20

ago16

A história de vida de Ana Karla: conheça a crença absurda da meritocracia sobre haver pessoas morando em lixões
Pessoas em situação de miséria num lixão. Descubra a crença absurda, por trás do discurso da meritocracia, sobre a existência de pessoas morando em lixões

Descubra a crença absurda, por trás do discurso da meritocracia, sobre a existência de pessoas morando em lixões

Se você acredita na meritocracia capitalista como “redentora dos pobres” e que as políticas públicas do Estado contra a miséria só “atrapalham tudo”, este texto é para você

Você já leu a história da capixaba Ana Karla Nascimento, que, quando criança, morou num lixão e, depois de anos de muita luta e sentindo na pele o racismo e a pauperofobia de parte da sociedade, conseguiu concluir o curso de Direito e passar no exame da OAB?

Se ainda não leu, aconselho que leia o quanto antes. A trajetória dela, e os comentários de algumas pessoas, nos convidam a pensar sobre as implicações da defesa da meritocracia como meio de ascensão social no capitalismo.

Afinal, dessa leitura, podemos descobrir algo muito inquietante sobre pensamento neoliberal meritocrático, sobre como ele vê a existência de pessoas morando em lixões.

 

Um resumo da história de Ana Karla

Ana Karla Nascimento, a caminho de ser advogada, depois de ter concluído o curso de Direito e passado na OAB

Ana Karla Nascimento, a caminho de ser advogada, depois de ter concluído o curso de Direito e passado na OAB

Filha de pais muito novos, ela morou num lixão logo depois que nasceu. Segundo o UOL, “os mais ‘ricos’ do local viviam em casa de madeira, enquanto sua família se contentava com um barraco de lona”.

Durante sua infância, ela e seus pais se mudaram de ocupação várias vezes. E ela passou cinco anos de sua pré-adolescência e adolescência, entre os 10 e os 14 anos, sem estudar.

Voltou para a escola na quinta série aos 15 anos e concluiu o então primeiro grau (atual Ensino Fundamental), mas foi obrigada a abandonar a escola no segundo ano do Ensino Médio.

Contou ela: “Durante o ensino médio precisei trabalhar. Meus pais se separaram e minha mãe, que era faxineira, cuidava de mim e dos meus dois irmãos. Acabei abandonando a escola no segundo ano. Aos 19 anos, casei. E no ano seguinte, separei. Me vi desempregada, sem escolaridade e com depressão, por causa do divórcio.”

Casou-se de novo, e seu segundo marido lhe deu forças e apoio para voltar aos estudos. Fez a Educação de Jovens e Adultos para concluir o ciclo do ensino básico.

Nesse meio tempo, trabalhou em uma loja e, quando pediu mudança de horário de seu expediente, sofreu na pele o racismo e a pauperofobia de seu então gerente: segundo o UOL relata, ele lhe falou que “preto e pobre não cursa Direito” e a demitiu, já que, se ela fosse cursar a faculdade, a firma não ganharia nada com isso.

Depois disso, trabalhou como babá, e com o apoio do esposo fez o Enem em 2010. Com um bom resultado na prova, conseguiu bolsa no Prouni e cursou Direito na Faculdade Estácio de Sá. Para sobreviver durante o curso, vendia balas no terminal de ônibus e empadinhas na praia junto com seu marido. O estágio que ela fez uma vez pagava mal, e isso a obrigou a recorrer ao comércio ambulante.

Hoje, ela mostra com alegria o diploma de bacharel em Direito e sua vitória no exame da OAB, obtida antes da conclusão do curso. Atualmente está estudando para concurso público e sonha em se tornar juíza, pretendendo antes trabalhar como defensora pública.

 

A tal da meritocracia

Meritocracia

No compartilhamento dessa reportagem na página do UOL Notícias no Facebook, pude ver alguns comentários dizendo coisas como:

  • “Correu atrás! Esforço próprio! Não ficou se fazendo de coitada! É isso aí!!”
  • “Mais um exemplo de quem quer consegue. Vagabundagem é escolha e não destino. Quer ser alguém na vida? Estude e trabalhe bastante.”
  • “Quando se quer se chega lá!”
  • “A esquerda pira.”
  • “Parabéns! Pode-se ver que a força de vontade e o trabalho não fizeram ma algum, só benefício pra formanda. Não precisou de bolsa família. Outra grande virtude, usou de seu trabalho pra chegar onde chegou. Esta vai longe.”
  • “Meritocracia …” (Acredito que o autor quis dizer que o caso dela é uma prova de que existe meritocracia no capitalismo brasileiro)
  • “Quando você tem um sonho qualquer trabalho você consegui é só ter força e fé em deus não importa se trabalha no lixão ou mora na favela brasileiro precisa para de fazer pouco dessas pessoas”
  • “É o Brasil que trabalha. Não precisa de esmolas.”
  • “Qual é a desculpa dos vagabundos que defende bandidos mesmo?”
  • ” Isso que é superação !!! Quando a pessoa quer ser alguém na vida, não existe.pobreza e.sim força de vontade, luta, guarra.parabéns !!! Muito sucesso.”
  • “Quando quer estudar, dá sempre um jeito”

Quando li essas falas, na hora eu pensei: será que não perceberam que, para esse discurso encontrar sua suposta legitimidade, foi preciso que a moça tivesse tido uma vida dolorosamente difícil, envolvendo ter morado num lixão público, sido vítima de racismo e sofrido depressão?

É aqui que cai a ficha: a defesa da meritocracia como “redentora dos pobres esforçados” só existe porque há casos, mesmo muito raros, de pessoas que saem de uma situação de deplorável miséria e, depois de décadas de luta sofrida, conseguem profissões de alto prestígio social e renda elevada.

Ou seja, porque existem pessoas que moram em lixões.

 

Por que esse discurso legitima a perpetuação da miséria

Discurso surreal da defesa da meritocracia

O discurso meritocrático, apesar de a maioria de seus adeptos não perceberem, acaba naturalizando que situações bizarras de miséria continuem existindo.

Afinal, nessa lógica, o objetivo estabelecido na ordem social não é que a pobreza seja erradicada. Mas sim que as pessoas se livrem dela por conta própria – ou, no máximo, com ajuda de sua comunidade, fundações privadas, ONGs e empresas ostentadoras da bandeira da responsabilidade social.

Apesar da (aparente) boa intenção de quem deseja ver o máximo possível de pessoas saindo das favelas ou das ruas depois de “vencerem na vida”, é inegável que, numa sociedade idealmente meritocrática, não há espaço para todos obterem o mesmo nível de vitórias.

Afinal, é impossível que uma parcela grande da população trabalhadora ascenda a profissões como grandes empresários, artistas superstars e esportistas milionários. Sempre haverá aqueles que, por motivos diversos, pararão na classe média ou permanecerão pobres.

E, numa sociedade em que a riqueza, o sucesso individual e a atitude de “fazer a diferença” na economia são tidos como objetivos de vida e os valores de coletividade e cooperação são considerados “ruins” e “inferiores” em favor da competição, estacionar nas camadas médias da pirâmide social será visto como “vergonhoso” e algo “típico de perdedores e preguiçosos”.

Outro problema é que, quando se defende a meritocracia como a “verdadeira redentora”, está-se dizendo que o Estado não deveria se preocupar em ajudar as pessoas a sair da miséria e da pobreza. Isso porque alegadamente lhes basta serem esforçadas no trabalho duro e nos estudos e conseguirão realizar os seus sonhos, e a intervenção estatal alegadamente “atrapalha tudo” e “engessa a economia”.

Só que, em nenhum país onde o capitalismo neoliberal, defensor do Estado Mínimo, foi aplicado, a miséria foi erradicada ou mesmo diminuiu relevantemente sob as bênçãos meritocráticas. Pois, nessa ordem socioeconômica, não interessa aos donos do poder acabar com a miséria, mas sim lucrar cada vez mais e “vencer na vida” individualmente.

Pelo contrário, nessa realidade a pobreza só aumentou, por causa do agravamento da concentração de renda, da eliminação dos serviços públicos, da não realização de políticas de redistribuição de renda e do corte de direitos trabalhistas.

Quando se defende o neoliberalismo, incluída nisso a meritocracia como meio de “salvação individual”, está-se necessariamente naturalizando a pobreza e a miséria. Aqui, se a responsabilidade pela miséria é não do Estado, mas sim dos próprios indivíduos em situação miserável, a implicação é que é “culpa deles” por estarem na pobreza absoluta.

Isso nada menos é do que naturalizar que pessoas nasçam e cresçam morando em lixões e favelas, privadas de direitos e deixadas à própria sorte para que tentem “subir na vida” sozinhas – ou, no máximo, com ajuda de terceiros.

 

Admitindo que isso é cruel

Para os defensores da meritocracia, só depende do próprio indivíduo sair de sua própria miséria

Fica difícil negar, quando observamos as entrelinhas da defesa, por convicção ou inércia, do neoliberalismo e de sua “meritocracia”, que esse discurso naturaliza que a miséria continue existindo e sua responsabilidade seja imputada às suas próprias vítimas.

Por mais que tentem negar, as pessoas que veem na história de vida de Ana Karla um exemplo de que a meritocracia é um “remédio” para a pobreza estão aceitando, e não se importando, que pessoas nasçam e vivam boa parte de suas vidas em aterros sanitários, moradias superprecárias ou mesmo em situação de rua.

Ou seja, para elas, o sofrimento alheio não é um problema que lhes desperte compaixão e desejo de mudar o mundo e ajudar na erradicação da miséria. E tudo deve continuar como está, desde que elas próprias não empobreçam.

Deixemos claro, sempre que for defendida a falácia da meritocracia “redentora” e o não esforço do Estado em se tratando de melhorar a vida dos cidadãos, que isso é um atestado de crueldade e falta de empatia.

imagrs

5 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Luciano

setembro 18 2016 Responder

Eu acho que o estado deve ensinar o povo a fazer a vara colocar o anzol a linha e pescar ou seja, aumentar o numero de cursos profissionalizantes gratuitos,investir em educação de qualidade gerar mais empregos. Meus parabens a essa moça lutou batalhou e chegou no seu objetivo. Eu não morei num lixão más sou de origem pobre sou negro e sempre lutei e batalhei, no meu caminho surgiram pessoas brancas, negras e de outras etnias e de classes sociais e religiosas distintas que me ensinaram a lutar por meus objetivos e as primeiras pessoas desta lista são meus pais sendo que meu pai faleceu em 1990 más me deixou um legado de luta.

Victor

setembro 6 2016 Responder

Parabéns. Esse texto me ajudou muito em encontrar pequenos empecilhos, que antes para mim não existiam. Agradeço!

    Robson Fernando de Souza

    setembro 7 2016 Responder

    Obrigado, Victor =) Abs!

Marcelle Sanches

agosto 31 2016 Responder

Parabéns pelo texto, eu não acredito na “meritocracia” aqui nesse país

    Robson Fernando de Souza

    setembro 4 2016 Responder

    Obrigado, Marcelle =) abs!

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo