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jun16

Antes de perguntar “cadê os panelaços” para os antipetistas de direita, pensemos: cadê as manifestações equivalentes da esquerda?
Protestos como os de 18 de março e 10 de junho parecem ter ficado só nas lembranças

Protestos como os de 18 de março e 10 de junho parecem ter ficado só nas lembranças

Ao invés de ir à rua, a esquerda parece se escorar numa vã esperança de que os “cidadãos de bem” hipnotizados pela mídia comecem sozinhos a se opor a Michel Temer

Desde o 12 de maio, dia em que Michel Temer assumiu ilegitimamente a presidência, as manifestações da maioria dos antipetistas “verde-amarelos” pararam, tanto nas ruas como nas redes sociais. Daí a esquerda tem perguntado muito, em tom retórico: “Cadê os panelaços dos coxinhas?”, já que as denúncias de envolvimento de membros da equipe de Temer com corrupção têm se multiplicado, sem que haja uma resposta dos “cidadãos de bem” outrora revoltados com o governo federal. Só que nenhum dos dois lados têm “batido panelas”. Então vale questionar: por que, enquanto pergunta dos panelaços dos midiatizados, a esquerda tem feito tão poucas manifestações equivalentes?

Ao mesmo tempo em que os protestos verde-amarelos sumiram das ruas e a maioria dos antipetistas de direita parece ter esquecido os problemas da política, a esquerda não ocupou a lacuna deixada pelos conservadores. Com exceção das manifestações nacionais do último dia 10 e de ações locais mais isoladas em outros dias, o lado contrário ao golpe contra Dilma Rousseff tem fraquejado.

Desde a derrota da presidenta na famigerada votação do impeachment na Câmara dos Deputados em 17 de abril, a esquerda e os petistas praticamente sumiram das ruas. Só foram voltar em peso – ainda que em número bem menor do que as marchas verde-amarelas de 13 de março – em 10 de junho, e sem terem marcado um dia para os próximos protestos nacionais.

A maioria das reações que têm sido vistas vindas dos opositores do golpe é de postagens em redes sociais, seja de notícias compartilhadas ou manifestações verbais de indignação pessoal. Nelas não tem havido nenhuma conclamação de que a população indignada com os absurdos do governo de Michel Temer vá às ruas.

Não se tem visto muito desejo e demanda de ocupar as avenidas do Brasil e buscar a construção de um novo, e realmente democrático, sistema político, livre dos vícios e limitações do atual. Nem um esforço difundido de edificar popularmente uma alternativa de projeto de poder a ser votado pelo meio tradicional das urnas.

Pelo contrário, o Facebook, o Twitter e outras redes sociais têm visto a parcela anti-Temer da população continuar depositando sua fé nas degeneradas instituições tradicionais de poder. Parece crer que o Judiciário, a Operação Lava Jato, a Polícia Federal, a votação da cassação de Eduardo Cunha e (talvez) Jair Bolsonaro na Câmara e, finalmente, a absolvição de Dilma no Senado irão “mudar o Brasil” e “trazer de volta a estabilidade política”.

E pior, quando o pessoal de esquerda ou ex-governista pergunta “cadê os panelaços dos coxinhas”, parece estar colocando as esperanças de redenção política e social do país nos próprios antipetistas conservadores. Fica parecendo que torcem por uma milagrosa revelação sobrenatural, na qual milhões de “cidadãos de bem” irão começar a perceber a nocividade do governo Temer e bater panelas a favor de Dilma ou de novas eleições nas varandas e nas ruas.

Os anti-Temer não estão percebendo que, quando cobram panelaços dos adversários e não vão eles mesmos para as ruas, estão assumindo uma inaceitável pequenez e impotência política. Revelam, nessa atitude, que estão desistindo de lutar pela democracia e por mudanças na ordem política e, do alto dessa resignação, depositam suas últimas esperanças naqueles que, contra eles, têm se engajado a favor da conservação de tudo o que aí está.

Ou, no máximo, estão aguardando, com as notícias que pesam contra a equipe de governo de Temer, que o governo ilegítimo caia de podre por si só. Esquecem-se do poder que a mídia conservadora e as negociatas políticas nunca deixaram de ter, e da possibilidade de ambas salvarem o mandato de Temer e, aprovando o impeachment de Dilma no Senado, o tornarem definitivo, além de encerrarem a Operação Lava Jato e salvarem os conservadores envolvidos com corrupção.

Nesse contexto, as antigas promessas de greves gerais, protestos massivos, insurreição de movimentos sociais, “ondas vermelhas” nas ruas etc. foram esquecidas. Ao invés, a esquerda trava brigas internas fratricidas, se restringe a “protestar” com emojis de vômitos e compartilhamento de notícias – muitas delas de fontes duvidosas – e parece esperar que os “verde-amarelos”, os mesmos que foram induzidos pela mídia a odiá-la ferrenhamente, vão às ruas por ela.

Se a esquerda quer que o Brasil volte a ser propriamente uma democracia e ter um governo razoavelmente popular, ela precisa ver a que ponto decaiu, mesmo diante da urgência da organização e realização de protestos massivos contra o golpe. Necessita perceber a imaturidade da atitude de depositar esperanças numa improvável redenção dos “paneleiros”, no Senado e na eleição de Lula. Se quer promover a democratização do Brasil, por que não está fazendo isso?

imagrs

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Alex

junho 23 2016 Responder

A grande maioria da população é apolítica e muitos são conservadores, por isso o que vc chama de esquerda é a minoria da população.

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