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fev16

O erro da charge que desenha Dilma como mosquito “vetor do vírus crise”
A charge de Miguel expressa desconhecimento sobre o funcionamento da economia e da política no Brasil e, por tabela, quem são os responsáveis pelas situações de instabilidade político-econômica

A charge de Miguel expressa desconhecimento sobre o funcionamento da economia e da política no Brasil e, por tabela, quem são os responsáveis pelas situações de instabilidade político-econômica

Hoje de manhã dei de cara com uma charge do cartunista Miguel, no site do Jornal do Commercio, de Pernambuco. Nele a presidenta Dilma Rousseff é retratada como um mosquito gigante que seria “o vetor do vírus crise”. Considerando que muitas pessoas compram esse discurso de que a crise econômica e política seria culpa exclusiva ou principal de Dilma, me senti na necessidade de escrever este texto para mostrar que não é bem assim que funciona a ordem política e econômica no mundo.

O fato é que nem em monarquias absolutas e ditaduras autocráticas a responsabilidade total ou majoritária de crises econômicas e políticas é necessariamente do governante maior (monarca ou presidente). Economia e política não são coisas que possam ser exercidas ou controladas por um único indivíduo, nas quais não haja o envolvimento de milhares de outras pessoas detentoras de poder e capital. Na prática a ordem não é tão hierarquicamente acentuada assim.

Numa crise econômica, há a responsabilidade de especuladores financeiros, grandes empresários envolvidos em escândalos, bancos promovendo interferências predatórias na economia (por meio principalmente de juros exorbitantes), equipe econômica governamental promovendo um gerenciamento capenga da economia etc.

Nesse meio, por ser constitucionalmente a superior do Ministro da Fazenda e de outros ministros diretamente engajados em políticas de desenvolvimento econômico, Dilma tem sim sua parcela de responsabilidade. Afinal, não empregou bons ministros, que soubessem gerir democrática e sustentavelmente a economia. Mas daí para dizer que ela é a grande cabeça da crise, há uma distância muito grande.

E quanto à crise política, lembremos que temos hoje o Congresso mais conservador desde as vésperas do golpe militar de 1964. Com seus frequentes investimentos em tentar derrubar Dilma por meio do impeachment e votar projetos de lei que oprimem a sociedade e sufocam o Orçamento da União, a Câmara Federal tem tido um papel decisivo em manter o Brasil no limbo da instabilidade política e também econômica. E constitucionalmente Dilma não tem poderes para cassar os deputados pró-impeachment, tampouco (felizmente) fechar o Congresso. Nem para dirigir sozinha a economia.

Se fôssemos designar “mosquitos transmissores do vírus crise”, não teríamos apenas Dilma como “mosquita”. Teríamos centenas ou milhares de mosquitos com cabeça humana transmitindo o tal vírus. Banqueiros, especuladores financeiros, deputados e senadores reacionários que governam para si mesmos, grandes empresários sedentos de lucro acima da ética, membros da atual e capenga equipe econômica, formadores de opinião política maliciosos, defensores da atual ordem de democracia fraca… Afinal, política e economia possuem milhares de cabeças humanas, não são algo que Dilma sozinha pode controlar e cujos problemas ela pode resolver sem apoio e colaboração de outrem.

Acreditar e propagar a ideia de que Dilma é “a transmissora do vírus da crise” é demonstrar ignorância sobre como funcionam o sistema político brasileiro e a economia capitalista e o que diz a Constituição. Quem crê nesse falso absolutismo atribuído a Dilma não tem noção de que, quando falamos de economia e política, estamos falando de sistemas, que inclusive são permanentemente interligados, e não de indivíduos a quem jogar toda ou a maior parte da culpa por crises. Melhor dizendo, se queremos culpar algo ou alguém por as coisas não estarem funcionando como idealmente deveriam, responsabilizemos a estrutura do capitalismo, suscetível a instabilidades por natureza, e a ordem política nacional, pouco afeita aos valores caros à democracia e à participação popular nas decisões dos mandatários.

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Newton

fevereiro 23 2016 Responder

” Economia e política não são coisas que possam ser exercidas ou controladas por um único indivíduo, nas quais não haja o envolvimento de milhares de outras pessoas detentoras de poder e capital.”

Pois é…é justamente isso que nossa honrada “presidenta” está fazendo.

Rodrigo

fevereiro 20 2016 Responder

O pior cego é realmente aquele que não quer ver. O partido dos “trabalhadores” de fato não sabe administrar. O Brasil está nesta crise por culpa única e exclusiva do criador e da criatura. Oras, a coisa começou a descambar no final do mandato do dono oculto do tríplex. Todos sabem disso. Foi uma sucessão de medidas erradas e desastrosas. E agora o tempo está cobrando, e qual a solução? Mais imposto nos empresários, que já estão falidos, e no povão, na classe trabalhadora, que é a que mais sofre. E as evidências estão aí, cada vez mais, a cada dia, a fila do desemprego cresce. O socialismo nunca deu certo em nenhum país, a inflação bate recorde a cada semana. Vide Cuba e Venezuela – a Venezuela está realmente na merda – . Mas desta vez, creio que o povo está começando acordar, pois a Dilma foi e está sendo a pior presidente da nossa história e sua popularidade já desabou bem como do hipócrita barbudo. [Trecho ofensivo e desrespeitoso apagado. Se quiser ter o direito de continuar comentando aqui, respeite quem não concorda com você. Está advertido. RFS]

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