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jun16

Por que o socialismo democrático de esquerda defende melhor muitas causas “de direita” do que os reacionários da própria direita

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Saiba de dez exemplos de causas em que a corrente da esquerda defende bem e o reacionarismo é um desastre

Em se tratando de esquerda e direita, há uma curiosidade que pode enfurecer muita gente: muitas das bandeiras que a direita diz defender são defendidas muito melhor por certas correntes da esquerda. Digo isso tendo como premissa as contradições, costumeiramente escancaradas aqui no Consciencia.blog.br, entre as posições declaradas por conservadores e neoliberais sobre diversos temas e as consequências negativas de suas reivindicações.

A direita brasileira, em especial os reacionários, costuma assumir uma postura demagógica, declarando que vai “salvar” o Brasil da corrupção, da violência urbana, da fraqueza da economia, da má administração do Estado, da pobreza, entre outros males, e “preservar” a vida, a família, as tradições, a moral, a propriedade privada, a liberdade, a democracia, as instituições etc. Mas não só falha em abordar tais problemas, como também os piora.

E por incrível que pareça, todos esses temas, mesmo os mais caros ao conservadorismo e ao neoliberalismo, também são pensados pela esquerda. E ela, por meio de vertentes como o socialismo democrático, faz uma abordagem bem mais realista, eficaz e sobretudo respeitadora da democracia.

Dou a seguir dez exemplos de como o socialismo democrático brasileiro, que acredito que seja o exemplo mais realista e atuante de esquerda no país, defende pontos muito falados e “reivindicados” pela direita, e como o reacionarismo os prejudica:

Família: O socialismo democrático brasileiro reivindica o reconhecimento, o respeito e a assistência social a todos os tipos de família existentes. O reacionarismo, por sua vez, defende que quase todos os tipos familiares, menos o nuclear de pai e mãe heterossexuais monogâmicos, sejam negados, privados de direitos, desrespeitados e destruídos. Aliás, as crenças reacionárias aliadas com o fundamentalismo “cristão” fazem com que mesmo as “famílias tradicionais” sejam desmembradas pela intolerância de pais “cristãos” ferrenhos contra filhas(os) homossexuais, afrorreligiosos, ateus, trans, feministas, de esquerda etc.

Vida e aborto: O socialismo democrático entende que a mulher tem o direito de escolher pela interrupção da gravidez se assim desejar, e que é absurdo embriões e fetos não sencientes terem mais direito ao respeito do que as mulheres. E defende a preservação da vida de todos os seres humanos. Enquanto isso, o reacionarismo, ao manter o aborto criminalizado, faz com que mulheres e jovens “salvos” do aborto morram com sofrimento insuportável. Nem liga se pessoas de minorias políticas são assassinadas em crimes de ódio. E além disso, defende pena de morte para criminosos negros e pobres – já que costuma relativizar crimes cometidos por brancos ricos.

Democracia X autoritarismo: O socialismo democrático reconhece os erros dos regimes socialistas autoritários do século 20, defende a radicalização da democracia e luta para que ditaduras de direita ou de esquerda nunca mais renasçam. Já o reacionarismo é conivente ou mesmo favorável a ditaduras de direita, não quer a abertura dos arquivos do regime militar brasileiro de 1964-85, exalta instituições autoritárias – como a Polícia Militar e as forças armadas – e “defende a democracia” defendendo o fim da liberdade de expressão de quem discorda do conservadorismo e a perseguição política contra pessoas de esquerda.

Prosperidade econômica: O socialismo democrático defende a intervenção responsável do Estado, por meio da regulação da economia, de políticas de inclusão e equidade social e redistribuição de renda, de modo a impulsionar a economia e ajudar micro e pequenos empresários e cooperativas a prosperarem. O reacionarismo, por sua vez, apoia a extinção da regulação estatal da economia e o fim da ajuda estatal para que pequenos empresários cresçam, abrindo as portas para os mais diversos abusos por parte de grandes corporações, o empobrecimento da grande maioria da população e, por tabela, a insustentabilidade e rápida reversão do crescimento econômico.

Direitos Humanos e segurança: O socialismo democrático advoga pela defesa dos Direitos Humanos de todos, sem exceção, o que inclui a reforma penitenciária, para fazer com que as cadeias regenerem os presos; a desmilitarização e descorrupção da PM, o que favorecerá as condições de trabalho dos próprios policiais; a proteção das minorias políticas e o combate ao preconceito; a redução progressiva das desigualdades sociais; a educação para o respeito à diversidade; o respeito ao Estado Laico e o enfrentamento do fundamentalismo religioso; o combate às desigualdades sociais; a política favorável à igualdade de condições e oportunidades; entre outras reivindicações. Já o reacionarismo defende a revogação de políticas contra o preconceito, a conservação da condição de podridão nas penitenciárias, a naturalização e liberação dos discursos de ódio, a radicalização da violência policial, a desistência da busca da paz social pelo Estado, entre outras medidas que só fazem com que nenhum cidadão esteja de fato protegido e com seus direitos básicos assegurados.

Propriedade privada: O socialismo democrático não tem nada contra a propriedade privada de objetos pessoais, desde que ela não implique consumismo, gasto desnecessários de recursos naturais e concentração prejudicial de renda e riqueza. Defende que todas as pessoas tenham, de fato, acesso a condições de adquirir (com responsabilidade) mais bens, por meio da diminuição das desigualdades sociais. Sua bandeira “contra” a propriedade privada é relacionada aos meios de produção, que seriam transferidos do empresário para os trabalhadores, os quais, por sua vez, dirigiriam a empresa por autogestão. Já o reacionarismo defende que apenas uma pequena minoria da população tenha de fato sua propriedade privada, seja de bens pessoais, seja dos meios de produção, assegurada e respeitada, por meio da repressão política a movimentos de esquerda e do desprezo ao direito dos mais pobres à segurança.

Tradições: O socialismo democrático nutre um profundo respeito pelas tradições culturais indígenas, negras, interioranas e dos bairros pacatos remanescentes das cidades, e defende a preservação do lado bom e ético das tradições (não “a tradição”) brasileiras, assim como luta contra o avanço predatório da urbanização. Já o reacionarismo diz defender “a tradição nacional”, mas só respeita a tradição da elite branca; prioriza o lado dos preconceitos, hierarquias e violências nessa tradição e despreza ferrenhamente as tradições de minorias políticas e imigrantes de países da periferia global.

Ordem social: O socialismo democrático acredita que a ordem social estável só será possível quando a exploração dos trabalhadores pelos empresários acabar; houver igualdade, ou o mínimo possível de desigualdade, de renda e riquezas; os Direitos Humanos de todos os seres humanos, sem exceção, forem devidamente assegurados e respeitados e as hierarquias sociais e morais forem todas abolidas – ou seja, quando os motivos de acontecerem os conflitos deixarem de existir. E argumenta que os causadores da desordem social não são “pobres vagabundos”, mas sim as injustiças sociais. Já o reacionarismo diz “defender a ordem social harmônica”, mas consente, naturaliza e até fomenta um estado permanente de desordem e conflito social, por negar às classes mais pobres direitos básicos e defender a continuidade das opressões sociopolíticas.

Combate à corrupção: O socialismo democrático defende que todos os corruptos, independentemente de partido e filiação ideológica, sejam investigados e punidos; os corruptores também sejam penalizados pela lei e as causas fundamentais da corrupção pública e privada sejam sanadas. Já o reacionarismo tem defendido simplesmente que um único partido, o PT, seja removido do poder e criminalizado, enquanto os corruptos de todos os demais partidos e os corruptores sejam protegidos e mantidos impunes, a corrupção empresarial seja mantida intocada e não haja nenhuma reforma sequer para passar as instituições públicas e privadas a limpo e criar a cultura da transparência.

Liberdade de expressão: O socialismo democrático defende que essa liberdade não é absoluta, os discursadores sem caráter arquem com as consequências de suas falas e discursos de ódio sejam punidos pela lei. E entende que isso não compromete a liberdade de que pessoas de direita expressem suas ideias e crenças, desde que elas não violem direitos fundamentais nem promovam o preconceito e a intolerância. O reacionarismo, por sua vez, tem defendido a liberação dos discursos de ódio e intolerantes – apesar do medo de defender, por exemplo, a descriminalização do racismo explícito –, o silenciamento da fala de minorias políticas e a criminalização das opiniões de pessoas de esquerda, principalmente de defensores do comunismo, apesar de se exibir como “defensora” da liberdade absoluta de expressão.

Diante dessas comparações, a conclusão que vem à tona parece esdrúxula, mas acaba fazendo sentido: ser socialista democrático é uma maneira de defender “pautas de direita” muito melhor do que ser reacionário. E essa corrente da esquerda não precisa ser conservadora e defensora de injustiças e hierarquias para fazer isso. Convido você a refletir sobre como você pode defender, por exemplo, a família, o direito à vida, a segurança e a liberdade de expressão muito mais racionalmente aderindo à esquerda do que sendo um adepto de ideias conservadoras e neoliberais.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Marcio

setembro 6 2016 Responder

Esse e o caminho que a esquerda deve seguir, socializar sem esse autoritarismo demagogo, poder discutir o social e o econômico deforma que o cidadão possa participar sem alienação.

Newton

junho 5 2016 Responder

Não existe uma direita legítima no Brasil, o que temos são inúmeros partidos esquerdistas e social democratas brigando entre si para ver quem será o próximo a desfrutar das regalias proporcionadas por cargos políticos (criadas por eles mesmos).
Na questão da propriedade privada, a afirmação ” Sua bandeira “contra” a propriedade privada é relacionada aos meios de produção, que seriam transferidos do empresário para os trabalhadores, os quais, por sua vez, dirigiriam a empresa por autogestão.” soa totalmente ilógica; tal sociedade de trabalhadores que gerenciariam a empresa nada mais é do que a mesmíssima propriedade privada, porém com um dono diferente. Aliás, cabe a pergunta: nessa suposta sociedade, todos ganhariam igualmente? Em caso negativo, qual então a diferença entre tal empresa e a anterior? Por que todo empresário é visto como explorador? Se você empreender um negócio, arcando com todos os riscos e dificuldades, não é justo que em caso de sucesso, você mereça todos os ganhos a que tem direito por mérito próprio? Não seria mais fácil e lógico que um grupo de trabalhadores abrisse uma empresa e fizesse a sua “autogestão”, ao invés de transferirem os meios de produção do empresário para os trabalhadores? Como seria feita essa “transferência”, através da expropriação? Por que dessa maneira, por acaso é mais fácil assim do que assumir todos os riscos ao empreender?
Em relação à liberdade de expressão, já falei que ou ela é absoluta ou então não existe. Repressão existe em todas as ideologias, mas a esquerda não parece em condições de dar conselhos a ninguém.

Coxinha

junho 3 2016 Responder

“O socialismo democrático reconhece os erros dos regimes socialistas autoritários do século 20”

Agora tente postar esta frase no CMI ou em qualquer reduto da esquerda e observe as reações: “traidor”, “revisionista”, “coxinha”, “infiltrado”, etc. Não são os reaças com este pensamento, e sim gente da própria esquerda.

Por que o que a esquerda no Brasil (e na América Latina) realmente defende não tem nada de democrático. É sim um feudalismo político onde todos devem obediencia ao Senhor do Partido, e quem discordar desaparece.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo