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jul16

Como o #ForaTodos tem sido um “#ForaDilma de esquerda”, carecido de propostas realistas e beneficiado a direita
Um "fora todos eles" que está permitindo à direita ficar e se sentir à vontade

Um “fora todos eles” que está permitindo à direita ficar e se sentir à vontade

Sem ir às ruas e apresentar metas realizáveis para o contexto atual, os foratodistas, longe de emplacar um projeto de poder alternativo a Temer e Dilma, estão inviabilizando a união das esquerdas em torno da oposição à onda conservadora encabeçada pelo golpismo

Em concorrência à direita defensora do impeachment-golpe contra Dilma Rousseff aos opositores assumidos dessa manobra (petistas e parte da esquerda), há os defensores do #ForaTodos, que dizem querer que Dilma não volte e todo o pessoal do PMDB e PSDB caia fora também. Os foratodistas, como eu os chamo aqui, dizem querer mudanças radicais. Mas, apesar de suas nobres intenções, as suas “metas” irreais para o momento – quando ao menos possuem alguma meta -, sua quase total falta de ação prática e seu espírito sectário os fazem estar, na prática, prejudicando a esquerda como um todo e contribuindo para Michel Temer e seus aliados prevalecerem no final.

 

As reivindicações inviáveis

Os adeptos do #ForaTodos estão fadados ao fracasso, em primeiro lugar, pela falta de propostas realistas sobre quem assumiria no improvável caso de todo mundo da linha sucessória presidencial (exceto Lewandowski, atual presidente do STF) renunciar ou ser cassado. Aparentemente contam com a possibilidade de novas eleições, prevista pelo Artigo 81 da Constituição Federal, se Dilma for impedida de vez e Temer for cassado ou renunciar antes do fim deste ano. Mas quando lhes perguntamos quem iria concorrer nesse hipotético, como candidato competitivo a representar bem-sucedidamente a esquerda, em oposição a nomes como Lula, um tucano, talvez Marina Silva e o ameaçador Jair Bolsonaro, o silêncio é constrangedor.

O efeito de pedir “que se vão todos” vai ser agravado se Temer resistir na presidência este ano e for eventualmente cassado em 2017 ou 2018. Nessa hipótese, o sucessor será votado pelo Congresso e a vitória de um peemedebista, tucano ou algum outro conservador será certa, uma das piores situações hipotéticas possíveis.

O afastamento de todos, por sua vez, é extremamente improvável, quase impossível. Nenhum membro da linha sucessória de Dilma tem o interesse de abrir mão da possibilidade de se tornar presidente depois da hipotética queda da petista e de Temer. E o Congresso conservador de hoje obviamente não está disposto a cassar seus próprios aliados e chefes. Lembremo-nos aqui que o STF teve que intervir para afastar Eduardo Cunha da presidência da Câmara, e ele continua tendo muitos aliados a tentar salvar seu mandato de deputado.

Alguns foratodistas podem dizer, a esta altura, que a proposta que defendem é que “todos saiam” por meio de uma reforma política, que traga um amadurecimento democrático para o sistema político brasileiro e seja intolerante a mandatários e empresários corruptos e abusivos. Mas caso digam isso mesmo, ficará evidente que esquecem que o Congresso atual é dolorosamente reacionário, o mais conservador desde 1964, e portanto não deixará passar nenhuma reforma política progressista.

O mais provável que seja votado como “reforma” é na verdade algo como uma contrarreforma para elitizar, endireitar, desdemocratizar e corromper ainda mais o exercício do poder político no Brasil, tal como Eduardo Cunha tentou fazer no ano passado e quase conseguiu.

Além disso, a esquerda defensora de uma reforma política propriamente dita, atualmente representada no parlamento apenas pelo PSOL, não tem poder nenhum para exercer qualquer influência progressista significativa na Câmara e no Senado hoje. Não tem o mínimo de condições de fazer a maioria conservadora, sedenta de mais e mais poder, aprovar mudanças positivas que ponham em risco a continuidade do seu próprio mandato. Muitos dos defensores do #ForaTodos, aliás, não gostam desse partido, como é o caso dos membros mais sectários do PSTU.

Em resumo, nada daquilo que o #ForaTodos reivindica – impeachment de Dilma e Temer, cassação dos mais poderosos do PMDB e do PSDB e reforma política já – é plenamente viável hoje. Com isso, o #ForaTodos, no final das contas, tende a não colocar ninguém para fora. Pelo contrário, só abre o caminho para o triunfo da direita antidemocrática, como será visto mais adiante.

 

A falta quase total de ação reivindicativa

Como se não bastasse ter demandas nada realistas, os foratodistas não têm feito nada para defender sua posição nas ruas. Não consta no Google nenhuma postagem, entre 11 de maio (dia da votação do prosseguimento do processo de impeachment de Dilma no Senado) e 7 de julho (dia em que este artigo foi escrito), em que o PSTU ou outras tendências de esquerda que compartilham da mesma posição tenham marcado ou realizado mobilizações pelo #ForaTodos, em nenhuma cidade brasileira.

Tudo tem ficado restrito a opiniões no site e na página social do PSTU e nas palavras de ordem dos isolados que concordam com a posição desse partido. E esse isolamento tem sido cada vez maior.

O Movimento Esquerda Socialista, tendência do PSOL que até pouco tempo atrás defendia o #ForaTodos, passou a se opor ao golpe contra Dilma e hoje faz coro com a própria na defesa de novas eleições – ainda que com a diferença de ser em prol de eleições para todos os mandatos, como se anulando o pleito de 2014. E recentemente mais de 700 pessoas declararam, em carta aberta, sua saída do PSTU, em discordância ao foratodismo e à relutância do partido em abandonar sua posição de isolamento e sectarismo.

Como não vão às ruas para nada, nem saem das meras opiniões individualizadas nas redes sociais, os defensores do #ForaTodos não estão tendo praticamente nenhuma influência contra Temer, Aécio, Cunha, Renan Calheiros etc. no quadro político. Se influenciam em algo, é na verdade, sem que percebam, para inconsequentemente mantê-los no poder.

 

Um #ForaTodos que tem efeitos de #FicaTemer

Por não ter nenhuma ação prática e nenhum objetivo realista, o #ForaTodos tem tido uma baixa relevância no quadro político nacional. E o pouco de relevante que possui é no sentido negativo, já que impede a esquerda brasileira de se unificar e adquirir mais forças para barrar o golpe de Estado que o processo de impeachment mascara.

Defender o #ForaTodos no contexto atual é traduzível não como uma proposta legítima de uma política renovada e democratizada, mas sim como um “#ForaDilma de esquerda” teimoso e inconsequente.

Não quero aqui defender como “bom” o governo de Dilma, que nunca foi uma presidenta de esquerda – pelo contrário, sempre paquerou a direita e intensificou essa paquera ao longo de 2015, até que a “paquerada” a apunhalou pelas costas. O que pretendo é evidenciar que, por mais que a volta dela não seja a garantia de redenção e renovação ideológica para ela e o PT, é irresponsável fazer coro à direita ao concordar que a presidenta “deve mesmo” ser impedida.

Antes de qualquer proposição de reforma política democratizante, o governo de Michel Temer precisa ser demolido. E a única maneira de fazer isso atualmente é conseguindo a não aprovação do impeachment no Senado e/ou forçando o presidente ilegítimo a renunciar, já que a revolução armada socialista, tão defendida e sonhada por parte dos foratodistas, é simplesmente impossível de acontecer no Brasil na época atual.

Só depois que Dilma voltar à presidência, é que a esquerda antigolpe precisará fazer aquilo que não fez após a vitória dela no segundo turno de 2014: pressioná-la a adotar políticas progressistas e impedi-la de pôr em prática qualquer política de direita. Se for para apoiá-la no plebiscito para a realização de novas eleições, que sejam gerais para os poderes Executivo e Legislativo, e com muitos candidatos competitivos que realmente ofereçam a possibilidade real de políticas progressistas sustentáveis. Afinal, propor um pleito em que a esquerda e o PT tenham chances remotas e a direita esteja quase certa de vencer é como tentar quebrar a ponta da espada enfiando-a no abdômen.

 

Considerações finais

O que o PSTU e outros defensores do #ForaTodos estão fazendo não é nada que tenha como consequência real a eliminação da direita do poder. Mas sim enfraquecendo qualquer chance de a esquerda derrubar Temer, derrotar o impeachment e assim poder respirar e se planejar para o futuro. E, consequentemente, fazendo com que o golpe triunfe, por mais que vivam dizendo “Fora Temer, Cunha, Renan e Aécio também”, e aí a esquerda fique em apuros ainda mais severos.

Estamos numa época em que os sonhos de revolução e utopia estão em suspenso e o que está sendo vivenciado, muito longe da propagação de uma consciência coletiva revolucionária, é ao invés o alastramento do reacionarismo, mesmo entre as classes mais pobres. O que se precisa hoje é parar essa onda de expansão da direita, antes de se tentar viabilizar qualquer projeto consistente e sustentável de esquerda. Mas os foratodistas não estão percebendo isso, e acham ter um grande poder de influenciamento da ordem política o qual não têm. Sua posição contribui para que ninguém, fora a própria Dilma, saia do poder.

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