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abr16

A falácia de quem compara a admiração a Che Guevara com a aderência a discursos conservadores de ódio
Jean Wyllys foi criticado por direitistas, na época desta foto, por ter posado parecido com Che Guevara, apontado como homofóbico

Jean Wyllys foi criticado por direitistas, na época desta foto, por ter posado parecido com Che Guevara, apontado como homofóbico

Um discurso relativamente comum na direita é criticarem pessoas de esquerda que admiram Che Guevara, afinal, o guerrilheiro argentino, segundo afirmam – e foi confirmado pelo deputado Jean Wyllys –, era homofóbico e fuzilou homossexuais em Cuba. Porém, por mais que a pessoa de Che seja criticável por tal atitude, a crítica que a direita faz é falaciosa, por incidir em falsa analogia entre quem o admira por seu papel em revoluções e insurreições na América Latina e quem é adepto, de fato, de discursos conservadores sustentados por heterossexismo e outros ódios.

Do lado da esquerda, ninguém aprecia o histórico de Che Guevara especificamente por ter levado gays e lésbicas ao paredão cubano, mas sim por outros motivos, como sua postura de levar a revolução a diversos países latino-americanos e também em algumas nações africanas. Do da direita conservadora e muitos “liberais” com essência reacionária, por outro lado, existe uma clara admiração por discursos de ódio variados, desde o antipetismo fanático até as múltiplas intolerâncias contra negros, mulheres, homossexuais, pessoas trans, afrorreligiosos, ateus, nordestinos, pessoas pobres, beneficiários de cotas raciais e sociais etc.

É curioso, aliás, perceber que muitos usuários dessa falácia são tão ou mais heterossexistas do que Che. Não visam o respeito à população homossexual ao exigir repúdio ao militante argentino, mas sim dizer algo como “Se vocês admiram o homofóbico Che Guevara, então eu também posso ser homofóbico e admirar gente como Jair Bolsonaro e Silas Malafaia”. Mas não percebem a falsa analogia nessa postura.

Vale também perceber a severa dose de hipocrisia quando a direita vem criticar os apreciadores de parte da história e legado de Che por conta de seu alegado repúdio a homossexuais. Não há ali o convite expresso à autocrítica na esquerda, à revisão do comportamento de admirar mais o lado pessoal do que o papel histórico de determinados personagens históricos socialistas, comunistas e anarquistas. Mas sim a pura crítica destrutiva, a intenção de dizer que a esquerda “não presta” porque parte dela tem apreço por Che e outros nomes revolucionários acusados de matar inocentes.

Isso se percebe quando se omitem totalmente diante de discursos de intolerância explícita vindo dos Bolsonaros, Malafaias e Felicianos da vida e, ao invés de declarar repúdio humanista, simpatizam com ideologias de ódio como o masculinismo, o antipetismo irracional e o elitismo “meritocrático” – que culpa os próprios pobres por sua situação de pobreza, miséria e privações.

Seria uma boa se a direita brasileira assumisse que suas críticas a Che, Fidel, Lênin, Stálin, Mao Tse-tung e outros nomes controversos não têm nenhuma intenção humanista, defensora dos Direitos Humanos e da liberdade, mas sim hipocrisia e interesse em desmoralizar a esquerda – mesmo aquela que não concorda com o autoritarismo e as execuções do “socialismo real” do século 20. Também seria bom se confessassem que não conseguem ir muito longe em se tratando de argumentar com racionalidade e, por isso, precisam recorrer a falácias e às vezes mentiras e omissões puras para prevalecer perante as massas.

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Gabi Bianchini

junho 15 2016 Responder

Sou da comunidade lgbt e sou de esquerda, eu não tenho herois, é muito hipocrita separar che como se fossem duas pessoas separadas, ninguém diz admirar hitler ou usa uma camiseta com sua foto pq por um periodo de tempo ele reergueu a Alemanha, ignorando o fato das mortes que ele causou. As pessoas conseguem justificar che guevara ou não serem tão criticas a ele como são a outros ditadores, porque no fundo ainda não reconhecem a dignidade da pessoa lgbt como tão humana quanto as outras.

William

abril 23 2016 Responder

Talvez deva ser considerado também o que foi dito à respeito da hipocrisia de alguns da “esquerda” por criticarem veementemente o Jair Bolsonaro por ter lembrado um “torturador”, sendo que alguns deles exaltam Che Guevara e Marighella como alguns deputados fizeram.

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