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jun16

Manifestar indignação seletiva é ser parte do problema, não da solução, da política brasileira

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Silenciar-se perante a corrupção de partidos não petistas é permitir que a ordem política seja regida pelo interesse privado e pela desonestidade

Uma observação panorâmica do cenário político brasileiro nos faz perceber algo interessante: a indignação seletiva é um dos maiores problemas de desvio de ética na política nacional. Ou seja, ser “revoltado contra a corrupção e o desgoverno” apenas de um ou dois partidos, enquanto ignora ou dá atenção residual para todos os demais, é fazer parte do problema, não da solução, e contribuir para o país permanecer no seu tradicional lamaçal político.

A presidenta Dilma Rousseff foi afastada pelo processo de impeachment por causa, em parte, da atuação de movimentos de direita “anticorrupção” nas ruas e em conchavos com políticos e empresários antipetistas. E o silêncio consentidor desses coletivos conservadores perante os crimes e abusos de aliados seus, membros do PMDB, PSDB, DEM, SDD, PSB e outros partidos opositores à direita do PT, tem sido decisivo para que a política brasileira não esteja sendo realmente passada a limpo.

Essa atitude de apoio falsamente apartidário à derrubada de Dilma e conivência perante a corrupção da direita assumida também tem sido vista entre milhões de “cidadãos de bem”. Eles, que, até maio, viviam dizendo que tirar o PT do poder iria “acabar com a bagunça” e “colocar o Brasil nos eixos”, hoje parecem não se importar mais tanto com a necessidade de surgir no país uma tradição de transparência e honestidade na política e justiça contra corruptos.

Nesse contexto, a acusação de que “os petistas não se preocupam com a corrupção no seu partido” se volta contra os próprios acusadores. Afinal, eles dedicam um constrangedor silêncio às diversas falcatruas não petistas que vêm sendo descobertas nacionalmente, por meio da Operação Lava Jato, e localmente, nos estados e municípios.

Essa postura faz com que a maioria dos corruptos sejam deixados impunes. Banaliza e desmoraliza a causa “anticorrupção”, tornando-a um instrumento de enganar a sociedade e mascarar interesses políticos escusos. Conserva a ordem política vigente, de instituições viciadas e império da desonestidade e do usufruto privado daquilo que é público. Ou seja, faz a corrupção permanecer sendo um “crime que compensa”.

É possível dizer, então, que os autointitulados “militantes contra a corrupção” adeptos dessa postura de indignação seletiva – e interesseira – estão sendo parte integrante, e não combatedores, do atual cenário brasileiro de sujeiras políticas. São tão desonestos e nocivos para o Brasil quanto os adeptos ativos da corrupção que dizem “lutar contra”.

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