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“Bundaço” e “monarquismo” lulista: com uma esquerda dessa, quem precisa de direita?

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Em Brasília, alguns manifestantes preferiram baixar as calças a bradar por greve geral. Em São Paulo, Lula falou mal de “coxinhas”, pediu “por favor” para Temer e “prometeu” a volta do lulismo

Dois eventos polêmicos marcaram os protestos nacionais contra o golpe de Michel Temer ontem: o “bundaço” em Brasília e o problemático discurso do ex-presidente Lula em São Paulo. Tive uma péssima impressão de ambos os acontecimentos, que me fizeram temer por grande parte da esquerda brasileira atual. E penso: com pessoas preferindo fazer bundalelê a promover greve geral, esquecendo a necessidade de uma reforma política estrutural e apoiando Lula para ser um rei quase absoluto, e não um presidente de poderes constitucionalmente limitados, quem precisa de direita com uma esquerda dessa?

 

O “bundaço”

Durante a manifestação de Brasília, um grupo de algumas dezenas de pessoas baixou as calças e mostrou suas bundas para o Palácio do Planalto. Acusada de “pós-moderna” por muitas pessoas da esquerda, a postura do grupo foi motivo de muita polêmica.

Eu pessoalmente vejo o bundalelê em questão como um sinal de que parte da esquerda está perdendo o compasso. Esse tipo de atitude preza não por ter efeitos concretos na ordem política, mas sim por ser meramente simbólica e expressar emoções pessoais de insatisfação.

Não vi tanta diferença assim entre isso e o protesto de antipetistas de direita num shopping daqui do Recife, em março passado. Nem em comparação com o xingamento contra Dilma na abertura da Copa de 2014. Nem com a dança do impeachment em Fortaleza.

Nesse contexto, direita e esquerda focaram mais em chocar pessoas e extravasar criatividade individual do que mudar a realidade. Não que o “bundaço” fosse uma “atitude absurda contra a moral e os bons costumes”, como alguns conservadores talvez estejam achando. Minha queixa é outra.

Ontem ficou parecendo que a postura mais transformadora e aguerrida da esquerda brasileira, a de chamar o povo para protestos ainda maiores e greves gerais, foi deixada de lado, em promoção de manifestações mais simbólicas e individualistas. Além disso, mesmo hoje, 24 horas depois do protesto nacional, não se tem falado de radicalizar a luta e tornar insustentável a continuidade de Michel Temer na presidência.

É essa carência de firmeza, aliás, que foi um dos diversos problemas do discurso de Lula ontem em São Paulo, como falo a seguir.

 

O discurso de Lula

Assisti hoje à íntegra da fala do ex-presidente, feita do alto de um carro de som na Avenida Paulista. Minha impressão não foi boa. Percebo que Lula não tem, ou não parece ter, o mínimo de desejo de promover transformações permanentes no Brasil, que façam a democracia do país evoluir, amadurecer e derrubar velhos gargalos que fazem que a elite política e econômica se mantenha com poderes e privilégios amplos em detrimento do povo.

Pelo contrário, o discurso dele girou em torno de uma oposição fraca da parte dele ao golpe do PMDB e sua disposição de se candidatar a presidente mais uma vez em 2018. Digo que a oposição foi fraca porque, contraditoriamente, em um momento ele acusa José Serra, atual ministro de Relações Exteriores, e seu partido (PSDB) de falarem grosso com a Bolívia e fino com os Estados Unidos, mas em outro ele próprio fala fino para Temer, a ponto de pedir um tanto delicadamente que “por favor, permita” Dilma voltar e o povo participar de novas eleições gerais.

Em nenhum momento Lula exorta a população brasileira como um todo para perceber que a realidade não melhorou com Temer no poder e se rebelar contra a autoridade presidencial dele. Nem fala nada sobre promover reformas profundas, tampouco uma revolução democrática e concreta, no sistema político.

Outro detalhe de que não gostei foi ele ter mencionado os “coxinhas” de maneira pejorativa, mesmo se colocando como mobilizador do povo. Essa postura é esperada de um militante político no Facebook, não de um líder nacional de multidões.

Naquele momento, ele teve a oportunidade de mostrar para os que desejavam o impeachment de Dilma que a opção política deles se comprovou um fiasco. Que movimentos como o “Brasil Livre” e o “Vem pra Rua” e entidades como a Fiesp e seu pato não lutam “contra a corrupção” coisa nenhuma. Que Temer tem feito um governo fraco e não tem tido o pulso firme que muitos achavam que, para o bem ou para o mal, ele teria. E, sobretudo, que a corrupção não está sendo combatida, como os manifestantes de 13 de março desejavam, com o PMDB na presidência.

Mas ele preferiu falar mal dos que haviam sido convencidos pela direita midiática e parlamentar de que a queda de Dilma era “o que faltava” para o Brasil “mudar”. Isso é péssimo para alguém que quer voltar a governar o país e a quem está incumbido o dever de resgatar as esperanças do povo. Acirra o ódio vindo de quem comprou o discurso antipetista da direita e podia ser convencido do contrário. E ameaça engrossar as trevas da baixaria política que 2018 promete trazer, com Alckmin ou Aécio se candidatando novamente pelo PSDB, Jair Bolsonaro representando a extrema-direita e a imprensa fazendo uma operação de guerra total para tentar desacreditar Lula ou mesmo lhe cassar a candidatura.

Ao longo da declaração dele, ficou evidente também que grande parte dos manifestantes, senão a maioria, em São Paulo quer Lula não para presidente, que governe junto com uma equipe e com o apoio dos poderes legislativo e judiciário, mas sim para rei quase absoluto.

Penso que poucos ali pensaram que Lula não pode governar sozinho, movido por vontades pessoais altruístas e sem ministros(as) e secretários(as). Digo isso porque não tenho visto quase nada, nas páginas antigolpe e pró-Lula, que lembre uma atenção responsável à necessidade de ele montar seu ministeriado em 2019, caso volte a ser presidente, e quem estará disponível como nomes bons e confiáveis para ele designar como subordinados.

Nessa situação, nada garante que não teremos novamente nomes fracos e desconfiáveis como Antônio Palocci, José Dirceu, Aloísio Mercadante, José Genoíno, Izabella Teixeira, algum economista associado a bancos privados, algum nome forte do agronegócio etc. Nem que a sonhada renovação ministerial e político-ideológica do PT e de partidos aliados acontecerá no provável terceiro Governo Lula.

Outro problema sério foi que ele deixou como perspectiva de promessa para 2018 a volta do velho lulismo da década de 2000. Aquele mesmo, que empreendia políticas sociais carentes de grande profundidade, desmobilizou parte dos movimentos sociais e desligou quase por completo o ambientalismo brasileiro, promovia inclusão social através do consumo ao invés da consolidação dos direitos e serviços públicos, negligenciou a necessidade do combate sistemático e estrutural à corrupção nos meios público e privado, esqueceu-se de tornar a educação pública mais forte e emancipadora, não incomodou a mídia conservadora, não empreendeu as reformas necessárias e fez o capitalismo brasileiro se tornar mais forte e prometedor de ilusões do que nunca.

Era o mesmo lulismo que acabou sendo progressivamente desmontado por Dilma Rousseff a partir do último trimestre de 2014, com suas políticas de ajuste fiscal e corte de investimentos em educação, saúde e mobilidade, por conta da crise internacional, da gestão fraca das contas públicas federais e dos desincentivos econômicos via aumentos de preços.

No mais, Lula não trouxe perspectiva de mudanças profundas, de reformas sistemáticas, de um esforço popular em grande escala para furar e murchar o crescente balão da direita, de mudanças internas fortes no PT para fazer o partido voltar à esquerda onde estava nos anos 80. Ficou parecendo que, se ele ganhar, vai ficar tudo no mais do mesmo, com parte da esquerda aceitando a conservação de tudo como está, sem mudanças estruturais, e a direita e a extrema-direita mantendo seu perigoso ritmo de crescimento.

Que me perdoem os opositores do golpe que consideram a crítica ao lulismo algo estrategicamente prejudicial à luta contra o governo ilegítimo de Temer. Mas está além das minhas capacidades ver e aceitar grande parte da esquerda e o PT insistirem nos mesmos velhos erros que culminaram com a retomada do poder presidencial pela direita e o crescimento do reacionarismo. Por isso me senti na obrigação moral e cidadã de expressar meu descontentamento com o “bundaço” e o discurso semiconservador, em termos de sistema político e estrutura social, de Lula. E espero de coração que a esquerda e os petistas revejam essa postura e amadureçam. Senão, a direita vai continuar fazendo a festa, e Michel Temer terá caminho livre para se manter no poder até 2018 – ou mesmo além.

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Newton

junho 12 2016 Responder

Na verdade, Lula nunca se preocupou com o país, e se houve algo positivo, esse algo foi simplesmente um degrau para seus planos de poder absoluto.
Para haver progresso, defendo fortemente a interferência mínima do Estado na economia. Não precisamos de alguém que nos diga o que e como fazer.

http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2201

http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1432

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