08

fev16

A essência conservadora e conformista das pesquisas que atrelam posição política a QI ou estrutura cerebral
Segundo algumas pesquisas, a diferença entre as posições políticas das pessoas é uma questão cerebral. Na imagem, o elefante é símbolo do Partido Republicano estadunidense, conservador, e o burro é do Partido Democrata do mesmo país, mais à esquerda.

Segundo algumas pesquisas, a diferença entre as posições políticas das pessoas é uma questão cerebral. Na imagem, o elefante é símbolo do Partido Republicano estadunidense, conservador, e o burro é do Partido Democrata do mesmo país, mais à esquerda.

Têm sido divulgadas, de tempos em tempos, notícias relacionando questões mentais, como o QI e diferenças neurológicas, com posições políticas. Segundo elas, quem tem mais QI e/ou determinada estruturação de neurônios e atividades cerebrais tende a ser de esquerda, enquanto pessoas de QI menor e/ou com outras disposições neurais tendem a abraçar posições de direita. Mesmo que algumas dessas matérias tendam a elogiar sutilmente pessoas de esquerda, elas todas convergem para uma visão de mundo conservadora, fatalista, determinista.

Essas reportagens superestimam a questão biológica e subestimam a influência do meio. São, como a Filosofia chama, demasiadamente inatistas, já que argumentam que as pessoas já nascem predestinadas a certas crenças e convicções, contendo-as inatas dentro de si enquanto crescem.

Nessa posição filosófica, ignora-se ou nega-se que a pessoa é aquilo que aprende a ser ao longo de sua vida, em sua socialização na família, na escola e também sob as influências que recebe da imprensa, da religião e da propaganda estatal direta (cerimônias cívicas, propagandas institucionais etc.) e indireta (mídia governista, educação moral e cívica parametrada pelo Estado etc.). Considerando-se isso, o ser humano pode, por exemplo, ser um adolescente conservador e se tornar, ao longo de seu amadurecimento juvenil, um adulto convictamente socialista democrático. Ou pode caminhar no sentido contrário, deixando de ser um jovem utopista de esquerda e se tornando um adulto de meia-idade reacionário.

Percebemos que essas matérias falam muito das diferenças entre os cérebros de pessoas ideologicamente distintas, mas ignoram que a experiência humana molda o cérebro ao longo da vida do indivíduo. Ou seja, não levam em conta que aquela diferença atestada num eletroencefalograma entre os cérebros de um conservador e de um socialista não surgiu no nascimento dos dois, mas sim foi se desenvolvendo ao longo de suas vidas.

É necessário lembrar, além disso, que o QI diz respeito, predominantemente, às inteligências lógico-matemática e linguística, aquelas que são as mais priorizadas pela maioria das escolas do Ocidente. Outros tipos de inteligência (vide a teoria das inteligências múltiplas, de Howard Gardner), como a corporal-cinestésica, a musical, a interpessoal e a naturalista, não costumam ser levados em conta em experiências e testes envolvendo quociente de inteligência. Portanto, esse tipo de experimento pode ter uma visão muito parcial, incompleta, da inteligência e da neurologia de pessoas com crenças políticas diferentes.

Entrando na lógica dessas pesquisas, aliás, seria possível inferir diferenças de QI e disposição neurológica também entre liberais sociais estadunidenses (considerados de esquerda em seu país) e comunistas, ou entre socialistas libertários e socialdemocratas, ou entre comunistas clássicos e anarquistas. Não é razoável colocar esquerda e direita como se fossem posições políticas homogêneas, como se só existissem liberalismo social e conservadorismo.

E é necessário perceber que a mensagem final que essas pesquisas passam é que, por “mais inteligentes do que os conservadores” que as pessoas de esquerda sejam, elas fracassarão em construir um mundo onde reinem a justiça e igualdade sociais, a liberdade (em seu conceito de esquerda) e a solidariedade. Afinal, sempre existirão os “conservadores natos” para atrapalhar e impedir, e estes nunca poderão ser conscientizados, já que têm cérebros irreversivelmente diferentes.

E pior, acabam apostando, mesmo que sem intenção, que é mais provável os conservadores triunfarem e reprimirem ao silêncio da censura os que têm “cérebro de esquerda”. Nesse antagonismo de forças políticas que vira uma disputa entre cérebros rivais, aqueles que apostam na educação e conscientização sempre perderão para quem aposta no triunfo pela força autoritária e pela repressão.

Duvidemos dessas matérias que tentam dar uma roupagem mental à política. Elas são essencialmente conformistas, diminuem imprudentemente a importância da experiência de vida individual e vêm dar um tom de impossibilidade à disseminação da conscientização política além de um dado limite estrito. Acabam não sendo tão fiéis à realidade, no que tange a entender como e por que as pessoas começaram a pensar o que pensam politicamente.

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