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out16

Primeiro turno das eleições de 2016: depois da decepção, precisamos reconstruir a esperança e a esquerda

Nunca pare de lutar. A essência da esquerda é a luta por um mundo melhor.

Adaptado e editado de postagem no meu perfil pessoal e na página do Consciencia.blog.br. Este artigo é uma exceção que dei nas minhas férias, as quais vão durar até 31 de outubro

Esse primeiro turno de eleições municipais foi de um imenso sofrimento e frustração para a esquerda brasileira.

Assistimos, muito consternados, à vitória do empresário tucano João Doria no primeiro turno em São Paulo, ao aprofundamento da decadência do PT no país inteiro, ao revigoramento do PSDB e do PMDB… enfim, à continuação do franco crescimento da direita partidária no país.

Só o Rio de Janeiro, entre as grandes cidades, vivenciou um crescimento resistente da esquerda, com Marcelo Freixo no segundo turno e a eleição de vários vereadores do PSOL.

Diante desse quadro eleitoral, a reação de boa parte, talvez a maioria, da esquerda tem sido de puro derrotismo e resignação. Vi diante dos meus olhos, na noite do dia 2 de outubro e no dia seguinte, uma parcela da esquerda que morreu por dentro. Tendo deixado de alimentar nas pessoas e em si mesma os sonhos de um mundo melhor e o propósito de lutar por esses sonhos, ela simplesmente perdeu o sentido de existir.

Aí nos perguntamos: e agora, o que fazer? Eu respondo: vamos sentar juntos para responder a essa indagação, e me permita trazer minhas sugestões.

 

A parcela da esquerda que continua firme na luta

Feministas protestam, no Rio de Janeiro, contra projetos de lei misóginos encabeçados pelo então presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha

Acredito que é essencial, para buscarmos responder o que fazer a partir de agora, buscarmos inspiração na parcela da esquerda que continua lutando, que nunca se deixou baixar a cabeça e aceitar a tal chegada dos “tempos sombrios” de hegemonia absoluta da direita.

Numa hora como essa, olho feliz e esperançoso – e espero de coração que você também se sinta inspirado(a) para olhar junto comigo – para a parcela que continua na luta, se recusa veementemente a baixar a cabeça e continua lutando e resistindo num país em que a direita avança.

Esse é o lado da esquerda brasileira que resiste, seja focada nas reivindicações de nível micro, como aumento de salários e implantação de planos de carreiras e salários, seja em luta contra os retrocessos de direitos que Michel Temer e governos estaduais e municipais ameaçam trazer – e, se depender do lado derrotista da esquerda, trarão sem ser impedidos ou dificultados.

É parte que persiste em sonhar e construir um mundo melhor, que rejeita aguerridamente que o medo e a desesperança tomem de assalto o mundo e matem aqueles sonhos tão lindos do final do século 20.

Entre essa esquerda que resiste, incluo, com muita admiração e prestando meus sinceros elogios:

  • Aos adolescentes das escolas estaduais de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e outros estados que ocuparam em luta esses espaços, contra o fechamento arbitrário e antidemocrático desses locais e a privatização ou militarização da gestão escolar;
  • Às feministas que lutaram contra o agora ex-deputado Eduardo Cunha, contra as medidas misóginas encabeçadas por ele em 2015, e ajudaram a desmoralizá-lo perante a maioria da população brasileira;
  • Às feministas cariocas que escancararam que o ex-candidato a prefeito Pedro Paulo é um agressor de mulheres e, assim, conseguiram numa linda vitória fazer com que ele não fosse para o segundo turno no Rio de Janeiro;
  • Aos movimentos sociais de minorias políticas que, apesar de diversas rixas internas, vêm crescendo imensamente nas redes sociais e nas universidades, cativando a juventude e promovendo um debate cada vez mais forte na sociedade;
  • Aos bancários em greve, aos professores universitários que estão também organizando uma greve nacional, aos funcionários dos Correios que lutam da mesma maneira, e a todos os demais trabalhadores que se recusam a ver seus sonhos serem pisoteados pelos governantes golpistas e antidemocratas;
  • Ao PSOL, que tem sido o bastião de resistência da esquerda partidária no poder legislativo e executivo no Brasil. Que não se deixa desiludir da possibilidade de realizar mudanças por meio da política representativa para que, mais adiante, uma mudança mais sistemática e avançada seja viabilizada a partir do seio do povo. Merece destaque honroso o PSOL do Rio de Janeiro, que obteve uma vitória histórica com Freixo no segundo turno – e elevadas chances de ser eleito – e seis vereadores.

