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fev16

O suicídio de Kayla e uma reflexão sobre privilégios e os verdadeiros “vitimistas”
A transfobia destrói vidas. Destruiu as de Kayla e de dezenas de outras pessoas trans ao longo deste ano

A transfobia destrói vidas. Destruiu as de Kayla e de dezenas de outras pessoas trans ao longo deste ano

Aviso de conteúdo: contém menções a transfobia e suicídio

Eu soube, consternadamente, hoje de manhã, que Kayla, uma moça trans que eu tinha em meus contatos no Facebook (provavelmente era leitora deste Consciencia.blog.br), se suicidou. Saber disso me deixou em choque, já que foi a primeira vez que o apartheid social imposto contra pessoas trans no Brasil matou alguém relativamente próxima a mim. E me fez pensar tanto em meus privilégios, de homem branco cisgênero heterossexual e sem deficiências, como nos reacionários que chamam pessoas de minorias políticas de “vitimistas” enquanto se queixam eles mesmos que são “oprimidos” pelos movimentos sociais.

Kayla era uma moça trans negra que, pelo que deixou claro ao mundo em sua postagem de despedida no Facebook, não aguentou mais ser tão discriminada, maltratada, tratada como um ser “inferior”, agredida em sua curta e jovem vida. Seu suicídio é um retrato do quanto nossa sociedade é cruel, com tanta transfobia, racismo, misoginia, heterossexismo, pauperofobia, intolerância religiosa, capacitismo e tantos outros preconceitos.

E acabo me sentindo mal ao escrever este texto, também por perceber que meras palavras escritas sempre são insuficientes para descrever de maneira vívida as crueldades desta ordem social. Mesmo que eu escrevesse um poema bombástico ou quinhentos textos de opinião, jamais conseguiria pintar e transmitir suficientemente os sentimentos que marcam o sofrimento das pessoas trans submetidas a esse status quo apartheidiano.

Diante dessa inviabilidade de expressar verbalmente essa consternação e compadecimento, me resta refletir sobre o quanto pessoas como eu vivem cercadas de privilégios e que mesmo o desfrute do direito superbásico de ser reconhecida(o) como sujeito de direitos é ele mesmo também um privilégio. Afinal, por não viver submetido a machismo, transfobia, racismo, homofobia e capacitismo – embora seja nordestino e ateu e, portanto, vulnerável a xenofobia regional e intolerância religiosa -, não sou esmagado por uma discriminação social tão pesada a ponto de ser forçado ao suicídio para abreviar e evadir um eventual estado de sofrimento insuportável.

Pelo contrário, acabo sendo superestimado (não pela habilidade da escrita, mas sim por meus atributos de privilegiado), ou pelo menos respeitado e deixado em paz, por uma sociedade que diz defender meritocracia, mas estabelece quase que por nascença, com exceções pontuais, quem vai “vencer na vida” e quem vai padecer nos andares mais baixos das hierarquias sociais e morais humanas. E eu lamento muito, mas muito mesmo, que a paz e estabilidade emocional que vivo não sejam direitos realmente assegurados a todos os seres sencientes, mas sim algo a que apenas poucos têm acesso integral. E expresso que quero ajudar na luta para que isso não seja mais um benefício para poucos, mas sim um direito básico, universal e inalienável, a ser incondicionalmente respeitado.

Nessas horas, além de refletir sobre privilégios, fico pensando também nos reacionários assumidos que, do alto de sua ignorância sobre sofrimento de preconceito, discriminação e exploração, tanto chamam pessoas de minorias políticas de “vitimistas”, mas curiosamente, quase ao mesmo tempo, dizem que são “oprimidos” pelas mesmas por serem conservadores e “politicamente incorretos”.

Essas pessoas – ou melhor, esses homens, alheios ao sofrimento causado pelo machismo e pela misoginia – vivem beneficiadas em comparação a quem realmente sofre com vulnerabilidade social e costumam morar em bolhas de aço – seus apartamentos ou casas amplas de classe média, sua socialização em instituições de ensino e locais de trabalho, sua família, sua igreja e seus contatos ideologicamente semelhantes nas redes sociais. Costumam ter pouco contato com quem é diferente. Acham que o mundo gira em torno deles.

