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Dizem-se “defensores da liberdade”, mas defendem um sistema baseado em servidão, privações, barreiras e restrições
Catracas: instrumentos usados por capitalistas para restringir acessos, frustrar desejos e cortar liberdades

Catracas: instrumentos usados por capitalistas para restringir acessos, frustrar desejos e cortar liberdades

“Liberdade” é uma das palavras mais comuns em discursos de direita, principalmente de “liberais” e “libertários” de alma reacionária. Muitos direitistas desse tipo afirmam, de peito estufado, atuar “em defesa da liberdade”, um nobre valor com que, dizem eles mesmos, todos os seres humanos deveriam contar. Só que não percebem que, se por um lado se dizem defensores de uma sociedade de pessoas “livres”, por outro estão ajudando a impor um sistema baseado em servidão, privações, barreiras e incontáveis restrições e frustrações arbitrárias de desejos – em outras palavras, um sistema fundamentado na não liberdade.

Vale, a princípio, definir a liberdade, inclusive aquela que a direita liberal e “libertária” brasileira diz defender. Segundo Joel Feinberg, no livro Filosofia Social, a liberdade pode ser um dos dois conceitos abaixo, ou os dois combinados:
– a possibilidade de a pessoa realizar o que quer e tem capacidade, livre de obstáculos (em especial a coerção do Estado e da tradição) que o constranjam a não fazer aquilo que pretende;
– e a disponibilidade do máximo possível de possibilidades com as quais o indivíduo possa contar para ser, pensar e agir, entre elas aquilo que ele mais goste de ser e fazer e prefira crer e pensar.

No primeiro conceito de liberdade acima, o indivíduo pode se considerar livre se é adepto voluntário das únicas possibilidades viabilizadas pelo regime político e econômico vigente. Ou seja, se ele é empresário por gostar muito dessa profissão e não tem desejo de ser, por exemplo, sociólogo num Estado em que a Sociologia é criminalizada, ele pode se ver como um desfrutador de liberdade profissional.

E é esse primeiro conceito que os liberais e “libertários” assimilam para si. Defendem que o indivíduo esteja livre da coerção estatal e daquela vinda das tradições conservadoras para fazer aquilo que quer e é capaz de fazer. Segundo a eventual opinião de alguns, isso pode incluir ser permitido a incidir em ações antiéticas, como contar piadas preconceituosas e ser um empresário desonesto em segredo.

Levando em conta os dois conceitos de liberdade mencionados, é possível dizer, observando-se a realidade, que, apesar do que os fundamentalistas de livre mercado vivem dizendo, o capitalismo não é um mundo de liberdades, mas sim de restrições, constrangimentos, proibições e frustrações que impedem a grande maioria das pessoas de serem livres de fato.

Um dos mais simbólicos impedimentos no capitalismo defendido pelos liberais de direita brasileiros é referente a negar a possibilidade de o indivíduo levar um modo de vida não capitalista, isto é, que seja baseado em troca de recursos, em valores como a solidariedade e a cooperação e na não aceitação da supremacia do dinheiro e do capital sobre a sociedade.

Nem mesmo se migrar para a área silvestre mais distante de cidades civilizacionais na Amazônia ou na Taiga russa, a pessoa conseguirá viver bem, minimamente confortável e totalmente livre das interferências e coerções sutis do capitalismo. Isso porque, a longo prazo, pode sofrer com a poluição, a desregulação do clima local e a ameaça de perder sua remota morada para latifundiários, madeireiras ou indústrias.

E mesmo os anarquistas da cidade acabam sendo obrigados a ceder, por exemplo, dinheiro para a compra ou aluguel de alguma casa comunal e produzir e vender algo para ganhar verbas para comprar aquilo de que precisam. Só depois da eventual queda do Estado capitalista que os domina é que poderão viver uma vida livre, desatada, do império do capital. Ou seja, a submissão ao capitalismo é a única “opção” que se oferece, dela não se pode fugir, e qualquer outra possibilidade é negada e frustrada.

