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nov16

O que o discurso de ódio e a política de exclusão de direitos têm a ver com a corrupção?
O comentador de notícias cheio de ódio, charge de Vitor Teixeira

Saiba o que o comentador de notícias que vive vomitando ódio e o corrupto costumeiro têm a ver

Provavelmente você tem ouvido ou lido discursos de ódio repercutindo com uma frequência notável.

Desde os famigerados comentaristas de portais de notícias e as páginas sociais que se declaram como de direita, até políticos considerados “popstars” no meio reacionário, eles não param de expressar a mais crua intolerância contra minorias sociais, grupos políticos e ideologias diferentes das aderidas por eles.

Também deve ter sabido, com crescente amargura, de políticas “públicas” e projetos de lei municipais, estaduais e federais que almejam diminuir, restringir ou mesmo eliminar direitos de categorias como a classe trabalhadora, mulheres, pessoas não heterossexuais, pessoas trans, negros, quilombolas, indígenas, imigrantes pobres etc.

Convido você a constatar algo interessante, sobre esses discursos e iniciativas. Dou uma dica inicial: essas posturas têm muito mais a ver com a corrupção política do que a maioria das pessoas acredita.

 

Corrupção?

Corrupção não!

O que quero dizer aqui é que o discurso de ódio e a política de exclusão moral e social são formas de corrupção. Ou seja, podemos considerar corruptos todos aqueles que usam a política para promover ambos.

Mas como eu defino corrupção aqui neste artigo? – talvez você esteja se perguntando. Vou revelar.

Uso aqui o conceito de Felipe Pires Morandini, que, em artigo no site Jusbrasil (grifos meus), teoriza:

Corrupção (do latim: Corruptus – “despedaçado”, ou em uma segunda acepção, “pútrido”) é o ato de se corromper, ou seja, obter vantagem indevida, seja por ação ou omissão, observando-se a satisfação de benefício próprio, a despeito do bem comum. Ao contrário do saber popular, a corrupção não é só política, e nem sempre envolve dinheiro. Existem três formas de se corromper: pelo abuso, pela omissão ou pelo desvio.

O abuso, que é tido como normal pela sociedade brasileira hierarquizada pode ser representado pela frase: “Você sabe com quem está falando?”. Trata-se de um traço autoritário da sociedade brasileira. Ela funciona para demarcar diferenças e posições hierárquicas. O seu uso pode ser traduzido como “me respeite, pois não sou do seu nível”, ou, melhor ainda, “nós não somos iguais”. A partir da famosa frase de Maquiavel: “Favori agli amici, nemici della legge” (Aos amigos favores, aos inimigos a lei), representa bem esse abuso, de um poder que deveria servir para a manutenção do bem comum, e é usado, na verdade, como pressuposto de superioridade daquele que o detém.

A omissão é, talvez, a forma de corrupção mais vista na nossa sociedade. Omitir-se é deixar de fazer ou dizer algo que deveria, deixando certo problema prosseguir ininterrupto. Todo brasileiro se omite. Deixamos de denunciar tudo o que vemos de errado, deixamos de ajudar aqueles que necessitam da nossa ajuda, deixamos de devolver aquilo que sabemos que não é nosso, e entre outras omissões comuns. Não só não denunciam, mas até votam naqueles que se corrompem “escrachadamente”.

O desvio é relacionado ao abuso em partes. É quando devida função ou recurso, seja ele público ou privado, é desviado por aqueles que o administram para se beneficiarem. É como o administrador que desvia o patrimônio daquilo que administra para si, ou o político que dá cargos de confiança para parentes. É o uso de patrimônio alheio do qual administra para si.

 

Como esse conceito de corrupção se aplica à política do ódio e da exclusão social

Darth Sidious e Darth Vader. Corrupção e ódio, irmãos siameses

Corrupção e ódio, irmãos siameses

Percebo que estão presentes esses três elementos da prática da corrupção:

