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abr16

Por que o provável futuro Governo Temer já nascerá fadado a cair
O governo de Michel Temer tem tudo para implodir na insustentabilidade social e política

O governo de Michel Temer tem tudo para implodir na insustentabilidade social e política

Optar pela brutalização do capitalismo e do conservadorismo e pela rejeição da modernização moral vai custar caro para Michel Temer e aliados

Obs.: Este artigo, apesar de falar estrategicamente da “necessidade” de modernização do capitalismo, não é apologista do status quo capitalista. Visa, na verdade, mostrar como a direita e elite brasileiras estão rejeitando as chances e lições que teriam, se fossem minimamente inteligentes, para manter seus ganhos a longo prazo e o controle ideológico da população. É um aviso à esquerda para aproveitar a chance que ouro, que se avizinha, de se aproveitar da estupidificação da direita e derrubá-la.

É pouco provável que Dilma Rousseff consiga reverter seu afastamento pelo Senado em maio. Mas um outro fato tem ficado cada vez mais certo de acontecer: a queda prematura também do iminente governo conservador de Michel Temer. As notícias que têm antecedido a consolidação do impeachment da atual presidenta, de medidas opressoras sendo prometidas uma atrás da outra para serem aplicadas numa só pancada, tanto mostram que a direita não aprendeu nada com a modernidade capitalista como podem despertar no povo a chama da revolta generalizada que, mesmo que não seja propriamente uma revolução anticapitalista, irá colapsar o novo mandato nascido do impeachment.

A rápida sucessão de um grande número de notícias ruins, sobre as nuvens pesadas que se avizinham no horizonte após o quase certo afastamento de Dilma nesse mês de maio, revelam uma direita conservadora sedenta de sufocar a grande maioria da população e trazer lucros rápidos para os grandes empresários. É nessa recusa de modernizar a moral política e empresarial que reside também a dinamite que poderá implodir essa direita hoje em ascensão, assim como possibilitar ao povo voltar a sonhar com dias melhores, mesmo que venha a reivindicar apenas novas eleições ao invés de uma ordem sociopolítica e econômica inteiramente nova.

De uma só vez Michel Temer e seus aliados conservadores querem surrar a população com a supressão massiva de direitos trabalhistas, ambientais, civis e políticos e o roubo do patrimônio público e estatal mediante privatizações. Estão mostrando uma estúpida rejeição à modernização e flexibilização do capitalismo e à noção de que foi essa atualização que viabilizou a sobrevivência do sistema vigente após a Grande Depressão dos anos 30 e a queda do nazi-fascismo nos anos 40.

Não aprenderam nada com as lições dadas pelos próprios presidentes petistas. Lula soube, por meio do lulismo, induzir o povo a sonhar com a possibilidade da redenção individual por meio do capitalismo, conciliado com políticas sociais e a tentativa de costurar a harmonia entre as diferentes classes socioeconômicas. E também manteve a maior parte da esquerda sob controle, desmobilizada, desmotivada e desacostumada de ver na derrubada do capitalismo a única chance de redenção da maioria da população.

Dilma, por sua vez, trouxe políticas de desenvolvimentismo predatório, arrocho econômico e conservadorismo socioambiental de maneira gradual, a conta-gotas. Fez isso de modo que a população não fosse acometida pela revolta resultante da perda abrupta de direitos em massa.

Eles, que poderiam ter sido vistos como aliados importantes – e até tentaram sê-lo, devotadamente – na manutenção, modernização e perpetuação do capitalismo brasileiro, foram encarados, ao invés, como inimigos mortais pela direita, mesmo esta sendo capitalista “até o talo”.

Os conservadores brasileiros, inclusos aqueles que se acham “liberais” apenas por defenderem livre mercado, Estado mínimo e privatizações, recusam, de maneira irracional, a modernização estratégica do capitalismo. Rejeitam diversas estratégias adotadas pelos Estados dos países desenvolvidos e pelas grandes corporações dessas nações, para se adaptar às mudanças da sociedade ocidental dos séculos 20 e 21 e tentar tornar o marxismo revolucionário algo anacrônico e desconectado dos novos tempos.

Entre elas estão: o investimento em direitos trabalhistas, de modo a garantir o bem-estar no trabalho e aumentar a produtividade de maneira inteligente; a expansão do mercado consumidor da maioria dos produtos e serviços e a diminuição da concentração de renda, com a inclusão social e o aumento da renda média; os investimentos em saúde e educação públicas, de modo a formar trabalhadores bem instruídos, saudáveis e produtivos; a viabilização de uma taxa razoável de mobilidade social ascendente; a responsabilidade socioambiental como maneira de melhorar a reputação das empresas e fazer parecer que o capitalismo pode ser ético; as políticas sociais e de geração de emprego como maneira de manter os trabalhadores na ilusão de sonhar com a possibilidade de prosperar no capitalismo e não precisar se libertar dele; a hipnose coletiva por meio das idealizações nacionalistas e do “coletivismo individualista” do “patriotismo” capitalista; e a manutenção da imagem do sistema capitalista, por meio das políticas públicas e da responsabilidade socioambiental, como viabilizador de sonhos de prosperidade individual e da mitológica busca pela felicidade.

