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ago16

Saiba por que se reconhecer como privilegiado faz bem para o mundo e para você
Privilégios do homem branco endinheirado na suposta eritocracia capitalista

Entenda os privilégios que você, caso seja homem branco endinheirado sem deficiências, possui

Ao ler este texto, você vai perceber como se sentirá mais livre, responsável e empático depois de adotar a atitude aqui recomendada

Você, caso seja um homem branco cisgênero heterossexual em boa situação financeira e sem deficiências e nunca tenha sofrido discriminação (ou não sofra mais depois de crescido nem carregue traumas do passado), já parou para pensar que é um privilegiado?

Se estranhou minha pergunta ou a recebeu preparado para negá-la, convido que pare e pense por que estou falando isso. E contribuo: pensar sobre seus privilégios pode fazer muito bem a você, assim como ao mundo como um todo.

 

Por que você é privilegiado

Reconheça seus privilégios

Acredito que você tem plena consciência de que a humanidade é recortada por hierarquias sociais e morais, nas quais uns têm mais poder, prestígio, benesses e qualidade de vida do que outros. Nessa noção, provavelmente você também percebe que a grande maioria dos que “se dão melhor” na vida compartilha certas características que em nada têm a ver com mérito, talento, dom ou esforço.

Veja as “coincidências” que marcam a maioria dos considerados “vencedores” do capitalismo: são homens, brancos, oriundos das classes médias ou altas. Perceba que falei a maioria, já que há umas poucas pessoas negras, mulheres e/ou de origem pobre no pódio socioeconômico capitalista.

Se quer provas disso, observe o empresariado, a classe política, os juízes. Dentre eles, você verá bem poucas mulheres, pessoas negras e/ou de origem pobre. Aliás, provavelmente você contará nos dedos de uma mão quantas mulheres negras nascidas nas classes populares estão entre essas figuras de autoridade.

Por outro lado, verá que a grande maioria possui as mesmas já citadas características que você tem, aquelas mesmas que fazem de você e deles pessoas privilegiadas.

Isso significa que as sociedades capitalistas não são meritocráticas. A distribuição de classe, raça e gênero privilegia imensamente homens brancos de origem abastada e sem deficiências, e relega a maioria das mulheres, pessoas negras, pessoas pobres e pessoas com deficiência a permanecerem nos andares mais baixos das hierarquias da nossa sociedade.

Os motivos de isso acontecer são reveladores, e poderão fazer você começar a se perceber como um privilegiado: a sociedade em que vivemos é estruturalmente racista, machista, elitista, capacitista e indiferente aos talentos e esforços da grande maioria da população. Nesse contexto, quem não é homem branco de classe média ou alta irá sofrer com muito mais obstáculos para subir a pirâmide social.

Nesse caso, se você:

  • ganha mais do que mulheres e negros (e muito mais do que mulheres negras) da mesma profissão;
  • percebe que há muito mais pessoas com as mesmas características de raça, gênero e classe que você em posições de poder do que, por exemplo, mulheres negras;
  • teve uma educação bem mais avançada do que a maioria da população pelos seus pais terem tido condições de pagar ótimos cursos;
  • não enfrenta mil e um obstáculos físicos em seu caminho e direito de ir e vir;
  • não foi obrigado a trabalhar na juventude, por exemplo, como operador de caixa, vendedor de loja, balconista ou auxiliar operacional para pagar contas e ter o que comer em casa;
  • entre outros benefícios, isso só se falando diretamente do capitalismo,

você é uma pessoa privilegiada.

Isso porque não mencionei, até agora, outro privilégio inegável: estar protegido contra discriminação, preconceito, discursos de ódio e segregação – pelo menos em se tratando de questões como raça, gênero, orientação sexual, identidade de gênero e classe social.

Pense se você, alguma vez, recebeu alguma ofensa em função de ser homem, branco, heterossexual, cisgênero, de classe média e sem deficiência ou neurodiversidade, tal como existem ofensas racistas contra negros, misóginas contra mulheres, homofóbicas contra gays, transfóbicas contra pessoas trans, pauperofóbicas contra pessoas pobres e capacitistas contra pessoas com deficiência ou neurodiversas.

Verifique, em seu histórico de vida, se você, em algum momento da vida, representou uma pequena minoria nos seus espaços de convívio social – como, por exemplo, ser um dos dois únicos homens brancos numa turma de Ensino Médio quase toda de negros e majoritariamente de mulheres numa escola cara e de reputação nacional.

