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nov16

O que a charge do sucesso das “lojas de ódio” pode nos fazer refletir sobre a esquerda de internet brasileira

Charge em que lojas dão show de vendas vendendo ódio, intolerância e preconceito, enquanto uma pequena barraca de sonhos e amor definha com pouquíssima gente

Você chegou a ver a imagem acima?

Ela foi bastante compartilhada no Facebook em 9 de novembro passado, depois do anúncio da vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos.

Ela mostra “lojas” que comercializam intolerância, discursos de ódio e preconceito lotadas e dando “show de vendas”, enquanto, em contraste, apenas uma barraca dá, gratuitamente mesmo, sonhos e amor, mas está quase vazia, com apenas uma mulher vendo-a a alguns metros de distância.

Talvez você tenha sentido comoção com essa charge. E com razão, pois, afinal, o medo e o ódio têm tomado o lugar, assustadoramente, da esperança e dos sonhos de um futuro melhor para todos.

A figura pode nos ajudar a refletir sobre a esquerda brasileira, qual tem sido o papel dela nesses tempos tão descritos como atipicamente sombrios. Afinal, nos provoca algumas perguntas, que precisamos responder:

A barraca de sonhos representa a esquerda brasileira das redes sociais de hoje e sua luta por justiça social, igualdade, sustentabilidade e diversidade?

Essa esquerda virtual de 2016 realmente se contrasta com a direita radical “vendedora” de preconceito e intolerância, tal como o desenho pode deixar a entender para alguns? Tem distribuído “boas vibrações” e sentimentos positivos?

Podemos ir além de uma mera barraquinha sem sucesso, em se tratando de prover esperança, sonhos e amor ao mundo?

 

A esquerda virtual hoje

Butt-head e Beavis brigando

Para respondermos a essas questões, observemos as páginas e grupos/fóruns de esquerda e nossos contatos que têm ideias progressistas, no Facebook, Twitter e outras redes sociais.

Essas pessoas e locais realmente têm tentado propagar sonhos e amor? Têm se esforçado em manter alimentada a esperança de um mundo melhor?

Aliás, você vê uma carga de esperança no que a maioria das pessoas e páginas que se consideram de esquerda têm postado na internet?

Isso poderá lhe trazer a resposta. E para ajudar você, eu vou responder com base no que eu tenho observado na maioria das páginas de esquerda ativas e entre meus contatos pessoais no Facebook.

E o que eu presencio atualmente por lá não tem nada a ver com uma barraca dos sonhos e do amor que luta para interessar as pessoas.

Pelo contrário, o que vejo é uma esquerda virtual perdida, desnorteada e, por causa disso, mergulhada nas trevas da violência verbal e da impotência.

Não vejo mais nenhum sonho ser manifestado direta e verbalmente por ela. Pelo contrário, só lamentos, lamúrias que anunciam que o mundo virou uma grande terra arrasada e que “tempos sombrios virão”.

 

Brigas internas

Nessa atonitez diante de um mundo “mordoriano”, muitas pessoas desesperançosas brigam umas com as outras, em verdadeiras guerras de facção. Isso tem acontecido, por exemplo, entre a esquerda dita “pós-moderna” e a marxista, entre feministas radicais e transfeministas, entre reformistas e revolucionários “puristas”, entre anarquistas e comunistas, entre defensores do PSOL e críticos do partido etc.

E quando falo de “brigar”, não me refiro a meros debates acalorados baseados em discordâncias teóricas. Mas sim a:

  • Agressões verbais propriamente ditas;
  • Exposição pública de indivíduos para fins de constrangimento e difamação;
  • Listas de pessoas da militância “adversária” a serem boicotadas, bloqueadas e consideradas inimigas;
  • Brigas feias em reuniões e assembleias;
  • Críticas destrutivas mútuas;
  • Peripécias autoritárias por parte de indivíduos abusivos;
  • Violências opressoras dentro da própria esquerda, como no caso dos esquerdomachos, dos elitistas que esnobam pessoas de fora da universidade e daqueles que, na tentativa de falar em nome do povo pobre, fazem especulações preconceituosas sobre os desejos, sentimentos e ações dele;
  • Intolerância contra determinadas causas, como a maioria da esquerda contra o veganismo e os Direitos Animais; muitos marxistas contra movimentos de minorias políticas; socialistas autoritários contra vertentes democráticas e libertárias de esquerda etc.;
  • Entre outros tantos flagelos de impressionante violência.