Pelo contrário, o que a direita brasileira tem pretendido fazer, com todas as notícias derivadas do projeto de poder de Michel Temer pós-impeachment de Dilma, é acabar com o antigo “capitalismo manso” da Era Lula, que sucumbiu à crise econômica e à inabilidade político-administrativa de Dilma e equipe. É implantar, no lugar, um sistema cruel, opressor óbvio, esmagador de sonhos, multiplicador de miséria e inviabilizador mesmo das ilusões capitalistas da classe média e média-baixa de ascensão à elite rica.

E não percebe, do alto de sua intransigência antidemocrática, que esse capitalismo selvagem de Estado mínimo, mesmo que faça os lucros das grandes empresas aumentar momentaneamente, é insustentável a longo prazo. Vai exaurir os recursos naturais com rapidez, fazer a produtividade do trabalhador despencar, encolher o poder aquisitivo da maioria do mercado consumidor, plantar a infelicidade generalizada e, finalmente, acender revoltas populares – ainda mais se as políticas sociais da era petista realmente forem revogadas.

E daí essa direita irá pagar caro, por fazer as teorias marxistas e a ideias de revolução e “primavera brasileira” fazerem sentido mais do que nunca. Cairá em não muito tempo, por mais que tente resistir por meio da repressão militar e da tentativa de domar ideologicamente a população por meio da grande mídia e da doutrinação política por parte dos grupos “liberais”. Sua recusa em aceitar e respeitar a democracia, somada à imprudência social e à supressão de direitos em massa, vai fazer com que nada, nem mesmo as mais cruéis tentativas de criminalização e repressão, pare o povo em sua insurgência.

Quando penso nessa possibilidade, vislumbro o quanto a direita brasileira é alcoólatra. Ela busca o prazer fácil, imediato e forte na bebida alcoólica chamada neoliberalismo, e não vislumbra que essa droga pode viciar e prejudicar severamente sua saúde e integridade física. Entre a chance de renovação e perpetuação, através da modernização moral, e a estupidificação e autofagia por meio da radicalização reacionária e irracionalista, ela optou pela última.

Assim sendo, essa será a chance de ouro que a esquerda terá. Poderá, em tal momento de arrocho abrupto de direitos e embrutecimento do capitalismo e da direita, fazer algo que há tempos não conseguia: unificar-se em torno de uma causa única e principal, que, neste momento, é a derrubada do quase certo futuro governo mão-de-ferro de Michel Temer. Também será a chance de conquistar os corações e mentes da população em torno da ideia da insustentabilidade de um sistema tão cruel e da necessidade de derrubá-lo por questão não de ideologia, mas de sobrevivência e integridade física e psicológica.

imagrs

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Tiago

maio 3 2016 Responder

O capitalismo não se adaptou para “continuar iludindo os pobres”. O capitalismo se adapta por que esta é a sua essência.
Sabe a ciencia, aquele negócio que os marxistas, assim como os demais religiosos dogmáticos, odeiam? Pois é. O capitalismo, mais especificamente o liberalismo é o único sistema que pode ser chamado de científico, justamente por que tem a capacidade de aprender com seus erros e seguir se adaptando. Ao contrário do marxismo, onde qualquer crítico é automaticamente taxado de revisionista e mandando para o paredão. E seus fracassos sao atribuídos ao imperialismo americano, o embargo econômico, a CIA ou qualquer outro bode expiatório.

    Robson Fernando de Souza

    maio 3 2016 Responder

    “O capitalismo, mais especificamente o liberalismo é o único sistema que pode ser chamado de científico, justamente por que tem a capacidade de aprender com seus erros e seguir se adaptando.”
    Você pode provar que essa “ciência capitalista” faz sentido, ao invés de ser tão pseudocientífica quanto, por exemplo, o criacionismo?
    Sobre o liberalismo, ele não é uma ciência, mas sim uma corrente política.

    “Ao contrário do marxismo, onde qualquer crítico é automaticamente taxado de revisionista e mandando para o paredão.”
    http://consciencia.blog.br/2014/01/falacia-de-reducao-a-ditadura-socialista.html

Haroldo

maio 1 2016 Responder

só pra acrescentar uma informação: aprovação a michel temer é de 11%
http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/197763/Aprova%C3%A7%C3%A3o-de-Michel-Temer-%C3%A9-de-11-diz-Ibope.htm

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