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Onde foi parar o meio ambiente nos debates políticos? Saiba a resposta e como ajudar a reviver esse tema
Árvore chorando. A Natureza, desprezada pela maioria dos debatedores de política brasileiro, chora de desgosto. O meio ambiente foi escanteado.

A Natureza, desprezada pela maioria dos debatedores de política brasileiros, chora de desgosto. O meio ambiente foi escanteado.

Você vai se sentir tocado(a) por esta reflexão sobre a decadência do ambientalismo no Brasil e o que você pode fazer para ajudar a reanimá-lo e renová-lo

Você já parou recentemente para perceber uma coisa?

Ao longo desta década, você tem visto que as discussões políticas estão se tornando cada vez mais acaloradas, muitas vezes passando dos limites da civilidade. Noves fora as agressões, baixarias e boatos, esquerda e direita têm defendido com muita firmeza suas bandeiras.

Mas verifique o que os dois lados têm argumentado e embandeirado e perceba: cadê o tema meio ambiente?

 

A crise ambiental atual foi coroada pela crise do ambientalismo

Onde foram parar aqueles que, metaforicamente, abraçavam o planeta com amor?

Onde foram parar aqueles que, metaforicamente, abraçavam o planeta com amor?

A crise ambiental está puxando o mundo para uma situação de calamidade, por meio:

  • das mudanças climáticas;
  • das diferentes formas de poluição;
  • da geração incessante de lixo não reaproveitado;
  • da extinção cada vez mais massiva de espécies;
  • do declínio da já combalida qualidade de vida da parcela mais pobre da população mundial;
  • da proliferação de doenças etc.

E o ambientalismo historicamente tem reagido de maneira corajosa a tudo isso, desde os anos 60.

No Brasil, as lutas ambientais foram fortes e aguerridas entre o começo da “abertura” da ditadura militar, no final dos anos 70, e o começo da década de 2010, ainda que nem sempre vitoriosas. Muitas conquistas foram obtidas com louvor, como:

  • O emplacamento do direito coletivo ao meio ambiente na Constituição de 1988;
  • O estabelecimento de uma das legislações ambientais mais fortes do mundo;
  • A criação de incontáveis zonas de preservação e conservação ambiental (Unidades de Conservação);
  • A implantação de políticas ambientais diversas, como a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que tem promovido a abolição gradual dos lixões no país;
  • entre tantas outras.

Só que, depois que o governo Dilma, fazendo ouvidos moucos a todos os protestos, deu início à construção da infame Usina de Belo Monte, no Rio Xingu, alguma coisa aconteceu. Desde então a maioria dos grupos ambientalistas que eram tão atuantes na virada do milênio sumiu ou reduziu dolorosamente suas atividades.

Enquanto páginas de esquerda e de direita se multiplicam e se digladiam nas redes sociais, apenas algumas poucas páginas e movimentos dedicados ao ambientalismo sério e assuntos diretamente relacionados soltam a sua voz por escrito para alguns milhares de seguidores, como essas:

Outras eu acabei não listado pela dificuldade de encontrar mais páginas ecologistas que tivessem pelo menos 10 mil curtidas.

Nesse mesmo âmbito, ONGs internacionais outrora respeitadas e aclamadas, como o Greenpeace e a WWF, têm perdido cada vez mais o respeito e a confiança das pessoas nos países onde atuam, em função de suas posições de desrespeito aos animais como sujeitos de direitos, falta de simpatia pelo veganismo e o vegetarianismo de motivação ambiental e seletividade arbitrária e injustificável para as pautas que defendem. O documentário estadunidense Cowspiracy revela o descaso dessas instituições quando o tema é referente a impactos ambientais da pecuária, pesca e aquicultura.

