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Como os reacionários são aquilo próprio que dizem combater
Contradições e hipocrisias: os reacionários dizem defender determinadas bandeiras, mas são eles mesmos os maiores opositores delas

Contradições e hipocrisias: os reacionários dizem defender determinadas bandeiras, mas são eles mesmos os maiores opositores delas

O reacionarismo de direita é o pior inimigo de suas próprias bandeiras, com suas frequentes contradições e hipocrisias

Para cada discurso que uma pessoa de direita adepta de crenças reacionárias profere “em defesa” de algum valor ou bandeira, se pudéssemos estudar a vida dela, encontraremos um ou mais casos recentes de violação frontal ao que foi “defendido”. Não falo aqui de casos de falso moralismo, como quando o “pró-família” trai a esposa ou o “pró-vida” força suas ex-namoradas a abortarem clandestinamente. Me refiro, ao invés, à contradição inerente aos discursos dos conservadores assumidos (inclusos os que se dizem “liberais” mas não defendem nenhum valor social e político do liberalismo contemporâneo).

Por exemplo, quando um conservador diz “defender a vida” ao se colocar contra o direito da mulher de optar ou não pelo aborto, ele não está defendendo nenhuma vida senciente, interessada em continuar existindo – já que embriões e fetos de até 24 semanas não sentem dor nem têm consciência formada.

O que ele está fazendo, ao invés, é proporcionar uma realidade em que morram tanto as mulheres e meninas, por complicações no aborto clandestino, suicídio, gravidez de alto risco mantida ou algum outro fator ligado a ela estar grávida contra a vontade, como os próprios nascituros “salvos” do aborto, que, crescendo sem condições afetivas, psicológicas e/ou econômicas na família e não recebendo nenhum amparo dos contrários ao aborto, recorrem à criminalidade e são mortos ou pela polícia, ou pelo narcotráfico, ou por outros criminosos.

Ou seja, os “pró-vidas” são na verdade defensores e possibilitadores de milhares de mortes por ano, principalmente de mulheres, contra quem eles dedicam uma notável misoginia por serem contra os direitos reprodutivos delas.

Um outro exemplo clássico da contradição do discurso reacionário é o apego à propriedade privada. Por um lado, defendem-na como um direito incondicional, absoluto, supremo. Mas por outro, não dão a mínima para casos em que a propriedade de pessoas pobres é subtraída ou destruída ou pelo próprio Estado, por meio da polícia e das forças armadas, ou por ladrões que aderiram à criminalidade por causa da pouca atenção dada pelo governo às desigualdades sociais.

Um terceiro caso de opinião autoanulativa é a suposta posição de defesa da ordem, seja no sentido de status quo social ou no de segurança pública. Muitos conservadores exigem que o Estado mantenha a ordem protegida de eventuais distúrbios e traga segurança à sociedade contra o crime.

Mas defesas como a radicalização da violência policial, a não humanização das penitenciárias e a oficialização do extermínio de criminosos civis como política securitária tendem a não resolver o problema da violência urbana. Pelo contrário, tornam a própria polícia uma instituição recheada de violações à lei e atentados à própria vida de pessoas inocentes, por meio do cometimento de crimes como homicídio multiplamente qualificado, racismo, tortura, constrangimento ilegal, corrupção e participação ativa no tráfico de drogas pesadas e armamentos.

Além disso, a defesa ativa de uma ordem social baseada na desigualdade e na hierarquização, sem a interferência de políticas sociais de Estado, tende a condenar a sociedade a uma situação de desordem crescente. Protestos violentos, aumento da violência e perda do senso de coletividade tendem a ocorrer com força numa sociedade excessivamente desigual e individualista, inviabilizando a possibilidade de o sistema social vigente encontrar um caminho de ordem e paz.

Uma quarta “bandeira de direita” a ser enfatizada aqui é o “combate” à corrupção. O caso da política brasileira é emblemático, no que se refere a usar manipuladamente a reivindicação da honestidade política para fortalecer a própria cultura de corrupção.

Uma intensa campanha de políticos conservadores e grupos militantes adeptos do neoliberalismo dizia “denunciar a corrupção” nos governos do PT, principalmente no de Dilma Rousseff. E defendeu o impeachment dela como um passo “essencial” no “combate” a esse tipo de crime.