  1. O abuso: O político ou o cidadão utiliza seus poderes de decisão, influência ou voto não pelo bem comum, mas sim para saciar ódios pessoais por determinadas categorias da sociedade, manter seus privilégios enquanto pertencente a uma ou mais categorias sociais privilegiadas (brancos, homens, cisgêneros, heterossexuais, classe média ou alta, sem deficiência, cristãos etc.) e demarcar a posse desses privilégios como distintivo de uma posição superior na hierarquia social, econômica e moral brasileira;
  2. A omissão: O indivíduo que usa a política para a intolerância é, por excelência, um omisso perante os sofrimentos e misérias da grande maioria dos seres humanos. Ou pior, muitas vezes ajuda a promover, ou promove diretamente, esse sofrimento;
  3. O desvio: Usar a política para propagar ódio e suprimir os direitos alheios é um desvio da função da política democrática moderna de promover o bem-estar, liberdade e felicidade dos seres humanos, para torná-la um meio de ganhar poder e privilégios em detrimento do próximo.
    Vale lembrar que o mandato é um poder conferido pelos eleitores para que, ideal e teoricamente, o político os ajude a ter uma vida mais digna e feliz. O mandatário promotor de políticas de intolerância e exclusão usa esse poder e também dinheiro público, por meio de sua remuneração e do ganho de regalias, em nome de privilégios pessoais e de eleitores abusivos que compartilham com ele o ódio por uma grande parcela da população.

A atuação desses políticos é, portanto, uma forma de corrupção. Essa categorização, aliás, adquire ainda mais validade quando pensamos que o ódio e a exclusão social deliberada corrompem eleitores, mandatários, os valores morais e também o sistema político vigente como um todo.

 

As consequências desse tipo de política

Incêndio em favela. A política de intolerância e exclusão de direitos se junta à corrupção nos esforços de tornar o Brasil um país pior e mais insustentável de se viver

A política de intolerância e exclusão de direitos se junta à corrupção nos esforços de tornar o Brasil um país pior e mais insustentável de se viver

Por ser uma forma de corrupção, o mandato pelo ódio tem as mesmas consequências do alastramento de crimes como desvio de verbas e nepotismo.

Entre elas:

  • A degeneração ético-moral da política, que, como foi dito, deixa de servir ao bem comum e passa a ser usada para benefícios particulares, manutenção de privilégios – dos portadores do ódio – e saciamento de emoções pessoais negativas;
  • O mencionado desvio de dinheiro público que, ao invés de servir para políticas de benefício a todos os sujeitos de direito do país, é destinado a remunerar políticos que promovem tal degradação em nome de interesses privados seus e dos seus eleitores e, em última análise, a enriquecer empresários, latifundiários, pastores corruptos etc. mancomunados com a exclusão de direitos alheios, a proteção ou reforço de privilégios e o arrocho de renda e impostos;
  • A piora severa das condições de vida dos prejudicados, ou seja, os cidadãos que deixam de ser beneficiados pela política para passarem a ser maltratados e discriminados por ela, havendo inclusive incontáveis mortes por crimes de ódio, suicídios, assassinatos por policiais e outras consequências da degradação de sua qualidade de vida;
  • A decadência do Estado Democrático de Direito e sua conversão em ditadura e tirania;
  • A disseminação do desrespeito às leis, desde as mais básicas, que asseguram aos seres humanos o direito à vida e à integridade física, mental e social, até as que condenam o mau uso do poder político.

Em resumo, o resultado é um país pior para todos, inclusas as vítimas de tais políticas e também, em última análise, os próprios portadores de ódios sociais.

 

Lutar contra o ódio social também é uma forma de combater a corrupção na política e na moral vigente

Corrupção e intolerância não têm vez numa cultura política democrática e ética

Agora que você já tem a noção de que usar a política para promover intolerância e revogar direitos é uma forma de corrupção, convido você a ajudar os defensores dos Direitos Humanos a combater essas práticas.

Assim como corrupção não combina com governos realmente defensores e beneficiadores dos cidadãos, a cultura social e política do ódio e da exclusão também não é compatível com a democracia, a cidadania e a dignidade humana.

Portanto, se você se declara contra a corrupção sob a forma de apropriação ilegal e/ou antiética daquilo que é público, complete esse compromisso ético de ajudar a construir um país mais justo, inclusivo e transparente.

Lutemos juntos contra todos esses crimes contra o bem-estar humano, desde o desvio de verbas até o uso do mandato político e do dinheiro dos nossos impostos para pregar a inferiorização do outro e resguardar hierarquias violentas, antiéticas, injustas e injustificáveis.

 

Este artigo inspirou você a pensar algo novo sobre o uso do palanque político para promover o ódio e a supressão de direitos, e também sobre a corrupção? Comente logo abaixo, e compartilhe-o.

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