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Como o conservadorismo promove aquilo próprio que diz combater
Contradições e hipocrisias: os reacionários dizem defender determinadas bandeiras, mas são eles mesmos os maiores opositores delas

Contradições e hipocrisias: os reacionários dizem defender determinadas bandeiras, mas são eles mesmos os maiores opositores delas

Editado em 05/01/2017 às 15h57

A direita conservadora atribui a si mesma uma miríade de bandeiras e reivindicações.

Entre elas, estão a “defesa” da vida, da propriedade privada e da ordem e o “combate” à corrupção e à “decadência dos valores morais”.

Só que, se analisarmos o discurso que fundamenta cada uma dessas alegadas causas, encontraremos algo bem interessante.

Pensemos nesses cinco exemplos, em como os conservadores, dos assumidos aos que se mascaram de “liberais”, os “defendem”, e descubramos: o conservadorismo realmente é coerente com suas bandeiras?

Ou, na verdade, ela mesma viola e depreda aquilo que diz defender?

 

Analisando alguns exemplos de bandeiras conservadoras que o próprio conservadorismo atenta contra

De antemão, é preciso avisar que não estou falando aqui de casos de falso moralismo, como quando o “pró-família” trai a esposa ou o “pró-vida” força suas ex-namoradas a abortarem clandestinamente.

Minha análise, ao invés, é em cima da contradição inerente aos discursos dos conservadores assumidos – inclusos aqueles que se dizem “liberais”, mas não defendem nenhum valor social e político do liberalismo contemporâneo.

Vejamos então os cinco exemplos que mencionei na introdução. O que a direita conservadora discursa? E o que ela realmente faz?

 

A “defesa da vida humana”

Os conservadores, em especial religiosos fundamentalistas, costumam se colocar “em defesa da vida”, quando fazem suas declarações contrárias aos direitos reprodutivos das mulheres.

Porém, todo esse discurso mascara um verdadeiro ódio e desejo de destruição a milhões de vidas humanas e também o mais insensível desprezo a vidas de animais tão sencientes quanto os seres humanos.

Por exemplo, quando um conservador diz “defender a vida” ao se colocar contra o direito da mulher de optar ou não pelo aborto, ele não está defendendo nenhuma vida senciente, interessada em continuar existindo – já que embriões e fetos de até 24 semanas não sentem dor nem têm consciência formada.

O que ele está fazendo, ao invés, é proporcionar uma realidade em que morram:

  • Tanto as mulheres e meninas, por complicações no aborto clandestino, suicídio, gravidez de alto risco mantida ou algum outro fator ligado a ela estar grávida contra a vontade;
  • Como os próprios nascituros “salvos” do aborto, que, crescendo sem condições afetivas, psicológicas e/ou econômicas na família e não recebendo nenhum amparo dos contrários ao direito ao aborto, têm chances elevadas de recorrem à criminalidade e serem mortos ou pela polícia, ou pelo narcotráfico, ou por outros criminosos.

Ou seja, os “pró-vidas” são na verdade defensores e possibilitadores de milhares de mortes por ano, principalmente de mulheres, contra quem eles dedicam uma notável misoginia por serem contra os direitos reprodutivos delas.

Além disso, percebamos que a imensa maioria dos opositores do direito feminino à escolha entre continuar e interromper a gravidez é de não veganos. Ou seja, de pessoas que não se importam em pagar pela morte violenta de incontáveis animais: bovinos, porcos, coelhos, cabras e bodes, ovinos, búfalos, galinhas e frangos, perus, codornas, peixes, moluscos, crustáceos etc.

Esses são seres tão sencientes quanto os humanos, conforme atestam estudos como a Declaração de Cambridge sobre a Consciência Animal Humana e Não Humana. Ou seja, possuem emoções, sofrem e sentem dor tanto quanto nós. Mas a imensa maioria dos conservadores contrários aos direitos das mulheres não ligam nem um pouco para eles.

Em resumo, os conservadores que tanto se dizem “defensores da vida” e “escandalizados” com o “assassinato de crianças” são indiferentes à vida de seres realmente sencientes. E têm um ódio latente às mulheres e meninas já nascidas e crescidas. Sua “defesa da vida” mata, e com muito sofrimento.

 

A “defesa” da propriedade privada

Um outro exemplo clássico da contradição do discurso conservador é o apego à propriedade privada.

