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As numerosas projeções psicológicas da direita brasileira

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Existe na direita brasileira um costume muito enraizado de atribuir aos adversários político-ideológicos desqualidades e problemas que na verdade são dela mesma. Autoritarismo, cumplicidade com a corrupção, defesa de que os trabalhadores deem seu dinheiro para quem supostamente não trabalha… São incontáveis os exemplos da chamada projeção psicológica, que evidenciam como brasileiros de direita são adeptos aficionados desse tipo de atitude.

A projeção, no âmbito da Psicologia, é definida assim nesse artigo de Vanessa Manfredini e Irani Iracema de Lima Argimon (página 139 do periódico, ou 5 do arquivo PDF):

“[…] a projeção é um mecanismo de defesa do ego, e geralmente ocorre quando o indivíduo vê nos outros um traço que quer ou tem em si mesmo e então supervaloriza aquilo no outro. De outra forma a projeção é o ato de atribuir a outro ser ou objetos as qualidades, sentimentos ou intenções que se originam em si próprio. É um mecanismo de defesa pelo qual aspectos da personalidade de um indivíduo são deslocados de dentro deste para o meio externo. A pessoa em estado de projeção pode lidar com sentimentos reais, fora dela.”

Como mecanismo de autodefesa, a projeção também se aplica quando o indivíduo diz que determinadas características negativas presentes em sua personalidade seriam na verdade “dos outros”, de quem é diferente dele. É uma maneira de ele tentar negar suas desqualidades e considerar o outro “pior” que ele, na tentativa de se mostrar mais virtuoso, mais certo, menos defeituoso e, portanto, “melhor” do que realmente é, em comparação tanto com o seu verdadeiro eu quanto com outras pessoas.

Em grande parte das discussões políticas envolvendo pessoas de direita “versus” adeptos da esquerda ou governistas pró-PT, a projeção aparece intensamente. Vem em forma de acusações, de estigmatizações e de falácias, como o espantalho.

É possível dizer que, em cada crença de direitistas (dos conservadores mais fascistas aos “anarco”-capitalistas) sobre o que seus opositores seriam de ruim, há uma projeção. Abaixo elenco vários exemplos, que, apesar de numerosos, não correspondem a todo o universo de projeções feitas pela direita contra a esquerda no Brasil:

– Acusa a esquerda de “promover a corrupção”, enquanto muitos políticos e magistrados conservadores e liberais-econômicos dos Três Poderes e também grandes empresários com convicção política direitista promovem impunemente desvio de verbas, sonegação fiscal e usufruto do poder público em prol de interesses privados;

– Diz que “esquerdistas defendem bandidos” quando estes embandeiram os Direitos Humanos, enquanto protege com seu silêncio ou mesmo defesa expressa – com relativização dos crimes cometidos e falácias do tipo “você também” – deputados e senadores conservadores acusados de corrupção e empresários e fazendeiros autores de delitos graves como sonegação, crime ambiental, homicídio, corrupção ativa ou passiva etc.;

– Acusa socialistas de “defenderem ditaduras como Cuba, Venezuela e União Soviética”, enquanto não dirige um “A” para repudiar regimes tirânicos e/ou militaristas de direita, como a Arábia Saudita (monarquia absoluta regida por religiosos fundamentalistas misóginos), Israel (que comete crimes contra o povo palestino todos os dias e é acusado de promover o racismo em seu território), Estados Unidos (com todo o seu histórico de intervenções militares e violações de Direitos Humanos dentro e fora de seu território) e Rússia (onde o governo de Vladimir Putin criminaliza diversas liberdades civis e promove políticas abertamente discriminatórias). Nem mesmo declara oposição convicta a defensores de um novo golpe militar no Brasil;

– Aponta o dedo contra a esquerda para acusá-la de ser “contrária à ordem”, mas tem reivindicações que, se aplicadas, poderiam levar a sociedade brasileira ao caos, como a legalização do porte civil de armas, a não responsabilização penal dos discursos de ódio, a desregulação da economia e a redução do Estado à qualidade quase exclusiva de aparelho repressor protetor da propriedade privada dos ricos;

– Acusa seus opositores de serem “contra a liberdade”, enquanto defende apaixonadamente a negação ou cassação das liberdades civis e políticas de quem não é conservador, liberal-econômico, defensor do capitalismo e/ou pertencente a categorias sociais privilegiadas (homens cisgêneros, brancos, heterossexuais, de poder aquisitivo elevado etc.);

– Dirige acusações contra defensores de políticas afirmativas por serem supostamente “contrários à meritocracia”, enquanto defende com unhas e dentes uma ordem socioeconômica que impede a recompensa aos esforços da grande maioria das pessoas, reforça os privilégios de quem é “bem-nascido” e, portanto, inviabiliza completamente a tradição de ascensão social pelo mérito;

– Acusa a esquerda de ser “antipatriótica” enquanto apoia abertamente a entrega dos recursos naturais brasileiros (petróleo e gás natural, florestas, minerais em geral, recursos hídricos etc.) e empresas estatais nacionais para o capital estrangeiro, entregando a economia brasileira para ser controlada por grandes corporações estadunidenses e europeias;

– Diz que a esquerda “defende que quem trabalha dê seus bens e dinheiro para quem não trabalha”, numa referência espantalhosa ao socialismo, mas está apoiando justamente um sistema econômico em que a maioria trabalhadora ceda a maior parte dos lucros frutos de sua força de trabalho para a minoria empresarial e executiva;

– Costuma apontar no “socialismo real” (o sistema político-econômico adotado na União Soviética, em Cuba, na China e em outros países opositores dos Estados Unidos no século 20) a ascensão de uma “casta privilegiada”, enquanto consente – ou mesmo defende, por meio da redução do papel do Estado, da sacralização da propriedade privada e da desregulação da economia – que o capitalismo involua para um sistema no qual os grandes empresários, executivos e CEOs de bancos constituem mais uma casta de bilionários do que uma classe social acessível a quem é das camadas inferiores;

– Acusa muitas pessoas da esquerda de autoritarismo – por muitos de seus defensores quererem a imposição da redistribuição de renda pela força da lei e não tolerarem discursos preconceituosos –, enquanto promove abertamente ideologias de natureza autoritária e contrárias a direitos, como o conservadorismo, um “liberalismo” degenerado (defensor apenas do livre mercado e contrário às liberdades individuais civis e políticas), o militarismo e o “libertarianIsmo”.

E assim vão se sucedendo as incontáveis projeções psicológicas promovidas por direitistas brasileiros. Fica evidente que, quase sempre, são ou fazem exatamente aquilo que acusam a esquerda de ser ou fazer. Apontemos isso quando vierem nos dirigir acusações – além de refutá-las, para evitarmos cair na falácia de apelo à hipocrisia.

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Érica

março 13 2016 Responder

Exatamente! Mais ainda resta uma lista longa de hipocrisia no discurso deles!!

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