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abr16

A falsa analogia entre o cuspe indignado de Jean Wyllys e o discurso criminoso de Jair Bolsonaro
O cuspe de Jean Wyllys: coragem, resistência, indignação, um grito de basta em alguns mililitros de saliva

O cuspe de Jean Wyllys: coragem, resistência, indignação, um grito de basta em alguns mililitros de saliva

No show de horrores do último domingo, em que foi aprovado pela maioria da Câmara dos Deputados o impeachment de Dilma Rousseff, sobressaiu-se um acontecimento ao qual estão dando importância exagerada. Jean Wyllys, conhecido por sua militância em defesa dos Direitos Humanos, deu uma cusparada em Jair Bolsonaro – mas infelizmente errou o alvo – depois deste ter defendido o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, que aterrorizou e assassinou presos políticos durante a ditadura militar. Surgiram diversas comparações entre a apologia ao crime de tortura por parte de Bolsonaro e o cuspe de Jean, que nada são além de falsa simetria e tentativas de relativizar um discurso de ódio.

Tentam igualar um ato de resistência e indignação a uma declaração criminosa, que revela um pré-candidato à presidência disposto a implantar uma nova ditadura ultranacionalista, liderar torturas em massa de presos políticos e promover genocídios para “limpar” o país da esquerda. Tudo isso foi minimizado, tal como um pokémon gigantesco sendo confinado numa pokebola, para se ter a oportunidade de criticar uma atitude de “destempero” e “incivilidade” da parte de Wyllys.

Duas posturas ficam subentendidas nessa postura de falsa analogia. Uma é a identificação, mesmo que parcial, por parte dos formadores de opinião que acharam o cuspe do psolista um “absurdo”, com os ideais fascistas e multi-intolerantes de Bolsonaro, mesmo que tentem enganar seus telespectadores e leitores com um fraco repúdio ao famigerado militar. E o segundo é o ódio a Jean Wyllys, que precisa usar cada suposta deixa do deputado, ainda que muitas vezes falsa e baseada em boatos, para criticá-lo e repudiá-lo.

Muitos aproveitam a atitude dele para dizer de boca cheia e peito estufado: “Tá vendo como esse [algum xingamento homofóbico] é um nojento, um lixo?” Quando incidem em tal atitude, ainda mais no contexto do discurso criminoso de Bolsonaro, revelam seu desprezo tanto aos Direitos Humanos, bandeira principal de Jean, como ao atributo de Jean de homossexual assumido que não tem medo de quem o odeia. Ou seja, revelam sua homofobia e sua convicção moral recheada de ódio e intolerância.

As simetrias entre o cuspe de Jean e a apologia à tortura vinda de Bolsonaro, justamente por serem baseadas em ódio, manipulação e/ou ignorância sobre o significado da atitude de Jean, não na razão, são falsas e facilmente refutáveis. Afinal, na cusparada, estava carregada toda a raiva por alguém que, além de ser um mestre do ódio contra bilhões de seres humanos e da inimizade à democracia, definitivamente não está aberto a conversas e debates sobre suas posturas criminosas. E no discurso em homenagem a Brilhante Ustra, estava embutido um notável desprezo à democracia, à empatia e aos Direitos Humanos – mesmo aos mais fundamentais deles, como a vida, a integridade física, a dignidade e a liberdade.

Naquele contexto e hora, qualquer racionalidade política não tinha o mínimo de condições de se sustentar. Isso porque Jean estava diante de um adepto de ideias completamente irracionais, antidemocráticas e também antipolíticas. E curiosamente, quem repudiou o cuspe como “imoral” e “desequilibrado” não tem exigido racionalidade, equilíbrio, ponderação e diálogo também de Jair Bolsonaro. Nem mesmo manifestou o mesmo repúdio diante do cuspe dado por Eduardo Bolsonaro, filho de Jair, contra Wyllys.

Diante dessa astronômica diferença de simbologias, quem achou a atitude de Jean Wyllys “absurda” a ponto de deixar de lado a indignação perante o discurso de Bolsonaro, ou desconhece o valor e representação que houve na cusparada, ou realmente tem tantos ódios múltiplos e tendências à psicopatia quanto o deputado militar. É falacioso exigir do parlamentar do PSOL equilíbrio, serenidade e tolerância diante de alguém que, por todo o seu ódio e fascismo, se tivesse a oportunidade propícia, não pensaria duas vezes em torturá-lo e matá-lo naquela hora, mesmo no meio do Congresso.

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El.

abril 20 2016 Responder

Agora você deu uma de Jean e falou tudo o que um ou alguns grupos oprimidos historicamente gostariam de falar sobre esse caso. Prepare-se para a observação primitiva de algumas pessoas que por ventura vierem a comentar, pois seu post foi fantástico!

    Robson Fernando de Souza

    abril 21 2016 Responder

    Valeu ae =)

Victor

abril 20 2016 Responder

Boa Robson! Parabéns! Pena que quando vou conversar com meus colegas da escola sobre isso, entra em um dos ouvidos deles e sai pelo outro. :S

    Robson Fernando de Souza

    abril 20 2016 Responder

    Valeu, Victor =) Abs!

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