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maio16

Sem pés no chão: por que o ‘wishful thinking’ de parte do movimento antigolpe prejudica a luta pela democracia
Foto: Vegan Butterfly

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Muito do que ex-governistas e a esquerda antigolpe publicam parece fatos, mas são apenas desejos fortes deles

Tornou-se tradição, nas redes sociais e em alguns blogs e noticiários online ex-governistas ou de esquerda, serem divulgadas notícias ou opiniões de que a derrota do golpe protagonizado por Michel Temer contra Dilma Rousseff já está consumada ou é certa (a saber, esse não é o caso de um artigo meu sobre a provável queda precoce de Temer diante de protestos em massa, que trata o caso como uma possibilidade forte, não uma certeza). Essa atitude, conhecida como a falácia wishful thinking (pensamento desejante), está atrapalhando bastante a luta pelo resgate da democracia brasileira.

Algumas notícias, como essa e essa, deixam a entender que Temer “vai cair de qualquer jeito” e Dilma voltará como uma espécie de Dona Sebastiana do Brasil do século 21. Apesar de muitos terem o cuidado de não confundir o ex-governismo petista com a esquerda propriamente dita – uma vez que Dilma empreendeu diversas políticas de direita em seus cinco anos de governo -, boa parte da esquerda acaba compartilhando notícias de portais e blogs pró-petistas, sobre o golpe, sem atenção à necessidade da prudência.

Quando alguém lê certos portais e blogs, terá a impressão de que, por exemplo, o governo Temer já está desmoronando, já há milhões de brasileiros nas ruas pressionando Michel Temer, rumo à renúncia, e ele está quase escrevendo a carta de resignação. Mas não tem sido essa a realidade até o momento: poucas manifestações têm ocorrido, nenhuma com os números das marchas antigolpe de antes de 17 de abril. Os movimentos sociais aliados do PT (CUT, MST, UNE etc.) têm hesitado temerosamente em cumprir as promessas de promover greves e insurreições nas cidades e no campo. A tranquilidade das ruas deixa a parecer que não há nada de mais acontecendo.

Está sendo difícil começar a mobilizar multidões antes que elas sofram as maiores dores da perda de direitos e do empobrecimento causados pelas políticas de Michel Temer e equipe. A maior dificuldade é a inércia dos aliados do PT, que não estão chamando a população às ruas. Com isso, poucos estão arquitetando e compondo manifestações nas ruas, os chamados para eventos do tipo têm pouco alcance, e os protestos têm acontecido de maneira praticamente isolada e com número reduzido de pessoas.

Além disso, a mídia oligopolista tem conseguido esconder da maioria da população os acontecimentos mais espinhosos para o governo ilegítimo de Temer. E tem se esforçado em protegê-lo e forjar que o povo “compreenda” as “dificuldades” do grupo que usurpou o Poder Executivo federal.

Considerando a atual fraqueza dos movimentos de rua – pelo menos nesta calmaria que paira antes do tsunami do arrocho de direitos – e a blindagem promovida pela imprensa mainstream, é imprudente predizer qualquer acontecimento como “certo”. Não dá para antecipar o que virá a acontecer mesmo amanhã, considerando que a conjuntura tem sido de difícil análise e total imprevisibilidade mesmo para os mais versados e experientes cientistas políticos.

Ou seja, tudo o que tem sido dito nos portais ex-governistas, em se tratando de tentativas de antecipar o amanhã, é wishful thinking. É tentar carimbar como fato consumado algo que nada mais é do que um forte desejo. É argumentação falaciosa e imprudente.

E isso atrapalha seriamente os esforços das pessoas em tentar entender o que está acontecendo. Deixa a impressão de que as coisas estão muito melhor encaminhadas do que realmente estão, a desistência de Temer é questão de semanas, e haverá uma verdadeira revolução se ele renunciar e devolver a presidência a Dilma. Subestima o poder da imprensa conservadora e das negociatas por trás dos panos. Distorce a visão da profundidade das raízes históricas da problemática da desonestidade política no Brasil. Forja um futuro brilhante quando nada há além de incerteza e medo.

E sobretudo, superestima as esperanças de redenção num sistema político já falido. Copia o pensamento viciado dos antipetistas de crer que o que separa um Brasil ruim de um Brasil bom é apenas o indivíduo que está na cadeira presidencial.

Diante da distorção da realidade que atitudes de wishful thinking do tipo “Temer vai cair de qualquer jeito”, fica o desejo de que a mídia e blogosfera ex-governista ou de esquerda faça uma autocrítica, sobre como tem abordado a cadeia de acontecimentos pós-golpe. E a partir disso, assuma uma postura ou mais realista, ou mais engajadora, que chame a população a ir às ruas forçar Michel Temer a renunciar ou pelo menos marcar novas eleições gerais diretas.

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