Por um lado, defendem-na como um direito incondicional, absoluto, supremo. Como o mais fundamental direito que o ser humano tem ou deveria ter – superior, algumas vezes, até à vida alheia.

Mas por outro, não dão a mínima para casos em que a propriedade de pessoas pobres é subtraída ou destruída ou pelo próprio Estado, por meio da polícia, da guarda municipal e das forças armadas, ou por ladrões que aderiram à criminalidade por causa da pouca atenção dada pelo governo às desigualdades sociais.

Em resumo, a direita defende a “propriedade privada” apenas em algumas situações, como quando defende os ricos – mesmo quando estes obtêm parte de seus bens de maneira ilegal – e reivindica ações violentas contra quem “rouba os cidadãos de bem”. Em muitas outras, se omite ou até mesmo apoia a subtração de propriedade.

 

A “defesa” da ordem

Um terceiro exemplo de como os conservadores violam suas próprias bandeiras é a alegada posição de defesa da ordem, seja no sentido de status quo social ou no de segurança pública.

Muitos conservadores exigem que o Estado mantenha a ordem protegida de eventuais distúrbios, como manifestações violentas, arrastões e ondas de saques, e traga segurança à sociedade contra o crime.

Mas defesas como a radicalização da violência policial, a não humanização das penitenciárias e a oficialização do extermínio de criminosos civis como política securitária tendem a não resolver o problema da violência urbana.

Pelo contrário, tornam a própria polícia uma instituição recheada de violações à lei e atentados à própria vida de pessoas inocentes, por meio do cometimento de crimes como homicídio multiplamente qualificado, racismo, tortura, constrangimento ilegal, corrupção e participação ativa no tráfico de drogas pesadas e armamentos.

Além disso, a defesa ativa de uma ordem social baseada na desigualdade e na hierarquização, sem a interferência de políticas sociais de Estado, tende a condenar a sociedade a uma situação de desordem crescente. Protestos não pacíficos, aumento da violência e perda do senso de coletividade tendem a ocorrer com força numa sociedade excessivamente desigual e individualista, inviabilizando a possibilidade de o sistema social vigente encontrar um caminho de ordem e paz.

O que se tem, no final das contas, é que a “ordem” defendida pela direita conservadora é absurdamente insustentável, e tende a se degenerar na mais caótica e violenta desordem em pouquíssimo tempo.

 

O “combate” à corrupção

A quarta bandeira conservadora a ser enfatizada aqui é o “combate” à corrupção. O caso da política brasileira é emblemático, no que se refere a usar manipuladamente a reivindicação da honestidade política para fortalecer a própria cultura de corrupção.

Uma intensa campanha de políticos conservadores e grupos militantes adeptos do neoliberalismo, entre 2014 e 2016, dizia “denunciar a corrupção” nos governos do PT, principalmente no de Dilma Rousseff. E defendeu o impeachment dela como um passo “essencial” no “combate” a esse tipo de crime.

Mas depois da aprovação do impeachment na Câmara dos Deputados, o que se viu foi o encerramento de todas aquelas grandes “manifestações contra a corrupção”. Somente em 4 de dezembro de 2016 é que a direita voltou a ocupar as ruas, mas em números muito menores do que em 13 de março daquele ano.

Viu-se muito também o silêncio ou mesmo cumplicidade de alguns movimentos de militância de direita contra políticos denunciados por corrupção (como Eduardo Cunha) ou irresponsabilidade fiscal (como Michel Temer, apontado como autor de pedaladas fiscais num passado recente). O pretexto de que se passaria a lutar contra Temer e Cunha após a derrubada de Dilma foi praticamente abandonado pela direita militante depois da derrota da presidenta na Câmara.

Ou seja, a direita usou a bandeira “anticorrupção” apenas por interesses privados, como o de instaurar um governo conservador do zero após o encerramento prematuro do mandato de Dilma.

E por meio do uso dessa causa, está não combatendo esse tipo de crime, mas sim fortalecendo a cultura de negociatas, desvios de verba e abusos de poder, perante a qual os conservadores assumidos ou se omitem, ou mesmo apoiam veladamente.

 

A “oposição à decadência moral”

A quinta e última causa reivindicada pelo conservadorismo a ser usada como exemplo é a oposição ao que se referem como “decadência moral” da sociedade. Há décadas os conservadores falam que está havendo no Brasil uma “degeneração dos valores”.