 

Enquanto o movimento ambientalista como um todo definha no Brasil…

Campo olímpico de golfe construído sobre área desmatada, no Rio de Janeiro. No local, antes existia a reserva ecológica de Marapendi

Campo olímpico de golfe construído sobre área desmatada, no Rio de Janeiro. No local, antes existia a reserva ecológica de Marapendi

Enquanto isso, inúmeros retrocessos ambientais têm acontecido no Brasil:

  • A bancada ruralista em Brasília e nos estados não tem perdido um por cento sequer do seu poder político;
  • O agronegócio é exaltado pelo governo federal, desde a era Lula, e recebe muito mais investimentos do que a agricultura familiar, sem a devida exigência de responsabilidade socioambiental em contrapartida;
  • Da mesma maneira, as indústrias, independente de serem ou não altamente poluentes e gastadoras de recursos naturais, receberam exaustivo incentivo econômico, como o caso emblemático das montadoras automobilísticas;
  • Ao mesmo tempo, o consumismo foi glorificado e estimulado durante os governos petistas, resultando numa pressão cada vez maior sobre o meio ambiente;
  • Hidrelétricas se multiplicam na Amazônia, inundando áreas de floresta e desalojando populações indígenas e ribeirinhas e degradando a qualidade de vida nos municípios vizinhos, como o caso de Altamira perante a Usina de Belo Monte;
  • Um Código Florestal bem mais fraco e menos protetor dos ecossistemas brasileiros do que o anterior foi sancionado em 2012;
  • O meio ambiente sumiu da maioria das campanhas presidenciais, inclusive da outrora ambientalista Marina Silva, que em 2014 praticamente deixou de lado a pauta verde que tinha em 2010;
  • O crime ambiental que acarretou o estouro das barragens contaminadas de Mariana/MG matou a vida do Rio Doce, tornou imundas suas águas e continua provocando mortes no Oceano Atlântico meses depois. Mas até hoje não teve nenhuma punição nem medida de recuperação;
  • O governo Dilma foi o pior para o meio ambiente, os indígenas, os camponeses sem-terra, os ambientalistas (que restaram) e as comunidades quilombolas e tradicionais desde o final do regime militar. E nada indica que o mandato ilegítimo de Michel Temer (caso Dilma seja derrubada de vez pelo impeachment) mudará isso para melhor;
  • Em 2014 uma crise hídrica sem precedentes atacou o estado de São Paulo e secou quase completamente o Sistema Cantareira, o maior conjunto de barragens de abastecimento d’água do estado, sem que nenhuma medida significativa de proteção e recuperação ambiental tenha sido implementada pelo governo de Geraldo Alckmin;
  • Na Grande São Paulo, um projeto bilionário de despoluição do Rio Tietê, em implantação desde o já longínquo ano de 1995, até hoje não melhorou a qualidade da água do rio, e continua desperdiçando dinheiro público;
  • Na cidade do Rio de Janeiro, apesar da luta do movimento Ocupa Golfe, a Reserva Ecológica de Marapendi foi quase totalmente destruída para dar lugar ao campo de golfe das Olimpíadas de 2016;
  • Os mesmos jogos olímpicos estão acontecendo, neste momento em que escrevo, numa Baía de Guanabara extremamente poluída e completamente imunda e insalubre;
  • Em Pernambuco, o complexo industrial-portuário de Suape não para de poluir o meio ambiente, e tem um histórico de devastar o que resta dos ecossistemas costeiros do estuário do Rio Ipojuca, além de ter expulsado os moradores de comunidades tradicionais locais;
  • entre tantos outros.

E diante de tudo isso, a reação ambientalista no Brasil tem sido muito fraca, impotente demais para impedir que novos desastres aumentem ainda mais essa lista e que os já ocorridos sejam revertidos ou compensados e seus responsáveis, punidos.

 

O meio ambiente em último plano

Uma das raras postagens da página social de esquerda Anarcomiguxos abordando, ainda que secundariamente, as consequências ambientais do capitalismo

Uma das raras postagens da página social de esquerda Anarcomiguxos abordando, ainda que secundariamente, as consequências ambientais do capitalismo. Clique na imagem para vê-la em tamanho maior

O agravante disso é que esse tema, apesar de sua inegável e extrema importância para a sobrevivência da própria humanidade, caiu em desgraça nos mais quentes e frequentes debates políticos brasileiros da atualidade.