Isso sem falar naqueles que não têm paciência nenhuma com quem defendeu o impeachment de Dilma e acredita de maneira quase incondicional na imprensa. São comuns as declarações de ódio, os memes ofensivos, os xingamentos explícitos, contra aqueles cuja crença política favoreceu a derrubada de Dilma Rousseff e a ascensão da direita conservadora e neoliberal.

 

Discursos elitistas, preconceituosos e distantes do povo humilde

Outro problema muito grave tem sido a fraqueza do diálogo com as classes populares. Os trabalhos de base, que haviam sido tão importantes no processo de transição da ditadura civil-militar para a redemocratização, parecem ter parado ou se tornado raros.

Ao invés de ouvir o que o povo humilde das periferias e do campo pensa e tem a dizer sobre o estado de coisas da política e da ordem social de hoje, prefere-se especular e imaginar o que os pobres estariam pensando. Uns dizem que são meritocratas e conservadores assumidos e elegeram prefeitos de direita “porque quiseram”. Outros lhes dedicam “pena” e os culpam com dedo indicador em riste pelo resultado pró-direitista nas eleições municipais de 2016.

Além disso, abundam as tentativas de explicar o que está acontecendo com linguagem acadêmica e jargões universitários. Termos em inglês, alemão ou francês e eruditismos em português compreensíveis apenas para estudantes veteranos, graduados e professores de cursos de ciências humanas aparecem aos montes nas conversas, debates e brigas. Não é necessário explicar por que tais discursos não chegam aos bairros pobres, às favelas, aos conjuntos habitacionais.

E propostas de revolução armada pipocam aqui e ali em grupos estudantis e virtuais de marxistas ortodoxos e anarquistas. Juram que só a “revolução do proletariado” salva, só que nunca combinam isso com os próprios trabalhadores.

Em outras palavras, a esquerda das redes sociais tem sido um clube de universitários e profissionais liberais de classe média, fechado para a inclusão social. Quando não está mergulhada em brigas internas, está pregando para os convertidos em “academiquês”, semeando desespero e impotência no feed de notícias ou tentando interpretar o mundo a partir de pensamentos estagnados do século 19 ou da primeira metade do 20.

Cá para nós, isso não parece de jeito nenhum com uma barraca ou “loja” que distribui sonhos e amor. Pelo contrário, está mais para uma confraria fechada onde se troca violência, desavença, sectarismo, exclusão social, desesperança e amargura e não há vagas para “forasteiros” que não foram “iniciados” no clube.

De jeito nenhum uma esquerda nesse estado terá qualquer condição de derrubar presidentes ilegítimos, forçar mandatários de direita eleitos a renunciarem e construir alternativas plausíveis e realistas de governo ou autogoverno. Tampouco de fazer as pessoas voltarem a sonhar e ter ou construir a esperança pelo futuro.

 

Construindo não uma barraca, mas sim uma imensa feira gratuita de sonhos e amor

Greater Springfield Farmers' Market

Acredito que a barraca realmente exista, metaforicamente falando. Afinal, ainda há aquelas pessoas que persistem em aconselhar às pessoas para que não deixem seus sonhos de um futuro melhor para o mundo morrerem.

E considerando que nem a esquerda virtual tem dado bola para a tal barraca, ela tem andado vazia, quando se trata de frequentadores das redes sociais. Mas há duas felizes colocações a fazer, que tornam essa baixa frequentação algo não generalizado.

Primeiro, as ocupações de escolas e universidades e a construção de uma greve geral contra o golpe e suas medidas autoritárias e antipopulares são uma prova de que, fora das trevas de desesperança do Facebook, a barraca dos sonhos continua sendo bastante frequentada em alguns momentos. As pessoas, entre elas alunos, professores e funcionários, que participam dessas intervenções ou as apoiam não estão deixando que os golpistas do PMDB e a direita radical lhes matem as esperanças.

E segundo, é possível, inspirados nessa luta, construirmos não só uma barraca, mas sim uma feira imensa inteira de dar presentes de sonhos e amor. Para isso, precisamos:

  • Refletir sobre onde foi que a esquerda errou e por que ela não cresceu a ponto de se tornar competitiva em relação à direita;
  • Fazer as devidas autocríticas sobre esses erros, inclusive as questões em que nós como indivíduos ou membros de coletivos erramos ou nos omitimos ao longo desses anos;
  • Nos desvencilhar dessa insistente dependência do PT, o qual há tempos só tem trazido decepções e derrotas, apanhou feio da direita nos últimos anos, insiste em não se reconstruir e, apesar de tudo, ainda é visto como uma “esperança” por quem insiste em ter fé na eleição de Lula ou Fernando Haddad em 2018 como a “salvação” para o progressismo no Brasil;
  • Nos dispor a construir, mesmo que do zero, uma proposta sólida e madura de sistema político, social e econômico que supere os erros do “socialismo real” do século 20 e as limitações e fraquezas da socialdemocracia;
  • Investir em trabalhos de base, nos quais ouçamos o povo humilde e suas demandas e façamos dele protagonista das lutas sociais e políticas no Brasil;
  • Desencastelar a esquerda brasileira, fazendo-a sair da reclusão nas universidades, falar com os trabalhadores e entendê-los de verdade;
  • Abandonar a postura, ainda adotada por parte dos irreligiosos da esquerda, de ver a religiosidade popular (evangélica, católica, protestante histórica, umbandista e candomblecista, espírita, sincrética etc.) como um “mal a ser combatido”, focando-nos, ao invés, em enfrentar o canto da sereia do fundamentalismo religioso e aproveitar o que as religiões têm de bom a ensinar e oferecer aos sonhos de um futuro melhor;
  • Arquitetar meios de driblar a influência da mídia e alcançar o máximo possível de pessoas das classes populares e médias por meio de portais de comunicação, blogs, canais de vídeo etc.;
  • entre outras providências possíveis que reconstruam, deselitizem e popularizem a esquerda no Brasil.

Com o passar dos anos, poderemos ver a barraquinha pouco frequentada se tornar tão grande quanto um shopping. E enfim poderemos competir com as “lojas” de preconceito, ódio e intolerância. E, por tabela, afastar essas trevas de impotência e desesperança que hoje estão infestando as redes sociais.

 

Este artigo trouxe para você alguma ideia nova sobre o estado atual de parte da esquerda brasileira? Ajudou você a pensar como tomar uma atitude de combate aos “tempos sombrios”? Comente logo abaixo e compartilhe-o.

imagrs

11 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Esther

novembro 24 2016 Responder

Penso que a própria Esquerda é, em boa parte, responsável pelo acirramento entre diferentes setores da sociedade que estamos vendo hoje. O principal, digamos assim, “dogma” da Esquerda é a luta de classes (donos dos meios de produção X trabalhadores, ou opressor X oprimido). Durante um governo de Esquerda que durou quase 14 anos, assistimos os conflitos sociais se acirrarem cada vez mais em nosso país. Vimos conflitos entre índios e garimpeiros, entre sem-terras e latifundiários, entre estudantes e policiais, entre outros.

Acredito que a Esquerda já demonstrou que, assim como a Direita, ela não representa um ideal saudável de vida para a humanidade. Não é um bom caminho para construir uma sociedade próspera, solidária, pacífica e segura, onde todos tenham seus Direitos Humanos respeitados. O que eu proponho fazer é o seguintes: devemos nos perguntar: “Quais são os melhores países do mundo para se viver e o que eles fizeram para se tornar o que são hoje?” E então, copiar o caminho trilhado por estes países.

Dei uma pesquisada rápida na internet, e encontrei a seguinte lista. Os melhores países do mundo para se viver são, nesta ordem:

10- Finlândia
9- Islândia
8- Nova Zelândia
7- Estados Unidos
6- Canadá
5- Dinamarca
4- Suíça
3- Noruega
2- Suécia
1- Austrália

Fonte- http://oglobo.globo.com/economia/os-10-melhores-paises-para-se-viver-16346526

Nenhum destes países é socialista. Todos eles possuem em comum um Estado de Bem Estar Social, que respeita a livre iniciativa, que promove um ambiente economicamente de sucesso e, acima de tudo, que respeita os Direitos Humanos (com a vergonhosa exceção dos Estados Unidos, que ainda pratica a pena de morte e, ainda pior, adota o uso de tortura contra prisioneiros acusados de terrorismo).

Não é melhor apostar nossas fichas em sistemas que já demonstraram que dão certo (por exemplo, eu defendo o modelo econômico dos países nórdicos- Noruega, Dinamarca, Finlândia, Islândia e Suécia) em vez de continuar apoiando um sistema anacrônico, que já causou muitas mortes, autoritarismo e sofrimento?

Pense nisso.

    Esther

    novembro 28 2016 Responder

    E o meu comentário foi solenemente ignorado e ficou sem resposta. Será que foi por falta de argumentos?

      Robson Fernando de Souza

      novembro 29 2016 Responder

      Foi por falta de tempo mesmo.

      A saber, o sistema capitalista misto com Estado de bem-estar social é agradável, mas mostrou-se limitado e pouco sustentável, no sentido de sustentabilidade ambiental, dependência do crescimento do consumo e suscetibilidade a crises. O que não quer dizer, porém, que o neoliberalismo, que veio pra sucedê-lo, fosse melhor – muito pelo contrário, foi terrivelmente pior.

É mesmo?

novembro 24 2016 Responder

“E de jeito nenhum uma esquerda nesse estado terá qualquer condição de derrubar presidentes ilegítimos, forçar mandatários de direita eleitos a renunciarem (…).”

Critica governos ilegítimos enquanto pretende forçar a renúncia (renúncia forçada é eufemismo para coups d’état?) de “mandatários de direita eleitos“. Quanta hipocrisia…

    Robson Fernando de Souza

    novembro 24 2016 Responder

    O que dizer sobre governantes ruins de direita pressionados pelo povo a renunciar? É isso a que o texto se refere.

      Alex

      novembro 24 2016 Responder

      “O que dizer sobre governantes ruins de direita pressionados pelo povo a renunciar?”

      O mesmo que os eleitores da Dilma falaram nos protestos pró-impeachment, ou a pressão popular só é válida quanto os manifestantes forem de esquerda?

        Robson Fernando de Souza

        novembro 25 2016 Responder

        Eu falei de exigir renúncia por motivos de mau governo, e não de apoiar impeachment por motivos inválidos e seletivos.

          Alex

          novembro 25 2016

          Mas o governo da Dilma foi mau, aliás péssimo!

Thiago Souza

novembro 24 2016 Responder

Robson, uma nota sobre a charge: a mulher da barraca vendendo “sonhos” e “amor” parece ser Amélie Poulain, personagem principal do filme francês de 2001 de mesmo nome. E a inscrição no canto inferior direito da charge também parafraseia o filme, dizendo “São tempos difíceis (para os sonhadores)”, uma frase que é dita durante o filme.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 24 2016 Responder

    Valeu pelo complemento, Thiago =) Abs!

    haroldo

    novembro 27 2016 Responder

    uma Amelie Poulain e milhares de Marine Le Pen

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