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Que mundo você prefere? Um onde precise andar armado todo dia ou um de paz?

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Muitos direitistas assumidos reivindicam, como uma liberdade individual, o direito de andar armado. Afinal, assim “garantem o direito à autodefesa e a segurança”. Mas o que não percebem é que, entre um mundo de paz e ausência de crimes e um onde seja tornado necessário andar armado todos os dias e o tempo todo – e onde a violência só piore a cada dia –, estão optando pelo segundo.

Quem assume ou reproduz ideias conservadoras sobre segurança, costuma trocar com facilidade demais o ideal de uma cultura de paz pela efêmera e ilusória sensação de segurança. A defesa do armamento civil, nesse contexto, é a cereja do bolo de um discurso que é contra solucionar a violência urbana e rural por meio do tratamento de suas causas e raízes sociais.

O direito de andar armado só faz sentido – e de maneira muito limitada e controversa – numa sociedade em que as estatísticas de violência estão altas demais, fora de qualquer controle, e nenhuma solução é vislumbrada e discutida para diminuí-las. É algo que se defende quando se joga a toalha e se abandona qualquer perspectiva e esperança de que a criminalidade tem solução. É desistir da sociedade e partir para o “cada um por si”, o “salve-se quem puder”.

Mas não chegamos a esse ponto, de anomia total, de falência total e declarada das instituições de segurança pública. E é improvável que cheguemos.

Pelo contrário, está-se discutindo como reverter o alastramento da criminalidade, e sabe-se que construir soluções passa por identificar a origem, as raízes dela. Muitos teorizam que a violência no Brasil é fincada numa ordem de desigualdades sociais, discriminações e preconceitos disseminados, desamor à vida, naturalização e banalização da violência, autoritarismo em diversos âmbitos da sociedade e desencorajamento da empatia.

A solução, portanto, segundo muitos teorizam, passa por diminuir radicalmente tais desigualdades, substituir o capitalismo por um sistema econômico realmente humanitário e promover uma gradual mudança cultural, fomentando a cultura de paz e empatia, combatendo os preconceitos e as estruturas de opressão e desconstruindo o autoritarismo que fomos ensinados a cultivar e manifestar.

Isso vai na contramão do armamento dos civis o qual muitos direitistas têm defendido. O que estão defendendo, ao legitimar o uso da arma por todos, é fixar com pregos e martelo, no seio da sociedade brasileira, a cultura da violência, assim como o zelo egoísta do indivíduo por nada mais do que sua própria falsa sensação de segurança.

Considerando que o racismo, o machismo, o heterossexismo, a transfobia, a intolerância religiosa e outros ódios, assim como convicções políticas extremistas e intolerantes, são muito comuns entre muitos brasileiros, uma arma na mão de um autodenominado “cidadão de bem” pode causar estragos irreparáveis em vidas inocentes de pessoas, vítimas do ódio dele por serem de uma ou mais determinadas minorias políticas ou posições políticas. Em outras palavras, com o armamento civil, o número de bandidos – e, por tabela, de vítimas – irá se multiplicar, já que muitos “cidadãos de bem” se tornarão exímios assassinos.

Ou seja, armar civis só tende a afastar ainda mais os brasileiros do sonhado dia em que a criminalidade será reduzida a índices residuais em comparação a hoje. Com isso, quando se fala de soluções para a segurança dos inocentes, é necessário ter muita responsabilidade, bom senso, racionalidade, cabeça fria e ceticismo. E nunca se deixar encantar por supostas soluções fáceis, rápidas e mágicas, que podem na verdade se revelar desastrosas e piorar ainda mais a espiral de violência.

Diante desses problemas, é necessário perguntarmos a todo mundo que vier aceitar o discurso do armamento de “cidadãos de bem”: o que você realmente quer? Um mundo onde precise andar armado o tempo todo, sob o império do medo e da violência? Ou um onde você tenha realmente paz, a segurança não seja uma mera sensação ilusória e você possa confiar plenamente nas outras pessoas? Qual das duas é realmente desejável e saudável para você?

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6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Fábio da Silva

junho 15 2016 Responder

Respondendo ao questionamento do autor do texto, eu preferia um mundo de paz. Mas, nos dias de hoje, a sonhada paz – promovida pela segurança pública eficiente – é quase uma utopia. O Estado não dá conta de prover a segurança pública, mesmo com a alta carga tributária que o brasileiro paga (a cada cinco dias do ano, dois são só para pagar impostos). Dinheiro tem, falta habilidade, falta competência. Faltam também leis mais fortes contra os criminosos, leis que propiciem menos recursos. Falta um sistema penal mais efetivo, que faça o preso trabalhar para se sustentar. Enfim, são várias características somadas que trazem a triste sensação de impunidade. Essa falta de confiança no Estado faz com que o cidadão comum e de bem perca a fé no “público” e parta para o “individual”. E não há nada mais íntimo e individual do que o direito à defesa. Como essa individualidade é proporcionada? Através das armas.

Thays

março 31 2016 Responder

Acredito que o armamento civil traria consigo consequências positivas e negativas. E realmente não é a meçhor maneira de se buscar paz e segurança. Mas diante de um governo despreocupado quanto aos altos níveis de violência e a uma justiça tão falha quanto a punição e detenção de criminosos, parece a melhor opção para a população atual brasileira.

Newton

março 2 2016 Responder

Armas são objetos inanimados, tão inanimados quanto facas, tesouras e pedras. Costumes, tradições, valores morais e regras de etiqueta — e não leis e regulações estatais — são o que fazem uma sociedade ser civilizada. Restrições sobre a posse de objetos inanimados não irão gerar civilização.

Essas normas comportamentais — as quais são transmitidas pelo exemplo familiar, por palavras e também por ensinamentos religiosos — representam todo um conjunto de sabedoria refinado por anos de experiência, por processos de tentativa e erro, e pela busca daquilo que funciona. O benefício de se ter costumes, tradições e valores morais regulando o comportamento — em vez de atribuir essa função ao governo — é que as pessoas passam a se comportar eticamente mesmo quando não há ninguém vigiando. Em outras palavras, é a moralidade a primeira linha de defesa de uma sociedade contra comportamentos bárbaros.

No entanto, em vez de se concentrar naquilo que funciona, os progressistas desarmamentistas querem substituir moral e ética por palavras bonitas e por leis de fácil apelo.

Por último, vale um raciocínio lógico: quem é a favor do desarmamento não é contra armas, pois as armas serão necessárias para se desarmar os cidadãos. Logo, um desarmamentista nunca será contra armas — afinal, ele quer que a polícia utilize armas para confiscar as armas dos cidadãos.

Consequentemente, um desarmamentista é necessariamente a favor de armas. Mas ele quer que apenas o governo (que, obviamente, é composto por pessoas honestas, confiáveis, morais e virtuosas) tenha armas.

Conclusão: nunca existiu e nem nunca existirá um genuíno ‘desarmamento’. Existe apenas armamento centralizado nas mãos de uma pequena elite política e dos burocratas fardados que protegem os interesses dessa elite.

    João Felix

    abril 11 2016 Responder

    Falou tudo meu amigo.

Narciso

fevereiro 29 2016 Responder

Olá, descobri o seu blog recentemente e gostaria de dizer que estou muito feliz e satisfeito que tenha se erguido e começado a encarar a direita que vem se erguendo nesses últimos anos. Parabéns pelo blog!

    Robson Fernando de Souza

    fevereiro 29 2016 Responder

    Obrigado, Narciso =D Abs!

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