E quando se fala de impedimentos à liberdade de ação, locomoção e usufruto de direitos no capitalismo, é de se pensar num objeto chamado catraca. Ela impede acessos, muitas vezes exigindo que a pessoa pague determinado valor em dinheiro para entrar – e muitas vezes o dinheiro é tanto que ela não o terá para desembolsar e ter acesso. A pessoa não é livre de obstáculos, por exemplo, para curtir uma balada, ou passear numa trilha florestal, ou mesmo viajar alguns quilômetros de algum meio de transporte público, já que esses acessos estão condicionados a ter ou não dinheiro.

A relação entre o acesso pago e a não liberdade é tão forte no meio capitalista que, em inglês, a palavra free significa tanto gratuito como livre. A língua inglesa enfatiza que, na lógica capitalista, aquilo que é condicionado a um pagamento, muitas vezes caro demais para a maioria da população, não é livre.

E pelo que muitos pró-capitalistas defendem, a saúde, a educação e mesmo a segurança não deveriam ser direitos, mas sim meros serviços a serem diretamente pagos para se poder usufruir. Nesse contexto, a pessoa não terá o mínimo de condições de se socializar, crescer profissionalmente e mesmo se sustentar viva se não tiver tanto dinheiro a ponto de pagar por vários serviços que hoje, nos países que têm alguma tradição socialdemocrata, como o Brasil, são direitos fundamentais. E isso pode ser visto facilmente como uma privação de liberdade, mesmo naquele conceito valorizado pelo “libertarismo”.

Nesse contexto, sem dinheiro suficiente, as pessoas pobres viverão uma vida de privações, limitações, impedimentos mil e serão obrigadas, se não quiserem morrer de fome, a se vender à servidão em trabalhos de baixa remuneração e condições degradantes. E quando a pessoa tem grande parte de sua vida tolhida por trabalhos obrigatórios compulsórios para sua sobrevivência, precisa se sujeitar à exploração para sobreviver e é, na prática, proibida de trabalhar e prosperar naquilo que gosta, pode-se dizer que ela não tem liberdade. É quase uma escrava, aliás – semiescrava tanto da empresa que a explora como do sistema capitalista como um todo.

Considerando-se todas essas questões, e principalmente a exploração socioeconômica que nega a liberdade à grande maioria da população, é possível afirmar que o que a direita “defensora da liberdade” está na prática embandeirando é a ausência ou supressão de inúmeras liberdades, como a de ir e vir, a de “crescer na vida” por meio do estudo e da formação profissional, a de trabalhar naquilo que gosta e mesmo de se alimentar e ter atendimento médico. É uma “defesa da liberdade” que, na prática, impõe privações, negações e frustrações mil às vontades e necessidades individuais, além da mais violenta servidão em empresas abusivas.

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Priscila

maio 2 2016 Responder

Não defendendo ou defendendo o uso de catraca, mas creio que é um meio de controlar quem entra e quem sai.
Por tais argumentos usado pelo texto podemos fazer uma analogia da “porta” ou “janela” ambas privam a liberdade de ir e vim. O que me fala sobre esses meios opressores?

    Robson Fernando de Souza

    maio 2 2016 Responder

    Priscila, a catraca é mais simbólica do que a porta porque, na grande maioria das situações em que há uma catraca, ela serve pra segregar entre quem pode pagar e entrar e quem não pode ou não quer pagar pra entrar. Ela tira a liberdade (vide o conceito dado no texto) de entrar no estabelecimento sem pagar.

    E a privatização neoliberal atua no sentido de acabar com a gratuidade do acesso a muitos serviços (incluindo de lazer, em alguns casos mais radicais) e impor catracas que bloqueiam o acesso de quem não puder ou quiser pagar.

    Já a porta é um mecanismo de segurança mesmo, não tem a mesma simbologia de acesso pago que a catraca.

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