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Uma foto com Lula, Brizola e Miguel Arraes e um relato de quando eu era um típico coxinha
Luciano Siqueira, Miguel Arraes, Lula e Leonel Brizola reunidos em Recife, em 1998. Fonte da foto: página de Luciano Siqueira (atual vice-prefeito do Recife) no Facebook

Luciano Siqueira, Miguel Arraes, Lula e Leonel Brizola reunidos em Recife, em 1998. Fonte da foto: página de Luciano Siqueira (atual vice-prefeito do Recife) no Facebook

Depoimento extraído da página do Consciencia.blog.br no Facebook e adaptado para o blog

Me sinto no dever de compartilhar a foto acima, extraída da página facebookiana de Luciano Siqueira, atual vice-prefeito de Recife, porque ela traz junto uma confissão constrangedora que, ao ver a foto, achei que era hora de trazer.

A confissão é que, naquele ano de 1998, com 11 anos de idade, eu era um autêntico coxinha. Um coxinha 15 anos antes do termo começar a ser usado com esse sentido.

Dando uma exceção na minha política de evitar termos pejorativos, falo “coxinha” aqui, ao invés de “antipetista de direita”, porque eu realmente era um daqueles mais estereotipados.

 

Minhas características, na época, de um autêntico e estereotípico coxinha

Coxinha, reacionário contraditório, falsa oposição à corrupção

Eu tinha muitas das características que atualmente, desde 2013, são atribuídas aos coxinhas propriamente ditos. Com 11 anos de idade, eu:

  • Odiava toda e qualquer esquerda, dizendo que era tudo “comunismo”. E claro, sequer sabia a definição de comunismo;
  • Achava que o socialismo autoritário de União Soviética e Cuba era a única esquerda – e a única vertente de socialismo possível – existente no mundo;
  • Me dizia “de direita” sem entender nada sobre o que ideologias de direita realmente pregam e defendem;
  • Odiava fanaticamente Lula, Brizola e Arraes e os chamava de “comunistas”. Detalhe: Arraes e seu neto Eduardo Campos, então secretário estadual da Fazenda, estavam preparando a Celpe (Companhia Energética de Pernambuco) para ser privatizada, e eu sabia disso;
  • Dizia que Lula e Brizola iriam “destruir o Brasil”, mesmo sem eu conhecer (nem, na época, ter tido a mínima vontade de conhecer) uma vírgula sequer do programa de governo dos dois;
  • Apoiava Fernando Henrique Cardoso, então candidato à reeleição, e Jarbas Vasconcelos, então candidato a governador de Pernambuco, com fanatismo e intransigência, por serem candidatos considerados de direita;
  • Amava o capitalismo e o consumo proporcionado pelo mesmo, mesmo não sendo nem de classe média-baixa na época, e não fazia as ligações entre a ordem capitalista e as desigualdades sociais no Recife e no restante do Brasil;
  • Não me comovia com as leituras sobre a história de opressão e desigualdades no Brasil, nos livros didáticos de História e de Geografia da época, a ponto de me conscientizar politicamente. E olha que os livros didáticos que eu lia me ensinavam que a história brasileia é permeada de autoritarismo, elitismo e injustiças;
  • Tinha como maior sonho subir à classe média-alta… para poder consumir como alguém de classe média-alta;
  • Acendia discussões políticas literalmente infantis na escola. Na época, eu estudava na hoje extinta Escola Recanto, que era de classe média e na qual eu estava graças a uma bolsa de estudo integral. Aliás, de politicamente infantil ali só tinha eu: meus colegas de classe, com seus 11, 12 ou 13 anos, tinham bem mais consciência das políticas ruins que FHC tinha adotado e de posturas odiosas dele, como chamar de “vagabundos” parte dos aposentados brasileiros;
  • Não gostava de ler nada que fossem revistas em quadrinhos e livros didáticos;
  • Discutia política sem estar pronto para rever posições minhas que fossem provadas como equivocadas e irreais;
  • Vivia reclamando dos problemas do Brasil sem saber, nem querer conhecer, as causas históricas deles;
  • Defendia “saúde e educação” ao mesmo tempo que apoiava candidatos que não valorizavam essas áreas enquanto serviços-direitos públicos;
  • Achava que a Veja, a Exame, a TV Globo e os jornais oligárquicos locais falavam “a verdade” sobre a política brasileira. A Folha de S. Paulo, o Estadão e O Globo não tinham e não têm grande circulação em Pernambuco (por serem de São Paulo ou do Rio de Janeiro), a revista Época ainda estava começando e a Istoé ainda não tinha se tornado uma revista tão reacionária;
  • entre outras peripécias de um completo analfabeto político.

 

Evolução política

Conscientização, a chave para o futuro

Mas felizmente o mundo dá voltas. E ao longo das milhares de voltas em torno do eixo da Terra seguintes, pude vivenciar um feliz processo de amadurecimento político-ideológico.

Demorei para me livrar da reprodução de crenças políticas bizarras, como achar que Lula era um “beberrão corrupto” e seu governo era culpado por uma suposta situação de desordem política no Brasil, alegadamente existente durante seu mandato. Mas enfim me livrei.

Em 2010, quando Dilma Rousseff se candidatou pela primeira vez à presidência, eu pude finalmente me reconhecer como alguém de esquerda, sedento de conhecimento sobre ideologias políticas. Isso apesar de meu péssimo costume, que persiste até hoje, de não dedicar regularmente um tempo do dia para leituras que não fossem da universidade.

E essa evolução foi prosseguindo ao longo dos anos, e nunca irá parar. Acredito que minha decisão recente de começar a ler livros de direita vai ajudar nela.

Não no sentido de que “vou evoluir virando à direita”. Mas sim que essa leitura vai me ajudar a desfazer mitos e espantalhos, e tornar os alicerces de minha posição política ainda mais profundos e os pilares ainda mais fortes.

 

No final das contas…

Miguel Arraes, Lula e Leonel Brizola

A Arraes e Brizola, meu pedido de desculpas por meu passado de analfabetismo político. A Lula, ainda tenho críticas, só que muito diferentes e mais racionais do que as de 1998

Fico ao mesmo tempo:

  • Feliz por ter me livrado de um comportamento tão vergonhoso, em se tratando de discutir política baseado em total ignorância e desinformação midiática;
  •  E triste por saber que literalmente milhões de brasileiros, a maioria deles já tendo se tornado maiores de idade, têm uma mentalidade supersemelhante, senão idêntica, à que eu tinha nos meus 11 anos de criança “coxinha”, com as mesmas características de analfabetismo político e alienação que marcaram a minha pré-adolescência.

Diante dessa relembrança, peço meu sincero e arrependido perdão à memória de Arraes e Brizola, por ter falado tão mal deles, naquela época, por motivos que estavam astronomicamente longe de serem racionais e bem fundamentados.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Everton Lourenço

agosto 26 2016 Responder

Me identifiquei demais com o seu relato, só que no meu caso foi um pouco mais tarde. Mas basicamente, quase chorei de ódio na primeira eleição do Lula; vibrei com cada nova edição da Veja na época do Mensalão (que, ironicamente, eu comprava para ler e reforçar meu elitismo e esperança de me tornar um homem rico, enquanto esperava, no caminhão do meu pai, entre uma entrega de material pra construção e outra), e esperei ávido pelo impeachment do Lula na época, então fui pego muito de surpresa pela reeleição dele. Em 2010 tava naquela onda de “não sou nem de Direita nem de Esquerda”, votei na Marina no primeiro turno “pq ela sim, representaria a diferença”, e nulo no segundo turno. Acho que foi só em 2011 que passei a ler mais sobre Direita/Esquerda, me questionar, rever conceitos e passei a me entender como um homem de Esquerda – e concordo completamente sobre como esse caminho de leituras e reflexões é algo para a vida. Também pretendo uma hora pegar para ler uns livros de Direita com a mesma intenção que vc, mas vou adiando isso, por que a lista de livros que pretendo ler antes disso só cresce.

    Robson Fernando de Souza

    agosto 26 2016 Responder

    Parabéns pela trajetória de amadurecimento, Everton =) Abs!

Newton

agosto 18 2016 Responder

Sem entrar no mérito de ideologias políticas, minha opinião é de que o caminho rumo à sabedoria é infinito e começa…hoje! E assim por todos os dias de minha vida.
Leia livros da Escola Austríaca de economia, são surpreendentes.

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