E diante de tragédias como o suicídio de Kayla, acham “exagero”, creem que quem se suicida tem “mente fraca” ou “não tem Deus no coração”. E chamam de “vitimistas” quem denuncia cotidianamente o racismo, a transfobia, a misoginia e outras pragas que matam todos os dias pessoas como ela. Acham que “o mundo está ficando chato”, afinal, já nem se pode mais ser mau caráter contra minorias políticas em paz, sem ser “importunado” por quem está saindo de uma posição de submissão e segurando o punho cerrado do agressor que queria dar impunemente seus socos de discriminação.

Esses reacionários tanto acusam as minorias políticas de “vitimismo”, mas são eles mesmos os maiores “vitimistas” na sociedade, segundo a própria lógica deles. Afinal, eles não são vítimas de verdade. Não sofrem o peso da discriminação por serem quem são. Mas se fazem de vítimas quando se sentem incomodados por quem, por séculos, viveu à margem de uma sociedade masculina, branca, cissexista, heteronormativa e capacitista.

A partir desse pensamento, convido os socialmente privilegiados a pensar: antes de acusar minorias políticas de “vitimismo”, pense sobre o que significa essa palavra, e se pessoas como Kayla “se fazem” de vítimas ou realmente são tão esmagadas pela sociedade a ponto de terem suas vidas inviabilizadas. Reflita se é ético diminuir o sofrimento alheio quando você não sabe o que é, por exemplo, sofrer com racismo estrutural, com machismo na rua e no lar, com uma desumanizadora transfobia, com um cruel heterossexismo, com tantos outros preconceitos que ferem e assassinam.

E, por favor, perceba: ser criticado e responsabilizado por “piadas” antiéticas e opiniões cheias de ódio não é “ser oprimido”. Ser assediada(o), violentada(o) e assassinada(o) – ou induzida(o) ao suicídio – por ser você mesma(o) é que é.

E para encerrar, eu gostaria de dizer: perdão, Kayla, por este mundo de sofrimento não ter deixado você viver em paz e lhe ter negado a felicidade de maneira tão vil e cruel. Descanse com a paz que a sociedade não deixou você ter em vida.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Gisele ROcha

fevereiro 5 2016 Responder

Comentários transfóbicos não são permitidos aqui. Quem não respeita, nem depois da morte, a identidade de gênero de pessoas como Kayla, não tem o direito de comentar aqui com seus preconceitos. Portanto, comentário apagado. RFS

Angela Rocha

fevereiro 5 2016 Responder

Faço parte de um povo separado e escolhido por um Deus que abomina a opressão,a descriminação, o desamor e o descaso.Acredito que essa pessoa Kayla se sentiu tão prejudicada por essa sociedade religiosa que o suicídio foi o seu grito, seu desabafo,sua maneira de nos fazer pessoas melhores, pessoas amáveis,pacientes,tolerantes.Esse grito pode fazer lideres religiosos refletirem sobre o amor ao próximo, mesmo que esse próximo esteja distante demais; que afirmam conhecerem a bíblia de Gênesis a Apocalipse,mas que infelizmente não conseguiram conhecer a Jesus o Cristo,que nos leva ao amor incondicional.que teve por nós amor incondicional,morreu para que nós tivéssemos vida e esses que mataram a kayla, todos os dias um pouquinho em seus discursos convincentes e radicais, tem que ouvir esse grito que custou a vida, eu disse a vida de alguém.Como não amar, e como não aceitar alguém de maneira tão cruel,não sei;só sei que como ela disse em seu depoimento que não conseguia respirar direito; estava com falta de ar, sem ar deveria estar os preconceituosos, desejosos por uma sociedade que sufoca, que leva a morte aqueles que não se enquadram em vossos padrões de perfeição..Agora não podemos mais esquecer esse grito.O grito de Kayla. Não entendo muito só entendo de amor. Amor que ampara, liberta, amor que compreende. Amor que nos constrange e nos molda para uma vida de paz. Encerro com profunda tristeza,mas o grito foi dado.

gorete

fevereiro 5 2016 Responder

Sem palavras .kayla era minha sobrinha que doi é perceber que cada dia quantas kaylas estão indo embora e ninguém faz nada.o descaso da sociedade é muito grande.

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