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Fascismo e comunismo: o que realmente significam e por que não usar indiscriminadamente esses termos

Comunismo e fascismo: dois termos muito banalizados e desconceitualizados

Nos discursos políticos de senso comum, talvez você tenha percebido algo incômodo, ou mesmo incida nesse algo.

Na direita, chama-se a torto e a direito pessoas de esquerda de “comunistas”, e políticas que destoem do conservadorismo radical e do neoliberalismo de “comunismo”.

E na esquerda, muitos vivem chamando políticos e cidadãos adeptos de políticas e atitudes antidemocráticas quaisquer de “fascistas”.

Quando você vê ou ouve esse tipo de atitude, caso não a reproduza, talvez se pergunte: alguém que incide num desses comportamentos conhece de verdade os conceitos políticos do comunismo ou do fascismo?

Saiba por que essas pessoas não sabem realmente o verdadeiro significado desses termos, e como isso prejudica a qualidade dos debates políticos e pode até trazer riscos à democracia.

 

Os “conceitos” que parte da direita e da esquerda atribuem, respectivamente, ao comunismo e ao fascismo

Senso Comum, charge de Benett

Tenho visto esquerda e direita incidindo nesse mesmo vício de usar termos considerados monstruosos sem nenhum zelo ao conceito histórico deles.

Do lado direito, o “comunismo” recebe definições que podem ser inferidas como:

  • Qualquer bandeira e reivindicação de esquerda considerada “radical demais” para os conservadores aceitarem ou tolerarem, mesmo que tenha origem liberal-social ou socialdemocrata;
  • Toda e qualquer forma de afronta ao status quo;
  • Um sistema político, social e econômico baseado num Estado superpesado e totalitário, que mergulhava a população na miséria e na total ausência de liberdade, beneficiava apenas a elite do partido único e criminalizava qualquer ação econômica considerada capitalista;
  • Tudo o que há de ruim na política e é defendido pela esquerda;
  • Políticas sociais que incomodam conservadores;
  • Tudo aquilo que desafie e ameace demolir a “ordem natural das coisas” na sociedade;
  • Toda e qualquer forma de socialismo etc.

E do esquerdo, são tachadas de “fascismo” atitudes e ideias como:

  • Toda e qualquer demonstração de autoritarismo político de direita;
  • Reacionarismo no geral;
  • Visões convictamente conservadoras da moral e da ordem social e política vigentes;
  • Medidas políticas marcadas por não ouvir a população, como aumentos de tarifas do transporte público;
  • Presença do Estado exclusivamente como força repressiva nas comunidades pobres;
  • A ditadura civil-militar de 1964-85 e sua defesa;
  • Todo e qualquer militarismo e nacionalismo de direita etc.

Todas essas definições são subjetivas e baseadas em senso comum. E representam uma banalização conceitual que, como falarei mais adiante, atrapalha muito as discussões políticas e pode ser mais perigosa e inconsequente do que se imagina.

Diante disso, é mais que válido buscar os conceitos objetivos dessas duas palavras.

 

O que realmente é o comunismo?

O que o comunismo realmente defende. Slide de Antônio Clemente

Slide de Antônio Clemente

A definição básica, original e ideal do comunismo é aquela dada por Karl Marx e Friedrich Engels, no Manifesto do Partido Comunista.

O comunismo, na época de Marx e Engels, era um movimento que visava a revolução política, com o objetivo de acabar com a concentração da propriedade dos meios de produção nas mãos dos grandes empresários.

Após a revolução, na qual o poder capitalista seria derrubado, os trabalhadores assumiriam o Estado e, por meio dele, promoveriam políticas de desconcentração da renda, da riqueza e dos meios de produção.

E, quando as desigualdades sociais, econômicas e políticas fossem completamente abolidas, o Estado seria suprimido em favor de uma sociedade sem classes e sem um governo superior.

Essa sociedade sem Estado e sem estratificação social é que seria a sociedade comunista. Antes dela, o governo transicional seria socialista.

O que houve nos países que o senso comum diz que eram “comunistas” foi a eliminação da essência comunista das revoluções que aconteceram nessas nações.

Ao invés de Estados transicionais governados pela classe trabalhadora, o que foi instaurado foram regimes autoritários. Sob poder de “grandes líderes” e dos burocratas de um partido único, esses governos subjugaram os operários e camponeses e submeteram a política e a economia nacionais a um monopólio estatal que tinha bases nada distintas da velha ordem capitalista não democrática, como:

  • O paradigma do progresso a todo custo;
  • A geração de riquezas não distribuídas para a população;
  • A concentração do poder político e econômico nas mãos de poucos;
  • A manutenção da liberdade como privilégio desses poucos;
  • E a hierarquização entre dominantes e dominados.

