08

mar16

Clara Averbuck: O Dia da Mulher não é homenagem bonitinha

manifestacao-feminista

por Clara Averbuck, texto extraído da Carta Capital e adaptado do original do blog dela

O dia 8 de Março é importante porque a mulher ainda é oprimida: quando formos realmente tratadas como iguais, poderemos transformá-lo em uma comemoração

O Dia da Mulher não é pra ser uma homenagem singela e bonitinha para as lindas mulheres sorridentes e fofinhas, ah, essas mulheres, tão lindas e tão geniosas, mas que os homens amam. É um dia pra botar todas as questões que precisam ser debatidas em pauta, é pra falar sobre a luta dos direitos da mulher, não sobre TPM e manicure. Não é pra ter um “tom leve”.

Tom leve não combina com assunto sério, daí tantas manifestações negativas a campanhas paternalistas. Algumas pessoas vêm com aqueles papos de que as reações são desproporcionais, que deixa disso, que não é tanto assim, que é frescura, que é exagero, que devemos também falar das mulheres “normais”. Como se a única agressão que contasse fosse a física.Como se a única opressão que valesse fosse a explícita. Como se, por exemplo, um padrão de beleza massacrante também não fosse uma forma de opressão.

Entendo que para as pessoas menos familiarizadas com o feminismo algumas coisas possam parecer exagero. Já fui assim também. Achava algumas reações exacerbadas, motivadas por “bobagem”. Aí eu descobri duas coisas: primeiro: não temos o direito de cagar regras sobre como alguém se sente a respeito de algo. Segundo: nenhuma reação é exacerbada quando se trata de quebrar um paradigma milenar. Cada minicoisinha conta.

Cada reclamadinha que a gente dá pode gerar questionamento em alguém – apesar de gerar chacota dos que nunca sentiram na pele o que a mulher passa e, por serem incapazes de empatia, minimizam qualquer manifestação com o papinho da feminista histérica. Querem uma feminista mansa, que não fale alto, que não incomode e fique no seu lugarzinho. Não, né?

O dia 8 de Março é importante pelo simples motivo de que a mulher ainda é oprimida. O dia em que formos realmente tratadas como iguais poderemos transformar o dia em uma comemoração, mas, por enquanto, ainda é um dia para abrir os olhos da galera que prefere não saber, por exemplo, que sete de cada dez mulheres serão agredidas ao longo da vida – este é um dado da ONU – e que essas mulheres não estão longe.

A violência acontece no seu prédio. Na sua rua. Pode ser que aconteça na sua família, com a sua sobrinha, sua vizinha, sua colega de trabalho, sua chefe, a chefe de sua chefe, uma juíza, enfim. Pode ser que aconteça com você. Violência contra a mulher não escolhe classe social. E a violência acontece porque ainda vivemos sob o patriarcado, onde a mulher está abaixo do homem. Sim, conquistamos muitas coisas, mas ainda não chegamos nem perto de realmente reestruturar o funcionamento da sociedade para que seja igualitária e justa.

Temos um longo caminho pela frente.

Enorme.

Milhares de anos precisando de desconstrução e reconstrução.

Milhares de paradigmas incrustados em nossas cabeças.

Milhares de estereótipos para quebrar.

Anos e anos e anos e anos de violência suportada em silêncio pra gritar.

imagrs

6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Newton

março 13 2016 Responder

Comentário insensível contra mulheres vítimas de violência e também homofóbico/heterossexista apagado. Comentários que passam do limite da insensibilidade egocêntrica, com falta de empatia e de conhecimento sobre violência contra a mulher, e também com heterossexismo (menção à “destruição da família”), não são aceitos aqui. Se você quer comentar sem ter noção de respeito a pessoas vítimas cotidianas de violência, então não terá vez enquanto não mudar tal postura. RFS

    Newton

    março 14 2016 Responder

    Muito bem, apagaram meu comentário sumariamente…sem ao menos dar a chance de outras pessoas verem. Pra quem vive exortando a democracia você se mostra um tanto autoritário. E ainda vem com a pérola em que ” menção a destruição da família ” é heterossexismo.
    Concordo que talvez ainda esteja aborrecido com as manifestações de ontem, já que sua tão querida esquerda tomou uma surra, mas convém não misturar as coisas.
    Wake up, man,

    Abraço

Newton

março 9 2016 Responder

Sem negar que a violência, tanto física quanto psicológica, sempre existiu entre os seres humanos, e não somente visando a mulher, serei sincero: muitas mulheres, feministas ou não, precisam urgentemente reverem os seus conceitos e escolherem melhor as pessoas com as quais convivem.

    Robson Fernando de Souza

    março 11 2016 Responder

    Muito fácil um homem, que não sabe nada (ou nada parece saber) sobre relacionamentos abusivos e enraizamento sociocultural do machismo, ditar que “é fácil” mulheres escolherem com quem conviver e se relacionar.

      Newton

      março 13 2016 Responder

      Olha, eu conheço a sua vida tanto quanto você conhece a minha para julgar o que sei ou não em termos de experiência de vida. Não teça comentários e nem julgue o conhecimento alheio.
      Apenas digo que no meio em que convivo esse lance de violência contra a mulher NÃO EXISTE. Simples assim. Mas por quê?
      Porque existe uma coisa que se chama SELETIVIDADE. Não é preconceito. Apenas escolha aqueles com quem você se relaciona de acordo com padrões que sigam um mínimo de qualidade moral. Ao contrário do que se generalizou pensar, não somos todos iguais de forma alguma.
      Não sou e nunca fui financeiramente abastado. As únicas riquezas que herdei foram a educação rígida, o respeito aos valores considerados humanos, a honestidade e o respeito aos semelhantes.
      Obviamente, este tipo de herança não é muito comum hoje em dia, e tende a se tornar cada vez mais rara à medida em que a instituição chamada família vai sendo demonizada. Todo o resto decorre disso.

        Robson Fernando de Souza

        março 13 2016 Responder

        “Apenas digo que no meio em que convivo esse lance de violência contra a mulher NÃO EXISTE. Simples assim. Mas por quê?” – No seu meio, mas no de milhões de mulheres existe todos os dias.

        “Porque existe uma coisa que se chama SELETIVIDADE. Não é preconceito.” – Seletividade como você viver num meio distante de casos frequentes de violência contra a mulher?

        “Apenas escolha aqueles com quem você se relaciona de acordo com padrões que sigam um mínimo de qualidade moral. Ao contrário do que se generalizou pensar, não somos todos iguais de forma alguma.” – Novamente, um homem acreditando que pode ditar o comportamento das mulheres e achando que é “muito fácil” elas se livrarem da violência que sofrem ou podem sofrer.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo