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set16

Defender o porte civil livre de armas e a radicalização da polícia é uma forma válida de demandar o fim da violência criminal?

"A única coisa que pode impedir um homem mau com uma arma é um homem bom com uma arma." Será mesmo?

Saiba se essas duas reivindicações fazem sentido como meios de acabar com a violência criminal

Aviso de conteúdo traumático: contém menções a crimes de ódio diversos, uso de armas, assaltos e violência policial.

Você tem acompanhado as discussões sobre a proposta de revogar o Estatuto do Desarmamento e liberar o porte civil de armas de fogo?

Tem também presenciado muita gente da classe média defendendo que a polícia seja ainda mais violenta contra os criminosos?

Se sim, você tem percebido que os defensores de ambas as posições dizem ter a intenção de demandar a diminuição da criminalidade no Brasil?

Perguntemo-nos então: essas reivindicações realmente podem acarretar na erradicação do crime no país?

Violência pode ser mesmo um remédio para violência?

Basta de violência!

De um lado, muitas pessoas defendem o uso da repressão e da autodefesa como meios de tornar nossa sociedade mais segura.

Do outro, argumenta-se convictamente que, como o tradicional ditado diz, violência gera violência.

Enfim, é realmente possível promover ações violentas como meio de acabar com crimes igualmente violentos?

 

A questão do armamento civil

Muitas vezes a ideia que se passa é que armar os civis vai fazer os bandidos terem medo de assaltar quem supostamente tem plenas condições de se defender. E que isso vai induzi-los a desistir da criminalidade como meio de sustento e enriquecimento.

Só que, como um artigo anterior meu mostrou com diversos dados e recomendações dos próprios órgãos de segurança pública, pessoas armadas e preparadas para reagir correm muito mais risco de serem mortas pelos criminosos do que aquelas que não portam armas nem reagem.

Nem os próprios policiais que andam armados fora do serviço estão protegidos. Pelo contrário, eles correm um risco absurdamente maior de serem assassinados tão logo tentem reagir a um roubo e/ou o agressor descubra que são da polícia.

Ou seja, armar os cidadãos vai torná-los muito mais vulneráveis e, por tabela, vai explodir as estatísticas de crimes como latrocínios (roubos seguidos de morte) e homicídios.

 

A questão da violência policial

Outra crença é que uma polícia mais linha-dura do que já é será muito mais capaz de combater o crime e fazer os criminosos terem medo de atacarem pessoas inocentes. Ou seja, assim como o armamento civil, essa demanda também tem como pressuposto o argumento de que o medo é uma maneira eficaz de impedir crimes.

Mas o problema é que nunca o recrudescimento da violência policial, no sentido de matar ou torturar bandidos, foi um fator redutor das estatísticas criminais. O próprio Brasil exemplifica isso.

As polícias militares do Rio de Janeiro e de São Paulo são as que mais matam no mundo inteiro. No estado do Rio, a PM matou 12 vezes mais pessoas do que em todos os Estados Unidos em 2015. E em SP, policiais mataram mais de 11.300 pessoas em 20 anos, versus 7.300 nos EUA inteiros nesse mesmo intervalo de tempo.

E esse derramamento de sangue vitima os próprios PMs. Nesses mesmos 20 anos, 1.248 soldados e oficiais foram assassinados no estado de São Paulo, seja em serviço ou em folga.

Apesar disso, a sensação de insegurança continua, e esses estados não são considerados seguros – o que é sentido especialmente nos bairros pobres das cidades.

Em SP os crimes só têm (supostamente) diminuído bastante para uma parcela da população – branca de classe média ou alta -, enquanto roubos e assassinatos contra pessoas pobres e negras continuam com índices inaceitavelmente elevados. E no RJ a situação é ainda pior.

Ou seja, mais violência civil e militar não ocasiona, de fato, menos violência de criminosos.

E como será mostrado a seguir, o contrário é que é verdadeiro.

 

Civis armados e policiais abusivos: mais criminosos e, por tabela, mais crimes

Violência policial contra acusados de crimes: quando a polícia também se torna bandida

Violência policial contra acusados de crimes: quando a polícia também se torna bandida

Algo que parece ser dificilmente compreendido pelos defensores do armamento civil e da radicalização policial é que ambas as medidas não só falham em trazer segurança, como também tendem a converter “cidadãos de bem”, sejam civis ou militares, em autênticos criminosos.

 

“Cidadãos de bem” convertendo-se em literais bandidos

Homens armados têm, literalmente em suas mãos, a oportunidade de serem ainda mais violentos contra suas companheiras, seus filhos, minorias políticas que eles odeiam e “inimigos” em brigas.

Ou seja, em momentos de ódio machista e misógino enfurecido, não pensarão duas vezes antes de ameaçar suas esposas, noivas ou namoradas de morte. Nem, em muitos casos, de cumprir essa ameaça.

Nem em matar seus oponentes quando estiverem no pico da fúria em brigas de bar, de trânsito e entre “amigos”.

Outro vetor de violência armada por “cidadãos de bem” é o crescimento do ódio político e social que se tem presenciado no Brasil ao longo dos últimos dez anos. É realista crer que muitos reacionários que vomitam intolerância na internet e chegam a agredir fisicamente seus opositores nas ruas não hesitarão em usar seus revólveres contra aqueles a quem declaram o seu mais cruel ódio.

E entre as vítimas preferenciais desses potenciais assassinos, estarão travestis e transexuais – que já são hoje vítimas de uma impune “campanha” de matança -, homossexuais, prostitutas, pessoas de esquerda, petistas, feministas, afrorreligiosos, ateus e membros de movimentos sociais.

 

Policiais sendo, e não combatendo, criminosos

Além dos civis, a tendência de radicalização da violência também tem feito policiais militares serem abusivos e, assim, aumentando ao invés de diminuir o número de criminosos em atividade no Brasil.

Têm sido muito numerosos os casos de policiais envolvidos em crimes como homicídio de inocentes, racismo, tortura, corrupção, constrangimento ilegal, ameaça, lesão corporal e, sobretudo, abuso de autoridade. E isso tende a piorar caso a polícia receba incentivos para ser ainda mais violenta e adepta de atitudes do tipo “Os fins justificam os meios”.

 

Um futuro ainda mais violento e repleto de criminosos: a distopia que está sendo construída por quem faz tais reivindicações

Um futuro com ainda mais criminalidade: esse será o Brasil real proporcionado por quem defende mais violência para "combater a violência"

Um futuro com ainda mais criminalidade: esse será o Brasil real proporcionado por quem defende mais violência para “combater a violência”

Esse Brasil no qual os cidadãos andem armados e os policiais sejam ainda mais cruéis do que hoje é uma autêntica distopia. E nesse possível futuro condenado, haverá ainda mais crimes e, também, criminosos.

As razões para se cometer assaltos, homicídios, sequestros, estupros, furtos, tráfico de drogas e armas e outros crimes persistirão não sendo eliminadas. E os civis e militares autorizados a usar de violência em nome da segurança aumentarão o número de bandidos, ao invés de diminuir, já que eles mesmos estarão cometendo seus próprios crimes.

Ou seja, os defensores da crença de que “violência diminui violência” estão contribuindo para que o Brasil se torne um país ainda mais violento, inseguro e assombrado pelo medo. Além de ser dominado por valores morais que exaltam a violência, a discriminação, o autoritarismo, a corrupção, a exclusão social e a falta de empatia e respeito pelo próximo.

Interpelemos então essas pessoas. Como elas provam que a violência é uma ferramenta válida de controle e erradicação do crime? Como elas defendem que os abusos militares e civis sejam impedidos? E como podem provar objetivamente que o medo pode coagir bandidos a deixarem de sê-lo? Elas precisam responder a essas perguntas caso queiram ter seus argumentos levados em consideração.

imagrs

6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Runnerba

novembro 4 2016 Responder

AUTODEFESA NUNCA FOI E NUNCA SERÁ CRIME, AMIGUINHOS. NIVELAR MORALMENTE UM BANDIDO QUE USA DA FORÇA PARA APROPIAR-SE DO QUE FOI CONSEGUIDO COM TRABALHO HONESTO É UM FATOR QUE IMPEDE QUE O BRASIL SE DESENVOLVA, NÃO A “EDUCAÇÃO” NÃO.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 4 2016 Responder

    Se educação não resolve nada (foi o que entendi do seu texto), conte-nos então como resolver um problema sem sequer tocar em suas causas.

Runnerba

novembro 4 2016 Responder

Comentário grosseiro, que desmerece o meu texto sem nenhuma refutação válida, apagado. Volte aqui quando souber discordar com educação e apresentar provas reais do que diz ao invés de falácias e desrespeito ao trabalho alheio. RFS

Edson Fabiano

outubro 17 2016 Responder

Bom dia! Acredito sim que o armamento seja a solução sim, mas também acredito que o que deveria ser mudado são as leis, essas que jamais serão reformadas, pelo simples fato de que em contrapartida, prejudicaria muitos políticos corruptos. Sobre a criminalidade no RJ primeiro temos que decidir quem são os verdadeiros bandidos, porque em minha opinião as polícia de lá é quem gera mais ódio entre a população, no entanto, se algo não for feito aqui e agora continuemos a andar com caças em um país supostamente Democrático.

Luciano

setembro 18 2016 Responder

A longo prazo a educação é a melhor saída e a curto prazo leis mais duras, eu não sou a favor do abuso de autoridade porem do jeito que tá não dá para aguentar. Somente leis mais duras é que vão mostrar para a bandidagem que a “festa acabou”.

Beto Fernandes

setembro 6 2016 Responder

Bom, a única coisa que derruba a violência é uma educação de qualidade, 100% pública para todos.
Enquanto tivermos essas escolas particulares e esse sistema de vestibular, nunca seremos um país desenvolvido.

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