Pense se em alguma ocasião houve alguma vulnerabilidade sua a discursos de ódio, segregação e discriminação.

Tudo indica que você não se lembrará de nenhum momento como esse. Ou seja, você teve o privilégio de uma vida imune a preconceitos e discriminações.

Pelo contrário, você provavelmente sempre foi visto como virtuoso, dotado de um futuro promissor, considerado do padrão de beleza. Ou, pelo menos, como o ser humano “padrão”.

Além disso, há mais pelo menos outros 50 motivos mais para você perceber que tem muitos privilégios, numa sociedade que não aprende a respeitar as diferenças. Deles, 25 são relativos a privilégios masculinos e 25 a brancos, como mostra o blog Nó de Oito.

Tendo em vista seu passado e presente, não há por que duvidar: se você é homem, branco, heterossexual, cisgênero e de classe média e não carrega traumas do passado por bullying (se não era o caso de você, por exemplo, ter usado óculos grosso, sido gordo, sido considerado “CDF”, tido dificuldades de socialização, sido neurodiverso etc., nunca por pertencer às categorias supracitadas), então você é um privilegiado.

E não há vergonha em se reconhecer assim. Pelo contrário, essa atitude lava a alma.

Quando souber mais detalhadamente dos benefícios que há em se admitir como beneficiário de privilégios, vai perceber que a verdadeira vergonha está em achar que acreditar em privilégios e discriminações é “perder tempo”, “balela” ou “vitimismo”.

 

Os benefícios de se perceber como privilegiado

A empatia está em pauta, mas não necessariamente em alta

São pelo menos sete benefícios que nós conseguimos quando nos percebemos e assumimos como privilegiados:

 

1. Mais empatia e compaixão

Você passa a notar que mulheres, pessoas negras, pessoas pobres no geral, LGBTs etc. são desfavorecidas e têm uma vida pior que a sua não porque são “preguiçosas”, “incompetentes”, “vitimistas” e “pouco esforçadas”, mas sim porque realmente sofrem preconceito e discriminação quase o tempo todo.

Isso permite a você ter empatia, solidariedade e compaixão – que é muito diferente de pena – pelas minorias políticas, ao invés de vê-las como indivíduos “perdedores”. Consequentemente, você pode se tornar um bom aliado das lutas dessas categorias e ajudá-las a lutar por uma sociedade mais justa e menos intolerante.

 

2. Eliminação da visão egocêntrica de mundo

Você deixa de acreditar que é o referencial padrão de ser humano. Isso implica que não irá mais se perguntar falaciosamente “se eu pude chegar aonde estou sem grandes problemas, por que essa gente não pode”.

Passa a se permitir enxergar o outro a partir da visão desse outro, e entender seus problemas, o contexto de sua vida, os porquês de não ter uma qualidade de vida semelhante à sua. Isso permite a você ser mais empático e ter um senso de responsabilidade maior como tendo o papel de ajudar o mundo a melhorar.

 

3. Mais humildade e maior reconhecimento da importância das lutas empreendidas pelas minorias políticas

Ao abandonar a visão de mundo egocêntrica e entender melhor os porquês de as minorias políticas estarem em desvantagem em comparação a você, sua capacidade de ser humilde e reconhecer o mérito das lutas dessas categorias aumenta exponencialmente.

Essa mudança lhe permite deixar de enxergar o mundo como uma dicotomia de “vencedores” e “perdedores” e um espaço onde o grande mandamento é competir e buscar vencer graças à derrota do outro. E perceber que o que faz o mundo funcionar e a humanidade não entrar em colapso, como já dizia Émile Durkheim, é a solidariedade.

 

4. Maior senso de responsabilidade sobre as mudanças (para melhor ou pior) do mundo

Você também se torna mais responsável sobre seu papel no mundo, além de se reconhecer como alguém que tem o poder de ajudá-lo a se tornar um lugar melhor para todos. E começa a notar também que muitas ações ruins que se acreditava serem meramente individuais têm consequências desastrosas para a sociedade e o mundo como um todo, como os discursos de ódio e a irresponsabilidade ambiental.

 

5. Mais consciência de que a ordem social vigente não é natural, mas sim uma construção social

Você adquire a capacidade de perceber que a ordem social capitalista não é algo determinado pela Natureza ou por Deus. Mas sim uma construção social baseada em relações de poder. E que todos nós – as minorias políticas e as pessoas que se reconhecem privilegiadas e querem ajudar o mundo a ser mais equitativo – podemos intervir nela para impedir que continue condenando bilhões de seres humanos à miséria, à discriminação e à mera sobrevida.

 

6. Consequentemente, mais liberdade

Ao sabermos que o capitalismo e a competição socioeconômica imposta por ele não são uma imposição divina ou da Natureza, nos sentimos muito mais livres a ponto de poder desafiá-lo e também, na medida do possível, optar por comportamentos e modos de vida que não sejam de competição e tentativa de derrotar e afundar o nosso próximo, nem de acumular bens materiais como objetivo único ou principal.

Isso nos permite inclusive vislumbrar que o capitalismo pode sim ser enfrentado e mesmo abolido no futuro, à medida que as sociedades tomem consciência de sua potencial liberdade de rejeitá-lo. E que esse enfrentamento é essencial para acabar, ou pelo menos diminuir decisivamente, muitas das discriminações que hoje flagelam as minorias políticas, considerando que esse sistema vive das desigualdades sociais e da existência de pessoas pouco favorecidas que trabalham pela opulência das privilegiadas.

 

Considerações finais

A bolha está prestes a ser estourada

Quando você se descobre e admite como privilegiado, um mundo inteiro se abre para você. A bolha em que vivia, e que lhe proporcionava muitas ilusões sobre a sociedade e si mesmo, estoura.

E ao mesmo tempo que assume mais responsabilidades, ganha uma admirável liberdade que, na época em que acreditava em meritocracia, que a “ordem natural das coisas” é capitalista e que racismo, machismo, heterossexismo, elitismo etc. “não existem”, você apenas achava que tinha, mas estava muito longe de realmente ter.

O mundo clama por um despertar de consciência, e isso passa, entre muitas atitudes individuais e coletivas, pela disseminação, entre aqueles que têm privilégios, da autopercepção como pessoas privilegiadas.

Para que você se reconheça assim e passe a se perceber como alguém mais livre, cidadão e responsável, recomendo a leitura de textos feministas, do Movimento Negro, de mulheres negras que lutam simultaneamente contra o racismo e o machismo, de pessoas trans e de pessoas não heterossexuais.

Tome o cuidado, porém, de não tentar ser protagonista da luta alheia ou paternalista em suas ações de solidariedade, e não crer que, por exemplo, o feminismo é uma luta “também pelos homens” e o antirracismo, “também pelos brancos”.

Isso vai abrir imensamente sua mente e fazer você se perceber como alguém que pode ajudar todas essas pessoas na luta por um mundo sem discriminação e preconceito e muito mais livre.

 

Este artigo tocou você? Ajudou você a perceber que tem mais privilégios do que acreditava? Venha compartilhar suas impressões sobre o assunto comentando logo abaixo.

Gostou do artigo? Deseja mostrar para outros homens com as características mencionadas nele o quanto é importante e benéfico reconhecerem-se privilegiados? Compartilhe-o.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Thiago Souza

março 2 2017 Responder

Robson,

Em primeiro lugar: não sei se você viu, mas hoje acabei de contribuir com os seus projetos, basta só olhar na sua conta de poupança.
E, em segundo lugar, acho que o texto que você leu sobre neurodivergência/neuroatípicos e neurodiversidade (o que você pôs um link para leitura eventual no meio do texto) incitaria uma boa discussão. No entanto, há alguns dias, eu descobri este texto, chamado “Jogando fora as ferramentas do senhor”, de um autor chamado Nick Walker (disponível em seu blog Neurocosmopolitanism no inglês original, mas uma tradução em português está disponível em um texto chamado O Autismo em Tradução, blog com excelentes textos), e acredito que a leitura deste texto enriqueceria (e muito) a discussão.

https://autismoemtraducao.com/2016/11/11/jogue-fora-as-ferramentas-do-senhor-libertando-nos-do-paradigma-da-patologia/

    Robson Fernando de Souza

    março 2 2017 Responder

    Gratidão, Thiago! =) Fiquei feliz ao receber essa retribuição, e também ao saber que foi você. =)

    Tô lendo esse texto que você recomendou, parece ser muito bom. =)

    Abs!

      Thiago Souza

      março 3 2017 Responder

      Robson,

      Sinto que está feliz pela contribuição. Pretendo contribuir mais em breve – acho que seu trabalho é fortemente necessário para o mundo em que vivemos.
      Vc tem um e-mail para contatos? Queria trocar algumas ideias que parecem interessantes, que não sei se poderiam ser abordadas aqui, mas que ainda acho que a discussão delas seria vital.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo