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Como muitos conservadores “defensores da tradição” são assíduos destruidores de tradições – inclusive as de seu próprio país
Cerimônia em Salvador marcada pelo afoxé, música tradicional afro-brasileira. As culturas negras são algumas das tradições que os reacionários "defensores da tradição" odeiam

Cerimônia em Salvador marcada pelo afoxé, música tradicional afro-brasileira. As culturas negras são algumas das tradições que os reacionários “defensores da tradição” odeiam

Dizem-se “tradicionalistas”, mas desprezam os valores, crenças e costumes ancestrais que compõem a raiz histórica do povo brasileiro, e exaltam a modenidade caótica

Algo que tem sido comum, no Brasil e em outros países, é conservadores autointitulados “defensores da tradição” incidirem em ações e opiniões que contribuem para a destruição de tradições diversas de maneira implacável. Nem aquelas de seu próprio povo e país escapam às consequências deletérias da atitude de reacionários que reivindicam para si o falso atributo de “tradicionalistas”.

Vale, a princípio, pensar que defender as tradições passa por defender aqueles valores, crenças e costumes ancestrais que formam a identidade cultural daquela etnia, comunidade, população local, região ou país. E isso, ao contrário do que muitos reacionários acreditam, não é meramente defender a permanência das desigualdades sociais, da ordem social não democrática, da violência injusta naturalizada, dos privilégios dos ricos e dos múltiplos preconceitos e dominações contra minorias políticas. Não consiste em simplesmente proteger privilégios próprios ou alheios, mas algo muito mais socialmente responsável e favorável ao coletivo.

Nesse quesito, exemplos de tradições que poderiam ser defendidas no Brasil seriam as festas juninas e outras regionais, o bucolismo tranquilo de vilas e municípios pequenos no interior do país e em parte das periferias de algumas capitais, as cerimônias religiosas sincréticas, a cultura rural caipira e sertaneja (exceto atividades de exploração animal), as culturas negras e indígenas em todos os seus aspectos, os quilombos, as comunidades ribeirinhas e tradicionais que habitam locais ambientalmente conservados, a rica biodiversidade do território brasileiro e a interação harmônica dos humanos com ela, a diversidade de crenças e descrenças religiosas.

Mas tem sido muito difícil ver blogs e páginas sociais autorrotulados conservadores ou reacionários defenderem essa múltipla faceta das tradições brasileiras. O contrário, aliás, é muito mais fácil de se achar nesses locais: aplausos quando direita brasileira promove o esmagamento violento de tradições locais, regionais ou mesmo nacionais.

O silêncio ou o apoio tácito marcam a postura de reacionários que se dizem “defensores da tradição” diante, por exemplo, da destruição de bairros bucólicos e sua substituição por prédios e avenidas com todos os seus estresses, da perseguição racista às culturas negras – em especial às religiões de matriz africana –, do genocídio contra povos indígenas por capangas de latifundiários e militares ao longo da história brasileira e da urbanização e concentração agrária desenfreadas, as quais têm ameaçado de extinção as tradições rurais do país.

A direita brasileira declaradora de posições reacionárias tem se colocado, ao contrário do que teoricamente se esperaria, ao lado da modernidade caótica e predatória. É aquela mesma que esmaga ecossistemas e culturas tradicionais, planta cidades dotadas de condições de vida cada vez mais insuportáveis, multiplica a pobreza e a violência, enterra os antigos valores e costumes comunitários substituindo-os pelo individualismo irresponsável e sem moralidade, desprovê indivíduos de culturas nativas ou diásporas de sua identidade e literalmente queima e demole o passado.

Ou seja, acaba defendendo uma cultura industrialista e capitalista que considera as tradições algo supérfluo e descartável, contrário ao “progresso” e à moral individualista de viver para ganhar dinheiro e lutar para ficar rico. Por mais que se digam “defensores da tradição”, não passam de inimigos mordazes dela.

Considerando essa hipocrisia, questionemos aquele parente ou colega de direita que diz “defender a tradição”: que tradição ele defende mesmo? É aquela em seu sentido mais profundo, composta de valores, crenças e costumes ancestrais que originaram a identidade do povo ao qual ele pertence? Ou é simplesmente um conjunto de ódios, preconceitos, privilégios, posturas violentas, fanatismos, hierarquias cruéis e outros comportamentos e opiniões desprovidos de qualquer responsabilidade moral e social?

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