 

A outra parcela, a derrotista, da esquerda

Derrotismo, segundo o Dicio.com.br

A metade resistente da esquerda, que me traz vívidas esperanças pelo futuro, contrasta severamente com o que eu tenho visto no Facebook e em diversos sites progressistas desde o ano passado: a outra metade, a esquerda de alma derrotada, convertida numa borrada sombra do que era nos anos 80 e 90.

Que rasteja na resignação, no medo, na desesperança e na crença de que “as trevas” irão dominar o Brasil e nada mais pode ser feito, fora sentar, chorar, lamentar nas redes sociais e esperar que o pior aconteça individual e coletivamente.

Uma esquerda que, por ter perdido sua essência – que é sonhar com um mundo melhor, vislumbrar um futuro gostoso para todos e lutar incansavelmente por ele, por mais que sofra derrotas e decepções no percurso -, morreu por dentro e dela só restou uma casca morta-viva.

E nesses dias eu pude ver de novo essa onda de “trevas espirituais” nessa parcela da esquerda, já que a direita avançou na maioria das prefeituras. De novo grassou potente o discurso da vergonha, da tristeza, de achar que não é mais possível fazer nada, de que tempos tristes e sombrios despontam invencivelmente no horizonte.

A partir dessa realidade, eu percebo que o nosso problema não é apenas que a direita tem crescido. Mas também que, paralelamente, grande parte da esquerda tem decaído em queda livre e não oferece mais uma alternativa válida e palpável de projeto político para o povo como um todo, que atualmente tem medo do futuro e quer representantes que lhes satisfaçam as emoções mais nervosas e urgentes em meio a essa epidemia de incertezas.

É uma esquerda que, por causa de:

  • Brigas internas fratricidas;
  • Foco no que os “aliados” de espectro ideológico têm de pior e pensam diferente ao invés do que têm de melhor e pensam parecido;
  • Evasão em massa do sistema político representativo sem se construir e defender nenhuma alternativa realista alcançável a curto ou médio prazo;
  • Purismo ideológico e falta de tato social;
  • Sectarismo radicalizado;
  • Carência de trabalhos de base nas comunidades pobres;
  • Encastelamento nas universidades, em espaços restritos das redes sociais e em sites progressistas de médio alcance, parecendo haver uma fobia de ir nos bairros pobres e favelas para conversar com as classes populares e ouvi-las atentamente;
  • Falta de objetivos a curto, médio e longo prazos etc.

obviamente não tem futuro nenhum fora a nulidade e irrelevância no panorama político brasileiro.

 

Esperança! Como ressuscitá-las dentro de nós

No desapontamento, a esperança nasce.

Nessa hora de resignação dessa parcela da esquerda, não sei se vou ser bem entendido, mas direi:

Não percamos a esperança!

A esperança somos nós!

Não esperemos a esquerda se reconstruir à nossa revelia.

Vamos reconstruir nós mesmos a esquerda (ou melhor, essa metade dela que morreu)!

A hora não é de desistir e dizer “Olá, escuridão, minha velha amiga”. Mas sim de parar pra refletir e debater com nossos iguais:

  • O que deu errado na esquerda?
  • Por que ela não decola?
  • Por que essa parcela da esquerda não está incluindo as classes populares, mas sim apenas um pedaço da classe média urbana?
  • O que precisa ser mudado ou melhorado?
  • E sobretudo: Como ressuscitar a esquerda antissistema, anticapitalista e pró-democracia popular?

 

Depois do luto, que venha a reflexão, a autocrítica e a reconstrução

Fazer uma reflexão de como estamos agindo e no que estamos errando ou acertando é sempre muito bom

Não podemos desistir. Precisamos fazer a autocrítica da esquerda e mudar aquilo que precisa ser mudado. Renová-la. Conquistar o apoio da maioria da população.

Cativar as emoções, sonhos e anseios das outras pessoas. Mostrar que elas precisam lutar por seus direitos, sonhar com um futuro melhor e ser o povo o único soberano de si mesmo. Aprender com quem continua lutando de cabeça erguida.

Fazer com que as pessoas compreendam nossas posições, percebam o que elas têm a ver com as lutas sociais históricas e se identifiquem com a esquerda. Ou melhor, fazer com que a esquerda brasileira como um todo não exista mais tão separada do povo humilde e avessa a ele quanto a direita empresarial e partidária.

Espero que, depois do luto da noite do dia 2, isso comece a acontecer, mesmo que pouco a pouco. E podem ter certeza de que eu quero muito contribuir com essa reconstrução da parcela degradada da esquerda, e me aliar com a que continuar forte e resistindo. E sei que você poderá, com a devida mudança de atitude, aderir e fazer o mesmo.

Se o sistema político representativo falhou, vamos construir um novo ainda mais democrático e popular, que ainda não existe por aqui. Se o capitalismo é abominável, vamos construir um sistema econômico alternativo que seja viável no mais breve possível e não precise de décadas à frente para ser possibilitado.

Se a direita é elitista, preconceituosa, antipopular e demagógica, vamos ser a contraparte dela e provar à sociedade como um todo nosso valor e os porquês de sermos melhores para as classes populares do que os empresários, ideólogos, pastores e políticos conservadores, moralistas, pró-capitalistas e liberais econômicos.

Vamos compartilhar nossos conhecimentos, dar o melhor de cada um(a) de nós. E fazer tudo aquilo que seja possível para que a esquerda como um todo volte a ser competitiva perante a direita e se funda verdadeiramente com o povo e seus interesses coletivos.

Ou seja, que toda a esquerda volte a sonhar, lutar por esse sonho e inspirar que as pessoas em geral sonhem também.

Então…

Vamos à luta!

coracao

imagrs

16 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Ednei

novembro 22 2016 Responder

Que blog maravilhoso!
Nao conhecia: parei pra ler um post e li 3 , de vez…

Parabens! Maravilhoso!

    Robson Fernando de Souza

    novembro 22 2016 Responder

    Gratidão, Ednei =D Abs!

Wagner

novembro 17 2016 Responder

Excelente blog, parabéns Deus te abençoe!

    Robson Fernando de Souza

    novembro 17 2016 Responder

    Valeu, Wagner =) Abs!

haroldo

novembro 4 2016 Responder

artigo interessante, São Paulo é o Estado mais reacionario da União
http://provosbrasil.blogspot.com.br/2014/10/sao-paulo-o-estado-mais-coxinha-reaca.html

haroldo

novembro 4 2016 Responder

Robson, eu elogio bastante seu trabalho, você sim é um exemplo de lutador incansavel

    Robson Fernando de Souza

    novembro 4 2016 Responder

    Gratidão, Haroldo. ^^

Ana Maria

outubro 28 2016 Responder

faz um post sobre a Pec 241, por favor!!!

Ronaldo

outubro 25 2016 Responder

Ponto para reflexão: o que foi derrotado não foi a esquerda, nem mesmo existe direita declarada no Brasil, o que foi derrotado foi a idéia de corrupção para se manter no poder a qualquer custo, é é isto que precisa mudar.

Newton

outubro 15 2016 Responder

Não fiquem tristes. Não existem partidos de direita verdadeiros no Brasil. PSDB e PMDB também são de esquerda.

Guilherme Tuani de Amorim

outubro 7 2016 Responder

Que interressante foi esse primeiro turno no Rio de Janeiro.
O interessante é que Crivela só ganhou em bairro pobre no Rio; então foi na maioria dos bairros da Zona Norte e na maioria dos bairros da Zona Oeste (excluindo Barra e arredores) e nenhum “bairro nobre e semi-nobre”. Pedro Paulo do PMDB na Barra e arredores (bairros ricos da Zona Oeste). Osório do PMDB ganhou em Leblon e Ipanema (bairros da Zona Sul). Freixo ganhou em alguns bairros pobres na Zona Norte e Oeste; mas onde ele mais ganhou foi em muitos bairros nobres e “semi-nobres” na Zona Sul (Copacabana, Lagoa, Urca, Botafogo, Flamengo, Cosme Velho, Laranjeiras, Jardim Botânico).
Há muita diferença no Rio entre Zona Sul e Zona Norte; Zona Norte é predominante pobre, Zona Sul é predominantemente rica (é onde está maior parte da “área turística principal” da cidade é onde estão o Cristo e o Pão de Açúcar).

Link do mapa eleitoral no primeiro turno do Rio: http://especiais.g1.globo.com/rio-de-janeiro/eleicoes/2016/apuracao-zona-eleitoral-prefeito/rio-de-janeiro/1-turno/

Rodolfo

outubro 5 2016 Responder

Muito obrigado pelo texto!
Estava me sentindo derrotado desde domingo e esse texto me trouxe muita reflexões e já estou pensando em como contribuir com a esquerda ao invés do derrotismo

Heloisa Helena Godinho Salgado

outubro 4 2016 Responder

Valeu, Robson! Vamos lamber as feridas, respirar fundo e RECOMEÇAR.

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