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As declarações de voto dos conservadores são prova cabal de que o impeachment de Dilma é golpe
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O Congresso foi cenário de uma das etapas de um golpe de Estado em andamento, que nada tem a ver com combate à corrupção ou pedaladas fiscais

“Por algum valor conservador, que eu próprio agrido, que não tem nada a ver com as pedaladas fiscais de Dilma, meu voto é sim” – isso resume quase todos os votos a favor do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados ontem. A ausência da razão formal que sustentou o pedido de impeachment na votação deixa mais claro do que nunca: o impedimento dela não tem nada a ver com responsabilidade fiscal, honestidade ou combate à corrupção. Mas sim com a consagração de um projeto de poder conservador e antipopular que precisa demolir a democracia para ser realizado.

Ficou muito claro ontem que a intenção de tudo era devolver a direita assumida ao poder, recorrendo-se ao golpe do impeachment carente de embasamento. Desde 2002 ela não consegue triunfar por meio das urnas, então precisa de um outro meio, mesmo que antidemocrático, de retomar o Poder Executivo para poder pôr em prática seus mais insensíveis e opressivos planos de governo.

Se a maioria dos votos a favor tivessem sido declarados, por exemplo, “pela honestidade na política”, “contra a corrupção” (mesmo este não sendo o motivo do pedido de impedimento presidencial), “pela responsabilidade fiscal” ou “pela competência na gestão das contas públicas”, poderia-se falar em alguma legitimidade no processo e na sua votação. Mas não foi o que aconteceu.

O que se viu foi uma sucessão de discursos absurdos, que abrangeram o personalismo e a política pelo interesse privado (homenagens a familiares e parentes do deputado votante), o conservadorismo em sua mais crua essência (sob a forma da família), o desrespeito ao Estado Laico (as votações “por Deus”) e, no caso absurdo dos Bolsonaros, a exaltação ao esmagamento da democracia e ao terrorismo de Estado (homenagens ao torturador de Dilma e aos golpistas militares de 1964).

As pedaladas fiscais foram esquecidas, eram só o detalhe necessário para entrar com um pedido formal de impeachment minimamente justificável, para que Eduardo Cunha autorizasse seu uso para derrubar Dilma. Depois que foi levado adiante o processo, esse motivo já não tinha mais serventia. Entrou em cena o interesse político, a intenção escancarada de derrubar uma presidenta eleita pelo voto e impor, no lugar dela, sob a pessoa de Michel Temer, um projeto de poder óbvia e assumidamente de direita, ainda mais do que o programa de governo aplicado por Dilma já era.

A maioria da parcela pró-impeachment da população foi enganada. Ela achava que seus clamores “contra a corrupção e a incompetência” estavam sendo ouvidos. Ficou muito evidente, quase óbvio, que a população vestida de verde e amarelo nada mais serviu do que como uma massa de manobra, um degrau a ser usado pelos deputados conservadores para almejar interesses privados de poder, queimar as urnas de 2014 e golpear a ordem democrática.

É hora, então, de aqueles que defenderam o impedimento de Dilma refletirem – caso não tenham tido sua mente totalmente tomada pela lavagem cerebral promovida pela mídia – sobre sua contribuição para o que aconteceu na votação de ontem na Câmara. Já não há mais “combate à corrupção” em jogo, porque os deputados descartaram esse pretexto. A hora é essa de perceberem que o que apoiaram se escancarou, mais do que nunca, como um golpe de Estado, algo nada a ver com a ética e honestidade que (supostamente) reivindicaram nas ruas.

Que acordem dessa hipnose midiática, enquanto ainda é tempo de pressionar o Senado para que não prossiga com o processo de cassação da presidenta. Caso contrário, a democracia vai sofrer como não sofria desde março de 1964, e os próprios manifestantes verde-amarelos vão arcar com consequências nada desejáveis impostas pelo governo golpista conservador que estão hoje ajudando a empossar.

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Alex

abril 18 2016 Responder

Só eu que entendi essas declarações como uma homenagem, eu dedico este voto à X, e não uma justificativa? É tão difícil perceber isso? Em 1992 foi a mesma coisa, e não teve esse mimimi todo.

    Nathalie

    abril 19 2016 Responder

    sim, foram homenagens num momento em q não se devia homenagear nada, e os deputados sabiam disso, por isto ficou evidente q a sessão foi um grande deboche contra a nação. eu nunca vi um tribunal do juri, por exemplo, sair do julgamento comemorando, pq é muito triste e lamentável vc participar da destruição da vida de uma ou d várias pessoas, por pior q elas sejam. apenas inquisidores podem ser sádicos ao ponto d sentir prazer com a desgraça.

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