Mas depois da aprovação do impeachment na Câmara dos Deputados, o que se viu foi o encerramento de todas aquelas grandes “manifestações contra a corrupção”, e o silêncio ou mesmo cumplicidade de alguns movimentos de militância de direita contra políticos denunciados por corrupção (como Eduardo Cunha) ou irresponsabilidade fiscal (como Michel Temer, apontado como autor de pedaladas fiscais num passado recente). O pretexto de que se passaria a lutar contra Temer e Cunha após a derrubada de Dilma foi abandonado pela direita militante depois da derrota da presidenta na Câmara.

Ou seja, a direita usou a bandeira “anticorrupção” apenas por interesses privados, como o de instaurar um governo conservador do zero após o encerramento prematuro do mandato de Dilma. E por meio do uso dessa causa, está não combatendo esse tipo de crime, mas sim fortalecendo a cultura de negociatas, desvios de verba e abusos de poder, perante a qual os conservadores assumidos ou se omitem, ou mesmo apoiam veladamente.

E a quinta causa reivindicada pelo conservadorismo a ser usada como exemplo é a oposição ao que se referem como “decadência moral” da sociedade. Há décadas os conservadores falam que está havendo no Brasil uma “degeneração dos valores”.

Mas quando vamos ver quais valores vemos sendo defendido por eles, encontramos potentes intolerâncias contra múltiplas minorias políticas – mulheres, negros, pessoas pobres, LGBTs, religiosos não cristãos, ateus, pessoas de esquerda etc. – e reação com ódio a políticas de inclusão social e valorização dos Direitos Humanos. Nesse contexto, é comum ver reacionários defendendo, por exemplo, a conservação da liberdade de gostar de piadas preconceituosas, a desvalorização do meio ambiente, a consolidação do ódio como valor social e político, a valorização do desrespeito como costume moral, a discriminação e subjugação das minorias políticas mencionadas, o desprezo à democracia, o repúdio aos direitos fundamentais dos seres humanos etc. Isso são os tais “valores não decadentes” dessa parcela da direita brasileira, pelo que parece.

Nesse contexto, os argumentadores de que a sociedade brasileira está vivenciando uma “decadência moral” estão eles mesmos defendendo valores profundamente antiéticos e cada vez mais reconhecidos como imorais. Em outras palavras, a “degeneração da moralidade” está apenas nos próprios acusadores.

Dezenas de outros exemplos de contradições de direita podem ser encontradas nos artigos da categoria de postagens Valores de direita do Consciencia.blog.br. Lendo-os, será possível concluir que os piores inimigos das bandeiras reivindicadas pelos reacionários, mesmo aqueles que eles consideram centrais na sociedade, são eles próprios, e não a esquerda que lhes declara oposição.

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6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Nathalie

abril 29 2016 Responder

O fanatismo pela propriedade privada impede as pessoas d raciocinarem mais além. Com relação a repressão policial, ela eh uma repressao física, lesa o corpo do ser humano, com cacetete e spray. A tal da violência q supostamente os manifestantes exercem eh contra a endeusada propriedade privada, q nao eh um corpo vivo, mas apenas uma coisa sem sensibilidade. Detalhe: Os manifestantes ou sem terra nao destroem casas, eles destroem lojas ou terras mal usadas pelo poder econômico. Entre a violência física da policia e a material dos manifestantes, eu fico definitivamente com as dos manifestantes.

    Newton

    maio 1 2016 Responder

    Nathalie:

    O MST não destrói casas? Digite na busca “mst destroem casas” e depois me diga.

    Quanto à questão da propriedade privada, é um assunto longo…para não ficar aborrecido, te digo que a propriedade privada é a base da civilização humana, e que sem ela, provavelmente ainda estaríamos caçando e coletando.

Vinícius

abril 29 2016 Responder

“(…) crescendo sem condições afetivas, psicológicas e/ou econômicas na família, recorrem à criminalidade (…)”
“(…) ladrões que aderiram à criminalidade por causa da pouca atenção dada pelo governo às desigualdades sociais.”

Apesar de ser favorável ao direito à escolha pelo aborto, discordo desse argumento. Quem “recorre” à criminalidade é no máximo alguém que furta para comer, o que é uma minoria dos criminosos. Nada justifica utilizar-se de violência e ameaçar a vida alheia (p. ex.: com o uso de arma) em troca de bens.

“(…) não dão a mínima para casos em que a propriedade de pessoas pobres é subtraída ou destruída (…) pelo próprio Estado, por meio da polícia e das forças armadas”

Novamente, não discordo de seu ponto, mas discordo do argumento. Apesar de não ser favorável à destruição ou subtração de propriedade de ninguém, claramente quem defende o direito absoluto à propriedade privada considera válidas apenas propriedades regulares, com escritura ou contrato de aluguel (independentemente da classe social dos proprietários ou inquilinos), e não moradias irregularmente construídas em morros ou terrenos invadidos, com fornecimento ilegal de água e energia elétrica, sem pagamento de IPTU, etc.

Protestos violentos, aumento da violência e perda do senso de coletividade tendem a ocorrer com força numa sociedade excessivamente desigual e individualista, inviabilizando a possibilidade de o sistema social vigente encontrar um caminho de ordem e paz.”

Pode não ter sido a intenção original do autor, porém essa frase aparenta justificar chantagens indiretas por meio de violência (algo como “ou o Estado nos ajuda, ou vamos quebrar tudo”).

No mais, ótimo texto.

    Robson Fernando de Souza

    abril 29 2016 Responder

    Vinícius, agradeço a apreciação ao texto. Respondendo às colocações:

    “Quem “recorre” à criminalidade é no máximo alguém que furta para comer, o que é uma minoria dos criminosos.”
    O que explica então existir tantos criminosos de classe média e criminosos que não estão necessariamente numa situação de miséria absoluta? E aliás, e os criminosos ricos?

    “claramente quem defende o direito absoluto à propriedade privada considera válidas apenas propriedades regulares, com escritura ou contrato de aluguel (independentemente da classe social dos proprietários ou inquilinos)”
    Por que, então, não vemos um movimento de defensores da propriedade privada atuando contra, por exemplo, latifundiários grileiros e políticos que desviaram dinheiro público?

    “Pode não ter sido a intenção original do autor, porém essa frase aparenta justificar chantagens indiretas por meio de violência (algo como “ou o Estado nos ajuda, ou vamos quebrar tudo”).”
    O que seria, nesse caso, o Estado ajudar os “chantagistas”?

      Vinícius

      abril 30 2016 Responder

      Olá! Obrigado pela resposta.

      Sobre os criminosos, seu questionamento é exatamente o que eu quis fazer, mas talvez eu tenha me expressado mal. O que eu quis dizer é que o único tipo de crime que talvez seja “explicável” pela miséria é o furto (sem ameaça, sem arma) estritamente de alimento para consumo imediato. Qualquer coisa além disso independe de classe social, pois há criminosos em todos os estratos sociais. É por esse motivo que discordo dos dois trechos do texto citados em meu comentário anterior, os quais sugerem que a pobreza é um fator favorável à criminalidade.

      Quanto à ausência de movimentos contra ações de grileiros, isso talvez se deva à pouca divulgação de crimes desse tipo. Porém, independentemente de ideologias políticas, sinceramente não acho que alguém realmente seja favorável a essa prática.

      Sou cético quanto a movimentos contra desvio de dinheiro público (e corrupção na política em geral) partindo de pessoas de qualquer opinião política, pois quase sempre têm motivação puramente ideológica. Geralmente, cada lado divulga e repudia os “podres” dos adversários enquanto omite ou releva os dos aliados. Para o mesmo tipo de crime, e para o mesmo tipo de provas, as pessoas utilizam dois pesos e duas medidas: quando se trata de crimes cometidos por políticos apoiados por elas, dizem que a evidência é fraca ou que é invenção dos adversários e/ou da mídia; caso contrário, qualquer indício já é tomado como prova cabal.

      Acerca do último ponto do comentário, o trecho que citei parece considerar justificável que haja “protestos violentos” caso o Estado não colabore para a redução da desigualdade. Apesar de concordar que essa é uma das funções do Estado, discordo de qualquer tipo de protesto violento independentemente da finalidade.

      Aproveito o comentário para dizer que acompanho seus textos há bastante tempo (mesmo discordando frequentemente), pois são muito bem escritos e geralmente estimulam a reflexão.

        Robson Fernando de Souza

        abril 30 2016 Responder

        Obrigado também pela colocação, Vinícius =)

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