Fala-se muito:

Nesse cenário, a ecologia e sustentabilidade tem ficado não em segundo, mas em último plano.

Pouco ou nada tem-se falado sobre a questão ambiental. No máximo, como no caso de algumas muito raras postagens de páginas sociais de esquerda que respondem a argumentos de direita (exemplo 1, exemplo 2), a degradação do meio ambiente, o gasto extremo de recursos naturais, a superprodução de lixo e a poluição aparecem como consequências do capitalismo.

Mas mesmo assim, são abordadas como algo apenas secundário, em comparação com outros problemas intrínsecos ao neoliberalismo, como o rebaixamento da maioria da população à pobreza e miséria.

É essa inépcia das tendências políticas brasileiras atuais sobre temas ecológicos que tem proporcionado que mais e mais atos de desproteção, vulneração, degradação e destruição ambiental aconteçam com total impunidade. Afinal, os inimigos do meio ambiente já não têm mais uma oposição à altura que os desafie e os intimide a repensar suas atitudes.

 

O que fazer agora?

Você pode ajudar e muito a Natureza, mas não de mãos cruzadas

Em um texto de 2015, eu deixei claro que não podemos mais esperar passivamente por um ressurgimento das ONGs verdes no Brasil. Precisamos ser e restaurar nós mesmos o ambientalismo que hoje só é sombra do que foi nos anos 90.

E esse sonhado novo movimento ecologista precisa ser algo que diga respeito tanto à nossa própria qualidade de vida como à empatia que temos por outros seres humanos e animais não humanos que sofrem diretamente com a crise ambiental.

Ou seja, na minha opinião, algo que abranja:

  • A prática e difusão do veganismo;
  • A luta por mais e melhores parques nas cidades;
  • A defesa ativa e enérgica por políticas fortes de mobilidade e investimento em transporte público de massa (trem urbano e regional, metrô, monotrilho, VLT, BRT, corredores e faixas exclusivas de ônibus etc.) e transportes individuais não motorizados (bicicleta e andar a pé);
  • A defesa do ecoturismo e dos lazeres verdes como meios de as pessoas se desconectarem temporariamente da sufocante vida urbana;
  • O enfrentamento da cultura carrocrata nas cidades;
  • A democratização da gestão urbana;
  • A exigência, ao poder público (em especial às prefeituras), de políticas de reciclagem e compostagem de todo o lixo reaproveitável coletado nas cidades;
  • A luta contra o racismo ambiental;
  • O apoio a religiões e espiritualidades que adoram, contemplam e interagem ritualmente com a Natureza;
  • A disseminação da permacultura e agroecologia no campo;
  • O fortalecimento dos movimentos camponeses, indígenas e indigenistas, quilombolas e de comunidades tradicionais;
  • A preservação e não privatização das unidades de conservação brasileiras;
  • A despoluição de rios e canais e o desenterramento de córregos;
  • A propagação de uma Educação Ambiental que vá muito além de transmitir “comandos” de comportamento individual e possa ser aplicada a grupos sociais e comunidades em situação de vulnerabilidade;
  • O ensino difundido sobre como problemas ambientais em locais distantes (como a Amazônia para a maioria da população brasileira) afeta diretamente a qualidade de vida das pessoas;
  • A inserção da temática ambiental nas discussões políticas e no conteúdo de blogs e páginas sociais de esquerda;
  • entre diversos outros pontos.

Essa mudança de atitude, que originará um movimento ambientalista diferente do que atuou até a última virada de década, é mais que necessária. E o melhor: a qualquer momento você mesmo(a) pode ajudar a erguê-lo pouco a pouco.

Então, mãos na massa e vamos devolver o meio ambiente para o primeiro plano do debate sociopolítico brasileiro, de onde nunca deveria ter caído.

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