Mas quando vamos ver quais valores vemos sendo defendido por eles, encontramos pesadas intolerâncias contra múltiplas minorias políticas – mulheres, negros, pessoas pobres, LGBTs, religiosos não cristãos, ateus, pessoas de esquerda etc. – e reação com ódio a políticas de inclusão social e valorização dos Direitos Humanos.

Nesse contexto, é comum ver conservadores defendendo, por exemplo:

  • A conservação da liberdade de contar piadas preconceituosas, independentemente das consequências destrutivas delas para o outro;
  • A desvalorização do meio ambiente;
  • A consolidação do ódio como valor social e político;
  • A valorização do desrespeito e da hipocrisia como costumes morais;
  • A superioridade da intolerância sobre o respeito;
  • A supremacia do egoísmo e da compaixão seletiva sobre a ética;
  • A discriminação e subjugação das minorias políticas;
  • O desprezo à democracia;
  • O repúdio aos direitos fundamentais dos seres humanos etc.

Esses são alguns dos tais “valores não decadentes” dessa parcela da direita brasileira, pelo que parece.

Nesse contexto, os argumentadores de que a sociedade brasileira está vivenciando uma “decadência moral” estão eles mesmos defendendo valores profundamente antiéticos e cada vez mais reconhecidos como imorais.

Em outras palavras, a “degeneração da moralidade” está nos próprios conservadores, que têm promovido o agravamento da violência, da incivilidade, do autoritarismo e da intolerância no Brasil e consentido a degeneração da qualidade de vida da grande maioria dos brasileiros com o encolhimento das políticas sociais e dos investimentos públicos.

 

Considerações finais

Esses são apenas cinco exemplos, dentre um universo de literalmente dezenas, de como a própria direita conservadora erode os valores e causas que diz defender.

Afinal, não é de se esperar que algo realmente edificador e modificador da realidade surja de uma ideologia que, desde o século 18, tem em sua essência a reação violenta, a negação exacerbada, contra o desenvolvimento social da maioria da população e a conservação da ordem vigente.

Se naquela época os conservadores se sentavam à direita do rei para impedir os avanços políticos e sociais defendidos no Iluminismo, hoje ocupam as redes sociais para declarar seu ódio ao progresso social e a qualquer política pública que vise diminuir as desigualdades de classe, raça e gênero e combater a discriminação.

Nessa ordem de coisas, o conservador, quando diz “defender” algo, promove na verdade uma oposição, uma negação, uma tentativa de reprimir um progresso que se opõe ao que esse ideário pensa e crê.

Portanto, não esperemos que os conservadores tentem construir uma sociedade nova. Sua proposta, no fundo, consiste em reverter avanços e devolver a sociedade ao estado de coisas anterior, nem que seja por meio de violência e destruição e quebrando aquilo que dizem estar defendendo.

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6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Nathalie

Abril 29 2016 Responder

O fanatismo pela propriedade privada impede as pessoas d raciocinarem mais além. Com relação a repressão policial, ela eh uma repressao física, lesa o corpo do ser humano, com cacetete e spray. A tal da violência q supostamente os manifestantes exercem eh contra a endeusada propriedade privada, q nao eh um corpo vivo, mas apenas uma coisa sem sensibilidade. Detalhe: Os manifestantes ou sem terra nao destroem casas, eles destroem lojas ou terras mal usadas pelo poder econômico. Entre a violência física da policia e a material dos manifestantes, eu fico definitivamente com as dos manifestantes.

    Newton

    Maio 1 2016 Responder

    Nathalie:

    O MST não destrói casas? Digite na busca “mst destroem casas” e depois me diga.

    Quanto à questão da propriedade privada, é um assunto longo…para não ficar aborrecido, te digo que a propriedade privada é a base da civilização humana, e que sem ela, provavelmente ainda estaríamos caçando e coletando.

Vinícius

Abril 29 2016 Responder

“(…) crescendo sem condições afetivas, psicológicas e/ou econômicas na família, recorrem à criminalidade (…)”
“(…) ladrões que aderiram à criminalidade por causa da pouca atenção dada pelo governo às desigualdades sociais.”

Apesar de ser favorável ao direito à escolha pelo aborto, discordo desse argumento. Quem “recorre” à criminalidade é no máximo alguém que furta para comer, o que é uma minoria dos criminosos. Nada justifica utilizar-se de violência e ameaçar a vida alheia (p. ex.: com o uso de arma) em troca de bens.

