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mar16

Você não precisa ser defensor do PT, de Dilma e de Lula para ir às ruas defender a democracia de abusos
Manifestação de 18/03 em Recife

Manifestação de 18/03 em Recife

Ontem multidões – não se tem o consenso se foram maiores ou menores do que as do último dia 13 – foram às ruas em diversas cidades brasileiras para defender o Estado Democrático de Direito dos recentes abusos políticos cometidos pela imprensa, por membros do Poder Judiciário e por pessoas comuns fanatizadas. Muitos, incluindo a mídia, dizem que tais manifestações foram “em defesa da presidenta Dilma e do ex-presidente Lula”, mas isso é apenas uma meia verdade. Não foi preciso, nem é, ser simpatizante ou membro do PT e dos presidentes petistas para se juntar às multidões contrárias à derrubada da nossa precária, mas existente, democracia.

O que se tem visto nessas últimas semanas é que a sanha daqueles que agem como justiceiros da política, carregados do intuito de “livrar o Brasil da corrupção do PT”, passou dos limites da legalidade e da ética. Os grampos contra Dilma, Lula e os advogados do ex-presidente; as liminares de “justiça” seletiva para impedi-lo de assumir a Casa Civil como ministro-chefe; o malfadado pedido de prisão preventiva contra ele; a desnecessária coerção coercitiva também contra Lula, entre outras medidas que têm sido comentadas como abusivas, estão deixando claro que algumas pessoas “da lei” estão ironicamente passando por cima da própria lei pela qual deveriam zelar.

Tudo isso para tentar acelerar a derrubada do PT e a interdição da futura candidatura presidencial do ex-metalúrgico. Nada com o propósito genuíno de fazer valer o Estado de Direito, punir atos comprovados de corrupção e fazer a justiça prevalecer. O contrário é que tende a acontecer com tais atos de irresponsabilidade jurídica: o fim de toda e qualquer garantia de direitos e a instauração de um clima permanente de insegurança jurídica para governantes e cidadãos.

A mídia também ultrapassou seus limites éticos. Tem esbanjado um aterrador desrespeito à ordem democrática. Falta com sensatez. Esforça-se constantemente em fanatizar as massas e fazê-las ir para as ruas exigir um mal fundamentado impeachment contra Dilma Rousseff.

E o pior, induz autointitulados “cidadãos de bem” a agredirem nas ruas ou mesmo em seus espaços de convívio quem está vestido de vermelho ou “tem cara de petista”. Tem ameaçado a segurança dos brasileiros e empurrado o país rumo a uma ordem de autoritarismo, violência e medo disseminados – faltando um líder aclamado pelas massas e uma ideologia ultraconservadora sedutora predefinida para se tornar fascismo propriamente dito.

Nisso tudo, a democracia corre sério risco de colapsar e dar lugar a um sistema político degenerado, autoritário, ainda mais corrupto do que já é, marcado por medo e ódio por todo lugar, sem nenhuma garantia de direitos fundamentais. Tudo aquilo que grande parte dos próprios “verde-amarelos” não querem ver seu país se tornar.

Foi por tudo isso, e para impedir que tal situação piore e vire um caos difícil de se sanar, que milhões de pessoas foram às ruas de diversas cidades brasileiras ontem. Não foi simplesmente para defender Dilma e Lula, mas sim para reivindicar que o Estado Democrático de Direito seja respeitado. Foi para preservar o pouco que temos de democracia, das condutas abusivas de quem tem poder de fato.

Também foi aproveitada, por muitos, como a oportunidade de protestar contra o fomento à indignação seletiva promovido pela mídia, em especial pela Rede Globo. Manipulação e maquiagem de fatos, lavagem cerebral por meio da incitação ao ódio irracional ao PT, esvaziamento e negação do direito constitucional à autodefesa de quem está sob acusação, essas posturas ensejaram que milhares de pessoas portassem cartazes contra o “quarto poder” que é a maior parte da imprensa brasileira.

Quanto a Lula e Dilma, a maioria dos manifestantes de ontem luta para que ela governe até 1º de janeiro de 2019 e ele tenha o direito de ajudá-la em seu segundo mandato e eventualmente se candidatar para voltar ao Planalto nas eleições de 2018. Não é uma postura de “Eu <3 Lula e Dilma”, mas sim de deixar que a ordem política seja de fato submetida ao escrutínio da maioria da população, e não objeto de manipulação por empresários e políticos opositores corruptos.

Alguns ali eram realmente governistas incondicionais, do tipo que defende os presidentes petistas e o partido mesmo quando eles erram de maneira injustificável. Mas foram uma minoria, diante de uma multidão que almejou superar em número e força a do dia 13.

Eu posso dizer com segurança: não era um protesto “de petistas e sindicalistas”, mas sim de uma parcela da população que não aceita mais a mídia brincar com os sentimentos dos telespectadores, os políticos assumidamente de direita tratarem o povo como massa de manobra e ambos fazerem do Brasil seu playground temático de ditadura oligárquica pré-iluminista.

Muitos que participaram estão fulos da vida com o estelionato eleitoral que Dilma promoveu de 2014 para 2015, quando quebrou sua promessa de guinar à esquerda e aprofundou o direitismo neoliberal e conservador de seu governo. Também estiveram presentes incontáveis pessoas que apoiam a Operação Lava-Jato e veem razão nas denúncias de Sérgio Moro contra muitos petistas. Mesmo assim, não aceitam que, na tentativa de derrubar o governo, promova-se abusos de poder e agressões à ordem democrática.

O que esteve em jogo ontem não foi tanto o mandato de Dilma, o “amor a Lula” e uma suposta aprovação da trajetória de governo petista, mas sim a legalidade e a democracia. Nem todos ali eram petistas e governistas.

Com isso, assim ficou claro: você não precisa simpatizar com o PT, Lula e Dilma para fazer parte de tais manifestações. Basta que seja contra o autoritarismo, o fanatismo, a violência política e a desordem jurídica, nos quais os fomentadores da campanha pró-impeachment querem afundar o Brasil.

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