Esses governos, aliás, perseguiram os antigos revolucionários comunistas, como no caso dos Expurgos Stalinistas da União Soviética. No caso da Coreia do Norte, tão considerada “comunista” pela direita internacional, a constituição federal não faz nenhuma menção ao comunismo (link em inglês, tente procurar por “communism” ou “communist” nessa página) nem a uma futura sociedade igualitária sem Estado.

Em outras palavras, os ditos “países comunistas” eliminaram violentamente de sua trajetória histórica os verdadeiros comunistas, aqueles que lutavam por um governo revolucionário do proletariado e um futuro sem classes e sem hierarquias políticas de dominação. Ou seja, não só nada tinham a ver com comunismo, como eram regimes anticomunistas.

 

E o fascismo?

Características do fascismo. Slide de Matheus Henrique Carris

Slide de Matheus Henrique Carris

Leandro Konder, no livro Introdução ao fascismo (1977, p. 53) define historicamente o fascismo assim:

[…] o fascismo é uma tendência que surge na fase imperialista do capitalismo, que procura se fortalecer nas condições de implantação do capitalismo monopolista de Estado, exprimindo-se através de uma política favorável à crescente concentração do capital; é um movimento político de conteúdo social conservador, que se disfarça sob uma máscara “modernizadora”, guiado pela ideologia de um pragmatismo radical, servindo-se de mitos irracionalistas conciliando-os com procedimentos racionalistas-formais de tipo manipulatório. O fascismo é um movimento chauvinista, antiliberal, antidemocrático, antissocialista, antioperário.

Esse é, digamos, o resumo do resumo do conceito do fascismo, uma vez que, para compreendê-lo plenamente, seria necessário ler um livro inteiro.

Conhecendo-se as diretrizes desse tipo de ordem política e social, é possível sim observar vários sintomas realmente fascistas em parte dos movimentos de direita no Brasil, como:

  • Intolerância a tudo que seja de esquerda (mesmo moderada);
  • Autoritarismo que visa “proteger” o Brasil do “comunismo”;
  • Adoção da violência, do irracionalismo, da aversão ao outro e da máxima “Os fins justificam os meios” como nortes morais;
  • Conservadorismo excessivo;
  • Defesa da derrubada do governo democraticamente eleito por meios não democráticos (como a “intervenção militar”);
  • Encaração do opositor político como inimigo a ser derrotado por meio não do debate político e eleitoral, mas sim de perseguição, censura e assassinato;
  • Idealização de um passado “puro” e “melhor do que hoje” que “deve” ser restaurado a ferro e fogo, como no caso de quem crê que com os militares ou no Brasil Império “tudo era melhor”;
  • Perseguição política explícita, baseada em agressões físicas, tortura e até homicídios;
  • Delineamento de um “inimigo nacional”, como os “comunistas”, o PT, as minorias políticas insubmissas etc.;
  • Uso do ódio como instrumento político;
  • Desprezo aos valores democráticos (mesmo quando se diz “defender a democracia”);
  • Defesa de uma ordem que mescla capitalismo selvagem na economia, autoritarismo pesado na política e ultraconservadorismo misto com fundamentalismo cristão na moral e nos costumes;
  • Defesa supremacista do Estado repressor e do mercado capitalista acima de tudo e de todos, inclusive da dignidade humana.

Daí para chamar de “fascista” ou “fascismo” tudo aquilo que a pessoa de esquerda não gostou, como um prefeito não ouvir uma determinada reivindicação do povo, há uma distância bastante grande.

 

Como o abuso dos dois termos atrapalha as discussões políticas no Brasil

Bonecos de palito xingando-se de fascista e comunista

Quem abusa desses termos definitivamente não conhece seu significado.

Nesse contexto, para termos um exemplo para cada, políticas liberais de leve redistribuição de renda, como o Bolsa Família – que foi defendido por ninguém menos que Milton Friedman, um dos pais do neoliberalismo -, são comparadas com uma revolução armada de trabalhadores e a extinção das classes sociais.

E políticos progressistas como Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, já foram chamados de “fascistas” por gente da própria esquerda, por causa, no caso de Haddad, de aumentos nas tarifas dos ônibus municipais e da repressão policial, que sequer foi mandada por ele, nos protestos contra isso.

Isso atrapalha muito, muito mesmo, as discussões sobre política. É por causa dessa banalização que ficamos sem saber o quanto de fascismo ou revolucionismo comunista realmente estão presentes na nossa sociedade.

Não dá para saber se realmente estamos a caminho de ver o Estado brasileiro se degenerar em fascismo se sequer sabemos o que essa palavra realmente significa. Portanto, ficamos de mãos atadas, incapazes de impedir uma futura onda de fascismo propriamente dito, tal como a que o deputado Jair Bolsonaro e seus filhos querem protagonizar, ou uma eventual massificação do desejo por “intervenção militar” contra um futuro governo de esquerda ou centro.

E do lado da direita, a banalização do medo de um “comunismo” sem conceito faz com que os seguidores e eleitores de políticos e formadores de opinião conservadores tenham medo de algo que sequer tem chance de acontecer no Brasil – a tal da revolução comunista.

E isso abre um campo fértil para manipulações mal-intencionadas e uma consequente futura aprovação popular de medidas claramente antidemocráticas, antipopulares e inconstitucionais de perseguição política contra quem é acusado de “comunismo”, mesmo contra pessoas que defendem meras reformas sociais no capitalismo para salvá-lo de um colapso futuro.

Ou seja, o medo difundido de um “fascismo” e de um “comunismo” conceitualmente vagos pode levar a um futuro de real triunfo do autoritarismo e sepultamento do pouco de democracia que ainda existe no Brasil.

 

Um clamor à responsabilidade

Mensagem judaica sobre a responsabilidade do ser humano

Diante dessa ameaça que a má vontade de procurar saber o real significado dessas palavras pode desencadear, faço um clamor.

Precisamos ser muito responsáveis e parcimoniosos quando falarmos de fascismo e comunismo. Esses termos são fortes demais para serem banalizados e abusivamente usados.

Saibamos como distinguir manobras antidemocráticas comuns de ameaças fascistas. Afinal, nem todo autoritarismo é fascista, já que existem muitas formas de política e governo autoritárias que não são fascistas – embora sejam igualmente inaceitáveis -, como o despotismo, a oligarquia e o conservadorismo não democrático.

Da mesma maneira, eu gostaria que a direita deixasse de usar o termo “comunismo” a torto e a direito, e incitasse seus seguidores a realmente estudarem obras defensoras do comunismo, como o próprio Manifesto Comunista de Marx e Engels.

Mas acho que isso é esperar demais de formadores de opinião cheios de más intenções e seguidores já fanatizados de ideologias conservadoras pautadas em demandas emocionais.

A você, caso tenha o costume de chamar de “fascistas” políticos adeptos de posturas autoritárias comuns, não pautadas em nacionalismo, irracionalismo e antiesquerdismo radical, peço que repense essa atitude, pelo bem da própria democracia.

Se você quer realmente saber quando estivermos diante de uma ameaça fascista, então entenda o que é o fascismo e como detectá-lo verdadeiramente.

 

Este artigo ajudou você a pensar melhor no (ab)uso desses dois termos e nos perigos de chamar de “fascismo” ou “comunismo” o que não é nem uma coisa nem outra? Comente o que achou logo abaixo, e compartilhe-o.

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8 comentário(s). Venha deixar o seu também.

CAM

Fevereiro 15 2017 Responder

“A legitimidade democrática do fascismo”, texto de autoria de João Bernardo. Procurem na internet

Newton

dezembro 9 2016 Responder

O fascismo é o sistema de governo que opera em conluio com grandes empresas (as quais são favorecidas economicamente pelo governo), que carteliza o setor privado, planeja centralizadamente a economia subsidiando grandes empresários com boas conexões políticas, exalta o poder estatal como sendo a fonte de toda a ordem, nega direitos e liberdades fundamentais aos indivíduos (como a liberdade de empreender em qualquer mercado que queira) e torna o poder executivo o senhor irrestrito da sociedade.

Em relação ao comunismo, a razão de seu insucesso é o fato que o seu principal fundamento teórico é exatamente o oposto da principal característica humana: não existem duas pessoas iguais, portanto, a igualdade social e econômica é uma utopia. Tanto que um dos mais conhecidos ditos do Direito afirma que “a verdadeira justiça é tratar os desiguais de maneira desigual”. Na parte econômica, experimente dar 100.000 para dez pessoas fazerem o que quiserem. Volte depois de um ano e veja o que aconteceu.

Pedro

dezembro 1 2016 Responder

Éneas seria um bom presidente? o que acha?

    Robson Fernando de Souza

    dezembro 1 2016 Responder

    Pedro, você desejaria um presidente integralista, considerando que integralismo é basicamente fascismo brasileiro?

    Se não desejaria, isso já basta pra saber o que acho de Enéas.

William

novembro 30 2016 Responder

Gostaria somente de acrescentar que alguns desses “sintomas realmente fascistas” são muito semelhantes a algumas características que eu venho notado em várias pessoas e vertentes denominadas de fato esquerdistas. Vou tentar explicar isso somente modificando e comentando algumas partes de seu texto:

Intolerância a tudo que seja de direita (mesmo moderada como talvez o “libertarianismo”);
Autoritarismo que visa “proteger” o pais ou o “povo” do “imperialismo”, “neoliberalismo”, “ameaça às políticas públicas”;

Adoção da violência, do irracionalismo, da aversão ao outro e da máxima “Os fins justificam os meios” como nortes morais; Esta parte eu creio que se encaixe bem no pensamentos de alguns esquerdistas como por exemplo “Stalin matou pouco”, “fascistas no paredão” etc…

Conservadorismo excessivo; Creio que de certa forma, algumas posturas da esquerda possam ser consideradas como conservadorismo, como o estado controlador social e as políticas e serviços públicos historicamente ineficientes que são defendidos como se não pudesse haver sequer argumentos contrários ou críticos.

Defesa da derrubada do governo democraticamente eleito por meios não democráticos (como a “intervenção militar”); ou como a “revolução”?

Encaração do opositor político como inimigo a ser derrotado por meio não do debate político e eleitoral, mas sim de perseguição, censura e assassinato; Não necessita de modificação.
Idealização de um passado “puro” e “melhor do que hoje” que “deve” ser restaurado a ferro e fogo, como no caso de quem crê que com os militares ou no Brasil Império “tudo era melhor”;
Perseguição política explícita, baseada em agressões físicas, tortura e até homicídios;
Delineamento de um “inimigo nacional”, como os “comunistas”, o PT, as minorias políticas insubmissas etc.;
Os comunistas ou outros esquerdistas, ao menos no Brasil, nunca experimentaram um longo período de acordo que fosse de acordo com as suas ideologias. Porém já vi informações de auto declarados comunistas de que algumas pessoas da Rússia sentem falta do tempo da URSS. E o que poderia ser um delineamento de um “inimigo irracional” da parte deles seria o próprio “fascismo”, o Bolsonaro, o “neoliberalismo” e minorias políticas recentes como o “anarcocaptalismo”.

Uso do ódio como instrumento político; (Ódio contra o “sistema injusto”?)

Desprezo aos valores democráticos (mesmo quando se diz “defender a democracia”); Defensores do Castrismo em Cuba ou até da Coreia do Norte.

Defesa de uma ordem que estabelece estado controlador de toda a economia (consequentemente a vida de todos) autoritarismo pesado na política e coletivismo forçado acima de tudo e de todos, inclusive da dignidade humana, da liberdade e da individualidade.

E dentro do espectro político atual, o fascismo original de Mussolini pelas suas politicas de certo controle econômico colocando as ações da iniciativa privada sob o controle do estado e o estabelecimento da Carta do trabalho, considerando APENAS o âmbito econômico não poderia ser considerado como esquerda moderada ou centro esquerda?

Wellington Fernando

novembro 27 2016 Responder

Camarada Robson, o seu blog é fantástico: é um farol de conhecimento em meio à escuridão da ignorância que tomou a discussão política no Brasil. Parabéns pela sua lucidez e pela sua crítica pontual ao abordar temas fundamentais.

Eu mesmo confesso que já rotulei – de maneira equivocada – muita gente que pensa diferente de mim de “fascista”. Nem toda direita é fascista e nem toda esquerda é comunista. A direita liberal-libertária, por exemplo, não tem nada a ver com fascismo. Mas o que realmente me incomoda é que muitos liberais acusam o fascismo de ser de esquerda pelo fato da Itália fascista ter tido um Estado autoritário e por também não haver um livre-mercado.

Enfim, parabéns mais uma vez pela qualidade das postagens.
Abraço.

    Robson Fernando de Souza

    novembro 29 2016 Responder

    Valeu, Wellington =D Abração!

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