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mar16

A ação da Polícia Federal contra Lula e a fragilidade da democracia brasileira

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Presenciei nas redes sociais a repercussão da cinematográfica ação da Polícia Federal, na qual Lula foi coercitivamente levado para depor sobre sua suposta ligação com empreiteiras corruptas. O que vi foi uma democracia demasiadamente frágil, o conformismo de parte da esquerda brasileira em fazer seu destino depender da sorte de uma única pessoa – o ex-presidente -, a falta de projeto na própria esquerda – que tanto acusa a direita tucana de não ter uma alternativa de país que faça frente ao governo petista – e a iminência de uma possível guerra civil entre governistas e coxinhas.

Eu pessoalmente achei a operação Aletheia (“busca da verdade” em grego) muita encenação, como se Lula fosse de fato um corrupto condenado e foragido se entregando, e não alguém cujas suspeitas oficialmente estão apenas começando a ser apuradas. Como disseram, foi um espetáculo sob medida para que a mídia divulgasse, o mercado aplaudisse e a opinião pública de antipetistas urrasse num misto yin-yanguesco de alegria e ódio.

Tenho visto também muita gente chamando isso de atentado à democracia. Concordo que a ação da PF pode ser considerada abusiva e sensacionalista, mas fico pensando se não é exagero que um sistema político inteiro, teoricamente democrático de direito, esteja sob risco por causa desse evento. Não fomos um pouco longe demais, deixando que todo um sistema democrático ficasse à mercê da forma como o poder repressor trata um único indivíduo, como se ele fosse o “salvador da pátria”, um messias político, o último arauto da esperança democrática e social no Brasil? Não é importância demais que se está dando a alguém que hoje não sendo muito além de lobista de empreiteiras e palestrante apologista do capitalismo, e sequer oferece, como futuro presidenciável, uma alternativa de governo de verdade que conserte os erros grotescos cometidos por Dilma Rousseff e equipe e supere o velho lulismo conciliador de classes do início deste século?

Nessas horas a animosidade de governistas e “manifestantes canarinhos” vai lá para cima, a ponto que parecemos estar às beiras de uma guerra civil entre as duas facções, e toda e qualquer condição de se debater um projeto de país e o aprofundamento da democracia se perde. Somando-se isso ao suposto fato de a democracia brasileira estar supostamente escorada no destino de uma única pessoa, percebemos que ainda estamos demasiadamente apegados a líderes, a pessoas que nos governem e nos tutelem, que assumam para nós a luta política e o timão de nossas vidas. E isso infelizmente não é só coisa de reacionários, mas também de petistas e de parte da esquerda.

Nisso também se percebe a falta de renovação no quadro político representativo brasileiro. Sempre os mesmos nomes. Aécio, Serra, Alckmin e ninguém mais no PSDB – que hoje nada mais é do que um partido conservador sem propostas, não lembrando nem de longe o passado liberal-social da época de FHC. Lula e talvez Haddad, o único mandatário petista do Poder Executivo com um robusto reconhecimento positivo hoje, no PT. Conservadores, teocratas, militaristas e ruralistas em outros partidos, prontos para transformar o Brasil em parque temático com o tema Despotismo, Opressão e Corrupção. Bolsonaro conquista corações cheios de ódio, que odeiam também a própria política, e vai representar a extrema-direita na próxima corrida presidencial – e graças às divindades não tem nenhum discurso construtivo que conquiste os conservadores moderados. Nenhum nome no PSOL e no PSTU tem conseguido renome nacional a ponto de lançar um nome competitivo à disputa presidencial daqui a dois anos. Em resumo, um deserto de novos nomes.

Isso mostra como se esgotou, para grande parte da população, o sistema político representativo – esgotamento esse causado em parte pelo mesmo Lula que hoje foi levado à PF, com sua recusa de, junto à sua base aliada na época, aperfeiçoar as regras do jogo democrático e remover antigos vícios que sempre favoreceram corrupção e interesses escusos. Mas por outro lado nenhuma alternativa na esquerda, de democracia avançada e mais popular e direta, tem surgido. Só tenho visto brigas e mais brigas internas, e a falta de capacidade mesmo da esquerda mais convicta e radical de fazer autocríticas sobre o que deu errado de junho de 2013 para cá, que tenha causado o fracasso daquela curta “primavera” de sonhos com uma democracia melhor – e o triunfo do conservadorismo corrupto e hipócrita, que domina hoje o Poder Legislativo e controla Dilma como uma marionete.

Nessas horas, eu sinceramente gostaria que houvesse uma reflexão, por parte de quem ainda tem disposição para pensar além da dicotomia belicista PT X PSDB, governistas X coxinhas: por que não estamos conseguindo elaborar uma alternativa de democracia, que supere esse modelo apodrecido, diante do qual só conseguimos reagir com palavras indignadas mas impotentes nas redes sociais? O que falta para nós começarmos a tentar resolver ou relativizar as diferenças ideológicas existentes (não estou falando de passar pano para preconceituosos dentro da esquerda, como os esquerdomachos e os heterossexistas), se isso realmente é possível, e enfim começar a construir uma democracia madura que não seja tão frágil a ponto de correr o risco de desmoronar por causa de uma única pessoa?

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Ronaldo

março 5 2016 Responder

Concordo, já passou do tempo de mudarmos de verdade o sistema político, sem “soluções simplistas” tipo o que alguns grupos estão querendo. A pergunta é como fazer isso de verdade?

Newton

março 5 2016 Responder

Dentre as formas de restrição à liberdade de locomoção previstas no arcabouço jurídico pátrio figura a condução coercitiva, que consiste em um meio conferido à autoridade para fazer comparecer aquele que injustificadamente desatendeu a sua intimação, e cuja presença é essencial para o curso da persecução penal.
Isto não é presunção de culpa.
Sim, o Lula não representa nada, é apenas “um simples lobista”…com o dinheiro nosso.

    Nathalie

    março 5 2016 Responder

    ele não representada nada na SUA opinião, q não é a opinião d todos. respeite a opinião de quem acha q ele representa. se vc defende a democracia, aceite opiniões adversas.

      Newton

      março 6 2016 Responder

      Nathalie:

      Já ouviu falar em algo chamado “ironia”? Pois é…

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