10

fev16

Liberal-reacionarismo: a defesa de uma “modernidade econômica” baseada em retrocesso social e político
Os liberal-reacionários foram peças-chave nos protestos de direita pró-impeachment que aconteceram no ano passado

Os liberal-reacionários foram peças-chave nos protestos de direita pró-impeachment que aconteceram no ano passado

Tem tido destaque no Brasil, por meio de diversos “institutos liberais”, outros think tanks e formadores de opinião de direita, uma corrente político-ideológica ao mesmo tempo a favor da “dinamização” da economia e agressivamente contra avanços sociais e políticos. É o que eu chamo de liberal-reacionarismo, que ostenta um rótulo de “liberal”, mas tem uma essência conservadora e antipopular.

Do liberalismo, os liberal-reacionários só aproveitaram o pior e mais destrutivo lado: o econômico, alheando-o de qualquer responsabilidade social. São exemplos de reivindicações e pensamentos “liberais” desse ramo da direita brasileira a privatização total do patrimônio estatal e dos serviços públicos, a eliminação da função social do Estado, a desregulamentação do mercado, o favorecimento das desigualdades de renda e riqueza, a veneração supremacista ao capitalismo e a conversão de direitos sociais em privilégios a serem comprados. Em resumo, a única coisa que têm de “liberal” é o radical da palavra “neoliberal”.

É curiosamente um “liberalismo” ferrenhamente conservador nos âmbitos social e político. Aliás, implica necessariamente políticas de retrocesso, como a revogação de políticas de redistribuição de renda, a desvalorização de políticas de igualdade de raça e gênero, a supremacia do econômico em detrimento de outros aspectos da sociedade (social, ambiental, ético-moral etc.), a já mencionada revogação de direitos sociais – por precisarem de um Estado não mínimo para serem assegurados – e a redução das funções constitucionais do Estado ao papel de aparelho repressor e mantenedor da ordem.

Fica claro que não leva a sério a multiplicidade de princípios do liberalismo, que também tem implicações sociais, no que tange a garantir direitos básicos, respeitar as liberdades individuais não econômicas e fomentar a igualdade de oportunidades para a ascensão social. Nem mesmo com o bem-estar geral dos seres humanos, princípio que movia intelectuais clássicos como Adam Smith e John Locke a idealizarem a modernização da política e da economia com a derrubada da ordem feudal, o liberal-reacionarismo é comprometido. Afinal, está aí para garantir e proteger os privilégios de quem tem muitas riquezas ou possui chances elevadas de ficar rico, tal como as mais arcaicas e pré-liberais ideologias políticas de imposição da força, da injustiça e da desigualdade.

A autopropaganda dos liberal-reacionários alardeia a alto volume que “defendem a liberdade”. Mas pouco ou nada se importam com as liberdades que deveriam ser protegidas pelo asseguramento dos direitos civis das minorias políticas. Omitem-se ou são opositores em questões liberais básicas, como as liberdades de crença religiosa e de expressão e o direito à propriedade privada da maioria das pessoas. Via de regra, não são opositores dos conservadores e fascistas.

Em muitos casos, tentam censurar liberdades básicas alheias que tradicionalmente são defendidas no liberalismo, como a liberdade de expressão para criticar piadas preconceituosas e discursos de ódio e opinar politicamente à esquerda, silenciando quem traz tais opiniões críticas com desqualificações pessoais e pejorações como “justiceiros sociais”, “ditadores do politicamente correto” e até “socialistas” ou “comunistas”. E quando o assunto são bandeiras de movimentos sociais, como o feminista, o negro, o LGBT, os estudantis e os de trabalhadores urbanos e rurais, posicionam-se veementemente contra suas reivindicações, fazendo jus à parte reacionária de sua convicção ideológica de direita.

Resumindo grosseiramente sua postura política, defendem uma “modernidade econômica” na verdade estagnada no início do século 20 e, ao mesmo tempo, o retrocesso das liberdades e condições sociais da maioria da população a um estado praticamente medieval.

Fica evidente que o liberal-reacionarismo é uma das manifestações atuais da tradição brasileira da modernização conservadora. É um paradigma social-político-econômico baseado em fazer os números da economia crescerem ilimitadamente, a tecnologia a serviço do capitalismo progredir e a riqueza dos já ricos se multiplicar, enquanto os direitos sociais e políticos da grande maioria permanecem estagnados num estado injusto e não democrático.

Essa modernização conservadora vem desde as raízes ideológicas do Estado brasileiro, da “Ordem e Progresso” estampada na bandeira, escrita pelos positivistas da proclamação da república e aplicada na República Velha, na era Vargas, no populismo liberal entre ditaduras, no regime civil-militar de 64 a 85 e também na contemporaneidade pós-redemocratização.

Até hoje não se estabeleceu uma modernidade que rompesse com a ordem escravocrata, oligárquica, autoritária e patriarcal das épocas colonial e imperial. Essa tradição tirânica permanece viva, apesar de seres humanos não serem mais tratados pela lei como coisas e de estarmos num sistema político dito democrático. E o liberal-reacionarismo vem investir em conservar essa ordem, defendendo uma economia capitalista “moderna”, livre da interferência do Estado, e sua parceria com uma ordem social estagnada num estado de carência de cidadania, repressão contra questionadores do status quo e descaso com os valores da democracia.

Em outras palavras, os liberal-reacionários têm muito pouco de liberais além do rótulo que atribuem a si mesmos, e praticamente tudo de conservadores reacionários. Parecem não perceber que são na verdade opositores do lado humanista e social do liberalismo. Conhecendo-se a essência pró-retrocessos dessas pessoas e sua aliança com os mais medievais e militaristas ultraconservadores do cenário político, não nos deixemos enganar por elas e sua suposta defesa da modernidade e da liberdade.

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Danilo

fevereiro 16 2016 Responder

Esse blog é uma escola pra mim! Opiniões inteligentes, destruindo as baboseiras da direita.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo