políticos de esquerda, uma má notícia para você: Esse grupo vive numa realidade paralela. Adotou um discurso que não reflete o pensamento da pessoa comum. No alto da sua arrogância, tenta adaptar o mundo à sua narrativa e não narrar como o mundo se comporta. O resultado é esse descolamento da realidade e sua surpresa com o que está acontecendo.
Mas a surpresa é sua, não minha!!

Ahladi

setembro 24 2016 Responder

“Destes vitimadores exige-se que sintam culpa e remorso pelas VÍTIMAS, e consequentemente — uma vez que não faz sentido se sentir culpado sem pagar por isso — assumam vários deveres e concedam infindáveis privilégios às “vítimas credenciadas”, seja sendo PACIFICAMENTE ASSALTADO NA RUA, seja FORNECENDO VAGAS DE TRABALHO ou em UNIVERSIDADES POR MEIO DE COTAS, seja concedendo salários sem nenhuma relação com a produtividade.” Eu entendi bem a relação entre as partes que estão em CAPS ou você é um troll fingido? Depois dizem que discriminação não existe. Preconceito evidente.

Lindsey

agosto 2 2016 Responder

Newton, parabéns! Vc disse tudo, é exatamente isso, seu comentário está totalmente certo, seu ponto de vista e perfeito, afinal vítima é vítima e vencedor é vencedor! Só resta saber de que lado as pessoas querem ficar, das vítimas ou dos vencedores!

Beto Fernandes

junho 23 2016 Responder

Bom dia Róbson.

Essa página de consciência é muito boa, não é por acaso que o número de visitantes tá aumentando. Apesar de ter algumas ressalvas sobre o veganismo (e de eu ser carnista), tem muitas coisas que eu adoro (principalmente aquelas páginas que falam sobre as pérolas da coligação MBL-ROn-VPraR-PSDB-NOVO-PSC-Veja-Globo, as famosas “Pérolas Coxinhas”);
Muita sorte na vida, rapaz, e que continue com esse site fantástico.

    Robson Fernando de Souza

    junho 23 2016 Responder

    Valeu, Beto =) Abs!

Augusto

fevereiro 16 2016 Responder

Comentário ofensivo contra outros comentadores apagado. Peço que comente com respeito, sem usar de grosseria, agressividade e adjetivos depreciativos contra quem não concorda com você (e não veio trazer preconceitos e ódios). RFS

Alex

fevereiro 12 2016 Responder

Vamos ser francos, qualquer pessoa pode ser discriminado: mesmo se você for homem, branco, heterossexual, de classe média, cristão, morar em uma grande cidade da região sudeste, não ter nenhuma deficiência e nem for velho ou adolescente e tudo mais que as pessoas argumentam pode vir de uma família desajustada, e sofrer abandono afetivo.

Da mesma forma, uma mulher negra que veio da periferia pode ter os pais que a amam muito e a incentivam a estudar e se esforçar desde cedo. É provável que esta aí tenha mais privilégios que o homem de cima, que por falta de estrutura emocional pode se envolver com drogas e não terminar nem o ensino médio.

Então, acho que os jovens deveriam aprender aquela verdade que Bill Gates disse “a vida não é fácil, se acostume a isso” e, ao invés de procurarem desculpas para seus fracassos (vitimismo), fossem ensinados a procurar soluções.

    Carlos

    fevereiro 16 2016 Responder

    “Vamos ser francos, qualquer pessoa pode ser discriminado: mesmo se você for homem, branco, heterossexual, de classe média, cristão, morar em uma grande cidade da região sudeste, não ter nenhuma deficiência e nem for velho ou adolescente”

    Vc conhece alguém, mesmo que não seja amado por usa família, como vc descreveu, que seja discriminado por ter as características que vc citou acima? Seja sincero, meu amigo.

    “Da mesma forma, uma mulher negra que veio da periferia pode ter os pais que a amam muito e a incentivam a estudar e se esforçar desde cedo”

    Tipico discurso da ilusão meritocrática. Certamente ser amado é muito bom para a auto-estima, mas me diga, em que isso seria vantagem pra a tal mulher descrita por vc, numa competição por uma vaga de trabalho contra um HOMEM E BRANCO? Vc acha que a MULHER NEGRA amada por sua família (o que é comum em qualquer classe ou raça) teria alguma vantagem sobre um HOMEM BRANCO só por ser amada pela sua família? O patrão que vai fazer a escolha vai optar por quem merece mais? Seja sincero e coloque os pezinhos no chão. O seu argumento não tem lógica nenhuma.

    “Então, acho que os jovens deveriam aprender aquela verdade que Bill Gates disse “a vida não é fácil, se acostume a isso” e, ao invés de procurarem desculpas para seus fracassos (vitimismo), fossem ensinados a procurar soluções.”

    Vc acabou de replicar o discurso reacionário do sujeito que vive uma situação de privilegio e não tem empatia nenhuma com os que REALMENTE SOFREM, porque desconhecem essa realidade e não tem nem ao menos curiosidade em saber o porque. “a vida não é fácil, se acostume a isso” ????? Ou seja, vc é preconceituado e discriminado por ser o que vc é. ACEITE ISSO QUE DÓI MENOS! É essa a sua proposta? Leia o texto de novo cara, por favor. Vai fazer bem pra vc.

      Newton

      fevereiro 21 2016 Responder

      Alguns grupos já adquiriram o status de “vítimas oficiais” — são aqueles que têm direito a tudo, principalmente ao bolso dos outros cidadãos, os quais, justamente por não estarem no grupo oficial das vítimas, estão consequentemente no grupo dos criminosos, e são os “vitimadores oficiais”, normalmente homens brancos, heterossexuais e bem-sucedidos.

      Destes vitimadores exige-se que sintam culpa e remorso pelas vítimas, e consequentemente — uma vez que não faz sentido se sentir culpado sem pagar por isso — assumam vários deveres e concedam infindáveis privilégios às “vítimas credenciadas”, seja sendo pacificamente assaltado na rua, seja fornecendo vagas de trabalho ou em universidades por meio de cotas, seja concedendo salários sem nenhuma relação com a produtividade.

      Simplesmente não há maneiras de um determinado indivíduo deixar de ser culpado. E foi isso que nossos libertadores progressistas nos impuseram.

      Milhões de “chineses expatriados” emigraram da China completamente destituídos e quase sempre iletrados. E isso ocorreu ao longo dos séculos. Independentemente de para onde tenham ido — se para outros países do Sudeste Asiático ou para os EUA —, eles sempre começaram lá embaixo, aceitando empregos duros, sujos e frequentemente perigosos.

      Mesmo sendo frequentemente mal pagos, estes chineses expatriados sempre trabalhavam duro e poupavam o pouco que recebiam. Era uma questão cultural. Vários deles conseguiram, com sua poupança, abrir pequenos empreendimentos comerciais. Por trabalharem longas horas e viverem frugalmente, eles foram capazes de transformar pequenos negócios em empreendimentos maiores e mais prósperos. Eles se esforçaram para dar a seus filhos a educação que eles próprios não conseguiram obter.

      Já em 1994, os 57 milhões de chineses expatriados haviam criado praticamente a mesma riqueza que o bilhão de pessoas que viviam na China.

      Variações deste padrão social podem ser encontradas nas histórias de judeus, armênios, libaneses e outros emigrantes que se estabeleceram em vários países ao redor do mundo — inicialmente pobres, foram crescendo ao longo de gerações até atingirem a prosperidade. Raramente recorreram ao governo, e quase sempre evitaram a política ao longo de sua ascensão social.

      Tais grupos se concentraram em desenvolver aquilo que economistas chamam de “capital humano” — seus talentos, habilidades, aptidões e disciplina. Seus êxitos frequentemente ocorreram em decorrência daquela palavra que a esquerda raramente utiliza em seus círculos refinados: “trabalho”

      A agenda da esquerda — promover a inveja e o ressentimento ao mesmo tempo em que vocifera exigindo ter “direitos” sobre o que outras pessoas produziram — é um padrão que tem se difundido em vários países ao redor do mundo.

      Esta agenda raramente teve êxito em retirar os pobres da pobreza. O que ela de fato logrou foi elevar a esquerda a cargos de poder e a posições de autoexaltação — ao mesmo tempo em que promovem políticas com resultados socialmente contraproducentes.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo