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maio16

Um mundo com a humanidade extinta não seria um lugar “melhor”

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A Terra não seria “melhor” ou “pior”. Simplesmente “seria”. E não deixaria de ser vulnerável a catástrofes causadoras de degradação e extinções em massa

Muitas pessoas, do alto de sua misantropia e descrença na Educação Ambiental e na democracia, dizem enfaticamente que o planeta se tornaria um lugar “melhor” se a humanidade fosse extinta. Mas será mesmo que um mundo sem humanos, ao melhor estilo do documentário “O Mundo Sem Ninguém”, seria de fato um lugar “melhor”, seja lá o que “melhor” signifique?

 

A ausência de alguém que pudesse estabelecer critérios qualitativos de um “mundo melhor sem humanos”

Em primeiro lugar, num mundo sem humanos, não haveria ninguém que pudesse trabalhar com os conceitos de “mundo melhor” e “mundo pior”. Sem mentes intelectualmente pensantes, não existiria a ideia subjetiva do que vem a ser um mundo “bom” ou “ruim”.

Ou seja, não existiriam indivíduos e culturas que pudessem estabelecer os critérios qualitativos do que é um mundo “melhor” ou “pior”. O mundo simplesmente “seria”, existiria – a não ser que, milhões de anos depois, surgisse uma nova espécie de animais tão ou mais inteligentes do que os humanos de hoje.

 

O mito do mundo “quantitativamente melhor sem humanos”

O jeito, para quem diz que “o mundo seria melhor sem os humanos”, é estipular, enquanto a humanidade existe, critérios objetivos, relativamente independentes das subjetividades humanas, de um mundo que seria “superior” ao atual. Entre esses parâmetros, pode-se pensar em dados quantitativos, como o número de espécies extintas por século, quantos hectares de ecossistemas de grande biodiversidade são anualmente convertidos em ambientes de pouca vida mediante degradação, ou o crescimento líquido (espécies surgidas menos espécies extintas) do número de espécies multicelulares por ano.

Só que, nesse caso, essas “melhorias” quantitativas poderiam ser, a qualquer momento, canceladas local, regional ou globalmente por catástrofes naturais, como tsunamis, quedas de grandes meteoros, lampejos de raios gama vindos das profundezas do espaço, erupções de supervulcões (como a Caldeira de Yellowstone, nos Estados Unidos) e mesmo colonização global por civilizações extraterrestres de culturas tão ecocidas quanto as sociedades humanas industriais e capitalistas de hoje.

Nada, nada mesmo, garantiria uma prosperidade eterna da vida não humana na Terra. E aliás, os astrônomos alertam que a própria vida terráquea está com as centenas de milhões de anos contadas, caso não haja intervenção artificial.

Isso porque a radiação eletromagnética emitida pelo Sol aumenta gradativamente ao longo dos bilhões de anos. E por causa desse crescimento da radiação solar, daqui a 600 milhões de anos o gás carbônico na atmosfera terrestre diminuirá para níveis tão ínfimos que a grande maioria das espécies vegetais de hoje não terá mais condições de existir. Por tabela, os animais também perecerão, já que a vida vegetal é a base de toda e qualquer cadeia alimentar de seres multicelulares no planeta.

E dentro de um ou dois bilhões de anos, o Sol terá se tornado muito mais quente e luminoso do que hoje. E assim aumentará severamente a temperatura média da atmosfera da Terra, ao ponto em que os oceanos evaporarão por completo e a vida será totalmente inviabilizada no planeta. A saber, o atual aquecimento global não tem a ver com esse lento crescimento da radiação estelar do Sol, uma vez que é um processo que só é percebido ao longo de centenas de milhões de anos.

 

E se os animais não humanos passassem a ser os “beneficiários” do mundo sem humanidade?

Alternativamente, passaríamos a vislumbrar os animais não humanos como possíveis “beneficiários” dessa hipotética Terra sem humanos. Eles viveriam uma vida de menos sofrimento na Natureza intocada? Teriam uma vida com momentos mais frequentes, duradouros e intensos de prazer do que seus ancestrais da época em que a humanidade existia? Seriam mais longevos? Os sistemas ecológicos teriam menos ocorrências de relações desarmônicas entre espécies, como a predação, o parasitismo e a competição?

A resposta a todas essas perguntas é não. Nenhum animal não humano de gerações posteriores à extinção da humanidade viveria uma vida mais feliz, prazerosa e menos propensa à violência selvagem do que os animais de hoje. A Natureza é um sistema amoral e aético, não é uma entidade preocupada com o “bem” dos seres vivos sencientes. Ela é indiferente a toda e qualquer violência e sofrimento individual na biosfera.

Se existem seres ético-moralmente preocupados com o sofrimento alheio e a construção de um mundo menos doloroso, esses seres são os próprios humanos, cuja extinção os misantropos desejam e defendem. E inclusive é da autoria de seres humanos a proposta de expandir a ética dos Direitos Animais aos ambientes selvagens não diretamente afetados pelo especismo humano. Alguns autores de Ética Animal estão construindo uma proposta polêmica de “reprogramar” as espécies de animais e vegetais de modo a diminuir ou mesmo abolir o sofrimento dos animais não humanos nesses locais.

Ou seja, se o sofrimento dos seres sencientes na Natureza realmente diminuir no futuro, isso será graças a iniciativas criadas por humanos. Isso jamais acontecerá num planeta desantropizado. Se a Deusa Gaia, acreditada por algumas religiões e indiretamente pela teoria de James Lovelock, tem ou terá alguma consciência protetora, é por meio dos próprios seres humanos, que, por mais que os misantropos e os antropocêntricos neguem, são parte integrante e inseparável dela.

 

Atestar a inviabilidade de um “mundo melhor sem humanos” não implica absolver a nossa espécie pela criminalidade ambiental

Não é porque este artigo mostra a insustentabilidade da ideia do “mundo melhor sem humanos” que ele está negando que os seres humanos tenham historicamente um comportamento antiecológico e insustentável. A nossa história, sobretudo nos últimos 500 anos, é marcada pela criminalidade ambiental, pelos ecocídios em todo o planeta, pelo tratamento da Natureza como “escrava” da humanidade pelos credos religiosos e humanistas ultra-antropocêntricos e especistas.

Mas a solução desse histórico de destruição ambiental, cuja culpa é de grande parte dos humanos – principalmente dos detentores de poder econômico e político –, não é, de jeito nenhum, a hipotética eliminação (por abolição da natalidade ou genocídio global) da nossa espécie. Pelo contrário, passa pela redefinição das crenças sobre a “função” ou “papel” dos seres humanos na Terra.

Precisamos repensar a postura de nossas sociedades, e de nós enquanto indivíduos pensantes, perante a questão ambiental e a crise civilizatória global. Devemos também fortalecer, disseminar e consolidar a cultura da Educação Ambiental maiúscula, desde o seio familiar, passando pelas escolas e outros meios de ensino, até a (democratização d)os meios de comunicação de massa.

Necessitamos também redefinir a importância da humanidade no mundo. Saiamos da postura de viver apenas em prol do benefício e prazer de nós mesmos e nos tornemos guardiões do mundo – tal como muitas religiões nos instruem não a escravizar, mas sim proteger a Natureza não humana. Além de reverter a parcela mais destrutiva e predatória dos impactos ambientais de nossa existência, exerçamos funções como impedir eventuais cataclismos cósmicos (chuva de raios gama, queda de asteroides, aumento insuportável da radiação solar etc.) e, se viável, diminuir o sofrimento dos animais não humanos na Natureza silvestre – tal como as correntes mais avançadas de Direitos Animais têm defendido.

A Natureza não será melhor, nem pior, sem nós. Simplesmente “será”. E continuará vulnerável a catástrofes e extinções em massa. Quem pode fazer deste mundo um lugar objetivamente melhor, com menos extinções, menos sofrimento e mais prazer e alegria, somos nós. Nesse contexto, o que devemos não é sumir da Terra, mas sim assumir um papel protetivo e tornar nossa existência ecológica, social e economicamente sustentável.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Bárbara de Almeida

outubro 28 2016 Responder

Ótimo texto, Rob. :)

    Robson Fernando de Souza

    outubro 28 2016 Responder

    Valeu, Barbarinha =)

Newton

maio 15 2016 Responder

“Um mundo com a humanidade extinta não seria um lugar “melhor”

Por motivos óbvios, não temos como saber com certeza. Podemos apenas teorizar.

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