“(…) não dão a mínima para casos em que a propriedade de pessoas pobres é subtraída ou destruída (…) pelo próprio Estado, por meio da polícia e das forças armadas”

Novamente, não discordo de seu ponto, mas discordo do argumento. Apesar de não ser favorável à destruição ou subtração de propriedade de ninguém, claramente quem defende o direito absoluto à propriedade privada considera válidas apenas propriedades regulares, com escritura ou contrato de aluguel (independentemente da classe social dos proprietários ou inquilinos), e não moradias irregularmente construídas em morros ou terrenos invadidos, com fornecimento ilegal de água e energia elétrica, sem pagamento de IPTU, etc.

Protestos violentos, aumento da violência e perda do senso de coletividade tendem a ocorrer com força numa sociedade excessivamente desigual e individualista, inviabilizando a possibilidade de o sistema social vigente encontrar um caminho de ordem e paz.”

Pode não ter sido a intenção original do autor, porém essa frase aparenta justificar chantagens indiretas por meio de violência (algo como “ou o Estado nos ajuda, ou vamos quebrar tudo”).

No mais, ótimo texto.

    Robson Fernando de Souza

    Abril 29 2016 Responder

    Vinícius, agradeço a apreciação ao texto. Respondendo às colocações:

    “Quem “recorre” à criminalidade é no máximo alguém que furta para comer, o que é uma minoria dos criminosos.”
    O que explica então existir tantos criminosos de classe média e criminosos que não estão necessariamente numa situação de miséria absoluta? E aliás, e os criminosos ricos?

    “claramente quem defende o direito absoluto à propriedade privada considera válidas apenas propriedades regulares, com escritura ou contrato de aluguel (independentemente da classe social dos proprietários ou inquilinos)”
    Por que, então, não vemos um movimento de defensores da propriedade privada atuando contra, por exemplo, latifundiários grileiros e políticos que desviaram dinheiro público?

    “Pode não ter sido a intenção original do autor, porém essa frase aparenta justificar chantagens indiretas por meio de violência (algo como “ou o Estado nos ajuda, ou vamos quebrar tudo”).”
    O que seria, nesse caso, o Estado ajudar os “chantagistas”?

      Vinícius

      Abril 30 2016 Responder

      Olá! Obrigado pela resposta.

      Sobre os criminosos, seu questionamento é exatamente o que eu quis fazer, mas talvez eu tenha me expressado mal. O que eu quis dizer é que o único tipo de crime que talvez seja “explicável” pela miséria é o furto (sem ameaça, sem arma) estritamente de alimento para consumo imediato. Qualquer coisa além disso independe de classe social, pois há criminosos em todos os estratos sociais. É por esse motivo que discordo dos dois trechos do texto citados em meu comentário anterior, os quais sugerem que a pobreza é um fator favorável à criminalidade.

      Quanto à ausência de movimentos contra ações de grileiros, isso talvez se deva à pouca divulgação de crimes desse tipo. Porém, independentemente de ideologias políticas, sinceramente não acho que alguém realmente seja favorável a essa prática.

      Sou cético quanto a movimentos contra desvio de dinheiro público (e corrupção na política em geral) partindo de pessoas de qualquer opinião política, pois quase sempre têm motivação puramente ideológica. Geralmente, cada lado divulga e repudia os “podres” dos adversários enquanto omite ou releva os dos aliados. Para o mesmo tipo de crime, e para o mesmo tipo de provas, as pessoas utilizam dois pesos e duas medidas: quando se trata de crimes cometidos por políticos apoiados por elas, dizem que a evidência é fraca ou que é invenção dos adversários e/ou da mídia; caso contrário, qualquer indício já é tomado como prova cabal.

      Acerca do último ponto do comentário, o trecho que citei parece considerar justificável que haja “protestos violentos” caso o Estado não colabore para a redução da desigualdade. Apesar de concordar que essa é uma das funções do Estado, discordo de qualquer tipo de protesto violento independentemente da finalidade.

      Aproveito o comentário para dizer que acompanho seus textos há bastante tempo (mesmo discordando frequentemente), pois são muito bem escritos e geralmente estimulam a reflexão.

        Robson Fernando de Souza

        Abril 30 2016 Responder

        Obrigado também pela colocação, Vinícius =)

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