10

abr16

Os esforços da direita e dos “cidadãos de bem indignados” não visam extirpar, mas sim conservar e piorar a corrupção no Brasil
Michel Temer e Eduardo Cunha, dois dos cabeças do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, o qual visa não combater a corrupção, mas sim mantê-la e radicalizá-la

Michel Temer e Eduardo Cunha, dois dos cabeças do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, o qual visa não combater a corrupção, mas sim mantê-la e radicalizá-la

A direita brasileira diz estar travando uma “guerra contra a corrupção e a incompetência”, e arrebanha consigo milhões de “cidadãos de bem” que se dizem “revoltados contra tudo que aí está”. Mas não é difícil notar como os esforços de ambos estão voltados não para o genuíno combate à desonestidade política, mas sim para a conservação e radicalização da mesma.

Isso pode ser percebido desde os flagras de hipocrisia dos “cidadãos de bem” até a incapacidade dos conservadores pró-impeachment – sejam eles políticos ou empresários – de disfarçar seus contundentes interesses em apurar ganhos políticos e até financeiros num eventual governo do PMDB, seja ele encabeçado por Michel Temer ou pelo famigerado Eduardo Cunha. Sendo todos eles beneficiários da iniquidade, não lhes interessa um Brasil mais justo, que conte com um sistema político mais transparente e intolerante à corrupção.

Do lado dos “cidadãos indignados”, notamos como seus comportamentos cotidianos são incompatíveis com o seu suposto ideal de país livre da política corrupta e do mau governo. Tem sido comum flagrar pessoas desse tipo incidindo em desonestidades diversas:
criação e propagação intencional de boatos e calúnias contra o PT e a esquerda;
– posturas preconceituosas, violentas e desrespeitosas, como machismo e misoginia, racismo, heterossexismo, xenofobia, pauperofobia, transfobia, capacitismo, intolerância religiosa e ódio político explícito, típicas de pessoas de moralidade corrupta;
– descaso para com os valores mais básicos da democracia, como o respeito à liberdade de expressão alheia, a participação popular consciente na política e o repúdio às desigualdades e injustiças sociais;
pequenas corrupções cotidianas, como estacionamento em vagas para pessoas com deficiência, recebimento de troco a mais sem devolver, suborno a guardas de trânsito, vazamento da localização de blitze rodoviárias, falsificação de atestados médicos e carteiras estudantis, pequenos furtos em escolas e universidades etc.;
conivência para com escândalos de corrupção protagonizados por políticos de direita de fora do PT, vide Trensalão paulista, Mensalão Mineiro, Operação Zelotes, Panama Papers, escândalo das merendas do estado de São Paulo, caso HSBC, dossiê de Furnas, as denúncias da própria Operação Lava Jato contra deputados e senadores antipetistas etc.;
– postura de alienação e descaso perante maus governos estaduais e municipais, como nos casos dos estados de São Paulo (metrô em processo de sucateamento, educação pública abandonada, governança antidemocrática etc.), Rio de Janeiro (metrô superfaturado, suspeitas de corrupção nas obras das Olimpíadas, remoções forçadas de pessoas pobres, violência policial abusiva, genocídio da juventude negra nas favelas etc.) e Pernambuco (muitas obras inacabadas, relações promíscuas entre governo e grandes empresas locais, nepotismo disseminado, crimes ambientais, serviços públicos ruins e caros etc.);
– e tantos outros exemplos, típicos de pessoas cujo objetivo político real passa astronomicamente longe de construir um país melhor sob o império da honestidade e da transparência.

Já do lado dos políticos de direita e da mídia, tão engajados em derrubar Dilma Rousseff e “eleger” Temer ou Cunha por um meio não democrático, não conseguem mais disfarçar sua esperança num possível governo federal do PMDB, pronto para cumprir sua “Ponte para o Futuro”, programa baseado em privatizações em massa, desmonte de direitos trabalhistas e programas sociais, desmantelamento da legislação ambiental, fanatização do capitalismo e manutenção forçada da ordem social vigente sob a bandeira da “harmonia social”.

Isso pode ser percebido por três grandes fatos. Primeiro, mais da metade dos membros da comissão de impeachment são eles próprios envolvidos com corrupção e outros crimes graves. Segundo, o critério pelo qual estão tentando impedir Dilma de continuar no poder, as pedaladas fiscais, não está sendo usado pelos antipetistas para derrubar outros envolvidos com esse tipo de manobra orçamentária, como o próprio Michel Temer e pelo menos dezesseis governadores. E terceiro, está-se discutindo, num eventual governo Temer, o arquivamento das denúncias contra o atual vice-presidente e até da Lava Jato inteira.

Ou seja, eles não estão interessados num Brasil menos corrupto, uma vez que eles próprios não estão dispostos de abandonar suas práticas desonestas. Mas sim em poder, ou seja, em tomá-lo à força por meio do golpe do impeachment de Dilma. E considerando os planos de engavetar a Lava Jato após ser aprovado o impedimento dela, é cristalinamente claro que o intuito dos golpistas é manter a ordem corrupta como ela é e garantir que continuarão impunes em seus esforços de assaltar o erário público.

Fica muito evidente que não há na direita, desde seus comandantes até o “cidadão de bem” verde-amarelo que vai à Avenida Paulista ou a Copacabana tirar foto com a PM, o menor interesse em limpar a política brasileira e curá-la da endemia de desonestidade, inépcia governamental e corrupção. Pelo contrário, querem arrancar Dilma do Planalto apenas para ganhar o poder necessário para manter tudo como está, continuar fazendo a festa com o dinheiro dos impostos dos brasileiros e consagrar a impunidade. Se alguém da direita diz estar defendendo impeachment “contra a corrupção”, é quase certo que, ou está faltando com a verdade, ou não sabe o que diz.

imagrs

3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Alex

abril 12 2016 Responder

Se o governo fosse de qualquer outro partido, os que hoje dizem ser golpe iriam está pedindo o Impeachment também, como fizeram com todos os presidentes de Collor até FHC

Newton

abril 11 2016 Responder

Posso responder somente por mim, mas acho que imputar intenções a terceiros que você desconhece é muita arrogância. Decerto que a corrupção se tornou modus operandi dos políticos e instituições aqui no Brasil, mas colocar todos no mesmo saco é arriscado. Ainda existem sim pessoas do bem, que querem o melhor para todos. E entre esses eu incluiria a sua pessoa, mesmo que, politicamente e ideologicamente, discordemos.

Regina

abril 10 2016 Responder

Seu comentário desrespeitoso, que menciona depreciativamente “pseudos brasileiros ignorantes insistem em não ver ou por fraqueza de caráter” em referência a quem pensa diferente de você, foi apagado. Fanatismo exclamativo não é bem vindo por aqui. RFS

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo