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O que motivou seu engajamento pelo impeachment de Dilma e contra a “corrupção do PT”? (Parte 2)

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Os motivos que você diz que te movem a protestar contra Dilma e o PT realmente condizem com os fatos e resistem a uma reflexão?

Leia o artigo completo: Parte 1 | Parte 2 | Parte 3

Esta é a continuação do artigo sobre os motivos que muitas pessoas, talvez incluindo você, mencionam para ser a favor da derrubada de Dilma Rousseff da presidência e defender ou aceitar a sua substituição por Michel Temer e seu programa de governo conservador.

4. Cobrança de responsabilidade orçamentária (pedaladas fiscais e créditos suplementares)?

O pretexto de indiciamento formal utilizado no processo de impeachment de Dilma foi a realização de pedaladas fiscais e créditos suplementares. No caso dela, seu governo deixou de repassar verbas para bancos públicos, por meio de créditos suplementares, com o intuito de impedir o corte parcial de programas como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida, e esse não repasse foi omitido no balanço anual das contas públicas de 2015. E isso foi interpretado, pelos juristas autores do pedido de impedimento, como uma manobra de irresponsabilidade fiscal e, assim sendo, um crime de responsabilidade que ensejaria a remoção de Dilma do poder.

Só que a medida foi adotada tanto por Dilma como pelo vice Michel Temer e por diversos governadores estaduais passados e atuais, além de haver a alegação de que todos os demais presidentes da república recentes também incidiram nesse tipo de manobra, mas ninguém além da presidenta foi investigado e teve seu mandato posto em xeque (Fernando Collor foi investigado por outros motivos). E a atitude de Janaína Paschoal, uma dos coautores do pedido de cassação contra Dilma, depois que o senador Randolfe Rodrigues a fez confessar que o argumento fundamentador da denúncia contra Dilma também poderia derrubar Temer, deixou muito claro o interesse político por trás do “zelo” seletivo pela gestão pública no processo de impeachment.

Em resumo, para a indignação contra chefes do Poder Executivo incidentes em atentados à responsabilidade fiscal ser válida, precisa ser contra todos aqueles que se sabe que cometeram esse tipo de manobra. Ou seja, se apenas as pedaladas fiscais de Dilma revoltaram você, enquanto as de Temer, Geraldo Alckmin, Antônio Anastasia e outros não lhe provocaram o mesmo impacto, então não foi necessariamente a demanda pela gestão responsável do orçamento governamental que moveu você a se indignar contra Dilma, mas sim outra coisa.

 

5. O inconformismo com a crise econômica?

É sabido que Dilma não foi muito competente na forma como conduziu a economia brasileira desde 2014. Mas é válido evidenciar que há a corresponsabilidade de governadores e também do Poder Legislativo federal na má gestão econômica.

Não vimos, por exemplo, a maioria dos deputados na Câmara Federal defender e exigir, como medida de obtenção de recursos adicionais, a taxação de grandes fortunas e da especulação financeira e a desoneração dos micro e pequenos empresários. Ou advogar pela auditoria da dívida pública (demanda que, no Congresso, foi trabalho praticamente exclusivo do PSOL), cujos resultados poderiam trazer um imenso alívio às contas públicas. Ou reivindicar a investigação e cassação de todos os deputados e senadores envolvidos com desvio e apropriação de verbas públicas.

Pelo contrário, o que se viu no Congresso, em especial de Eduardo Cunha e alguns de seus aliados, foi a tentativa de piorar ainda mais a situação das finanças públicas e, por tabela, da gestão econômica nacional por meio das pautas-bomba, que explodiriam os gastos orçamentários com despesas nada favoráveis à recuperação da economia.

Além disso, os governos e assembleias legislativas estaduais são corresponsáveis pela inabilidade do poder público de recuperar a economia sem traumatizar os brasileiros com arrochos. Em Pernambuco e no estado do Rio de Janeiro, por exemplo, a crise na economia e nas contas públicas assumem proporções ainda maiores do que a média nacional, por causa, entre outros motivos, de má administração e indícios de corrupção.

Com isso, se alguém está indignado com Dilma por causa da situação econômica do país, o lógico e racional é que esse descontentamento seja dirigido também aos governadores, senadores e deputados cúmplices da má gestão. Senão, o pretexto da economia é apenas uma fachada para uma revolta seletiva que tem outra origem.

 

6. Rejeição ao comunismo?

Muitos ainda acreditam que o governo de Dilma Rousseff é “comunista” ou “socialista”, mesmo com todas as suas privatizações, políticas de beneficiamento às elites econômicas e posturas de submissão incondicional e inquestionada ao capitalismo. Essa crença se dá pela manipulação promovida por extremistas de direita, que induzem muitos a acreditar que o PT é um partido “comunista” só porque fez políticas sociais e econômicas um pouco mais atentas às classes mais pobres do que as dos governos dos últimos 50 anos.

Pense nessas perguntas, antes de considerar o governo Dilma “comunista”: As empresas privadas foram perseguidas no Brasil? As privatizações dos últimos 25 anos foram revertidas? Alguma grande empresa foi estatizada? A economia de mercado foi banida do país?

Os bancos privados foram criminalizados e fechados, ou continuam lucrando bilhões ao ano? A propriedade dos meios de produção da indústria e da agricultura passou para o Estado ou para os trabalhadores, ou continua sendo dos empresários?

A direita teve seu poder destruído e passou a ser perseguida, ou está cada vez mais forte? O conservadorismo foi criminalizado, ou está sendo promovido livremente? Está havendo perseguição religiosa, ou as igrejas cristãs protestantes estão mais fortes do que nunca no país?

Descobrir as respostas a essas perguntas indicarão a você se o tal “comunismo” do PT é verdadeiro ou é apenas uma lenda política que formadores de opinião fanáticos estão querendo que você acredite.

 

7. Defesa de valores morais?

Talvez você tenha indignação contra Dilma por causa da suposta subversão de valores morais considerados tradicionais, como “a família”, o “direito à vida” de fetos e a “afronta aos bons costumes”. Nesse caso, preciso ressaltar duas questões.

Primeiro, Dilma, desde 2011, nunca empreendeu uma política firme contra os valores conservadores. Desde aquele ano, ela impediu diversos avanços dos Direitos Humanos que iriam contrariar o conservadorismo, como o uso do Kit Anti-Homofobia para o ensino para a diversidade nas escolas públicas, a hormonização de pessoas trans menores de idade e a regulamentação do aborto legal nos hospitais públicos. E em muitas outras questões foi omissa ou mesmo cúmplice, como o genocídio da juventude negra das periferias urbanas e de povos indígenas como os Guarani-Kaiowá, as demandas pela desmilitarização da Polícia Militar, a democratização e regulamentação da mídia e a criminalização do heterossexismo e da transfobia.

Ou seja, Dilma definitivamente não pode ser considerada uma opositora convicta do conservadorismo moral, já que não se opôs às demandas das bancadas teocrática, militarista e ruralista enquanto as manteve em sua base aliada.

E em segundo lugar, convido você a questionar o que é um valor moral e o que vem a ser uma imoralidade. Se você:
– considera “imorais”, por exemplo, o amor de milhões de pessoas (homossexuais), o direito e liberdade do ser humano de ser quem ele quiser, a liberdade de expressão de pessoas que pensam diferente de você e o respeito à democracia e à vida de seres humanos já nascidos (mulheres, jovens negros, homossexuais, pessoas trans, afrorreligiosos etc.);
– e tolera como “morais” o ódio e intolerância contra minorias políticas (racismo, misoginia, transfobia, gordofobia, pauperofobia, heterossexismo, xenofobia, intolerância religiosa etc.), o desprezo à democracia (aquela mesma que permite a você desfrutar de direitos básicos), a imposição da submissão a mulheres e negros, o apoio à tortura, a corrupção de políticos conservadores, a falta de compaixão pelos necessitados e a demanda por derramamento de sangue (inclusive inocente) nas favelas,
então sinto em dizer que seu conceito de moralidade precisa ser reavaliado com urgência.

 

Este artigo continua na próxima e última parte.

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