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maio16

Abandonai toda a esperança por um governo redentor pós-Dilma, vós que defendestes o impeachment da presidenta

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As consequências da política de arrocho de Michel Temer e aliados tornarão mais difícil a vida também de quem apoiou o impedimento da petista

Muitas pessoas têm defendido o impeachment de Dilma Rousseff acreditando que o sucessor dela – que será Michel Temer e, se ele cair, será substituído por Eduardo Cunha – fará do Brasil um país melhor e mais esperançoso. Se você se inclui entre elas – e veio, a este texto, aberto(a) à possibilidade de ler artigos de quem discorda de você –, sinto em ter que parafrasear o autor renascentista italiano Dante Alighieri, na sua épica Divina Comédia: “Abandonai a esperança, vós que entrais”.

Nessa citação de Dante, como “esperança” me refiro à perspectiva que você ainda tem de ver o Brasil se recuperar economicamente, passar a ter uma política menos corrupta e sua vida individual melhorar após a posse de Temer. E o lugar onde “vós entrais” não é o inferno, mas o Brasil pós-impeachment, que também não será um lugar muito agradável de se viver.

A ilusão de um “Brasil melhor sem Dilma” será quebrada dentro de poucas semanas, ou até mesmo poucos dias, após o afastamento da atual presidenta em favor de seu traiçoeiro vice. Ele e seus aliados já declararam várias vezes, nas últimas semanas, que seu provável governo será um verdadeiro inverno siberiano para os trabalhadores pobres, os estudantes e a classe média, ainda pior do que o segundo governo Dilma já tem sido. E convém dizer que é bem provável que essa estratégia imprudente e mal assessorada, de castigar o povo numa só facada, se torne o fator decisivo para a queda desse futuro governo mediante insurreição popular.

Avizinha-se um enorme “pacote de maldades”: aprovação e sanção de numerosas leis de diminuição, restrição ou supressão de direitos trabalhistas (entre elas a extensão da terceirização à atividade-base das empresas e o enfraquecimento da CLT), privatização e concessão em massa de empresas estatais e patrimônio público federal, desestatização e cobrança também nos ensinos universitário e médio, extinção do patamar mínimo de investimentos e despesas com saúde e educação públicas, desvinculação do reajuste de benefícios sociais do aumento do salário mínimo, dificultação da aposentadoria com a imposição de uma idade mínima praticamente incondicional, o esvaziamento das verbas do Sistema Único de Saúde, entre tantas outras medidas de notável crueldade.

Também está chegando do horizonte uma política francamente antiambiental, ainda mais severa do que a de Dilma. Isso a começar pela proposta de emenda constitucional que pretende abolir o licenciamento ambiental e, assim, abrir os portões para obras causadoras de enorme destruição de ecossistemas e genocídios contra povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades tradicionais.

Nesse conjunto de medidas de arrocho social e econômico e irresponsabilidade ambiental, todos irão sofrer.

Os mais pobres serão prejudicados com a supressão de programas sociais, serviços públicos e direitos trabalhistas; o recrudescimento da violência de bandidos civis e policiais criminosos na periferia; a perda do acesso a serviços públicos essenciais, como o SUS; entre outras derrotas severas.

A classe média, com a precarização de seu trabalho, as perdas salariais, a extensão da recessão econômica, a obrigação de recorrer a custosos serviços privados por causa do desmonte dos públicos – mesmo num momento que exige o corte do orçamento doméstico – e, finalmente, o empobrecimento e a reversão da ascensão social vivenciada no governo Lula.

Também a classe empresarial, mesmo que consiga lucros rápidos num primeiro momento, tenderá a sofrer mais adiante, com a degeneração do poder aquisitivo da classe média e o consequente encolhimento do mercado consumidor, assim como o esfriamento invernal da economia – por causa da radicalização das políticas de ajuste fiscal e dessa queda do consumo.

E é imprescindível ressaltar que toda a população sofrerá, dos mais pobres aos mais ricos, com o avanço da degeneração da qualidade de vida por causa da desregulação e degradação ambiental, o avanço dos grupos de influência contrários aos Direitos Humanos (como os “cristãos” fundamentalistas e os neofascistas simpatizantes de indivíduos como Jair Bolsonaro), o alastramento da violência na cidade e no campo, os literalmente violentos retrocessos na democracia – se é que o Brasil ainda poderá ser considerado um país democrático sob um governo ilegítimo, antipopular e não eleito –, a perda de todo o respeito internacional que o país havia conquistado durante os governos petistas e os prejuízos econômicos resultantes de prováveis sanções impostas pelo Mercosul, pela Unasul e pelo BRICS.

Isso tudo, lamento em dizer, deverá acontecer sob a cumplicidade de cada indivíduo que se vestiu de verde e amarelho nos famigerados protestos pró-impeachment, investiu em intolerância contra discordantes políticos contrários ao processo contra Dilma, converteu o momento democrático de outrora num cenário de baixaria, autoritarismo e violência – inclusive física – e atendeu aos tendenciosos e interesseiros chamados da mídia contra a presidenta petista sem esboçar qualquer questionamento e ceticismo.

Se você defendeu o impeachment de Dilma Rousseff e aceitou a ascensão de Michel Temer, sem a preocupação de renovar o quadro político por meio de novas eleições gerais, você não contribuiu para um futuro melhor para os brasileiros. Pelo contrário, quem assumirá será um grupo de políticos egoístas e desonestos frequentemente delatados e denunciados por operações como a Lava Jato. E eles estão ansiosos para fazer com que pessoas como você, mesmo os tendo apoiado na derrubada da petista, percam diversos direitos e tenham uma vida pior e bem mais difícil daqui para a frente.

Portanto, se você ainda acha que o Brasil vai melhorar depois que Dilma cair, desista dessa esperança. Reveja suas crenças sobre a conjuntura política atual e a “necessidade” do impeachment. E reflita sobre a necessidade, que logo, logo surgirá e se tornará óbvia, de pedir também a queda de Michel Temer, Eduardo Cunha e aliados, a realização de eleições gerais e a tão necessitada reforma política, antes que o Brasil se degrade ainda mais e você também sofra muito com isso.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

andré

maio 6 2016 Responder

é uma pena que meus amigos não gostam de ler e só se interessam por “memes” e montagens que relativizam fatos políticos isolados de um contexto. excelente o seu blog. abraços!

    Robson Fernando de Souza

    maio 6 2016 Responder

    Obrigado, André =) Abs!

alceri

maio 4 2016 Responder

Tchau querida!

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