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Um olhar socialmente cético sobre algumas autoajudas new-age que dizem conectar a pessoa ao universo
Meditação de chakras X palafitas muito pobres

O que pensar sobre autoajudas new-age que fazem a pessoa ignorar a realidade social ao seu redor?

Editado em 10/04/2017 às 02h21

Algo muito comum em nossa sociedade são as autoajudas new-age.

Elas nos ensinam, a partir de crenças esotéricas e religiosas sincréticas, a nos conectar com o universo, nos fundir com o infinito cosmos nos tornando uma única existência.

Por meio disso, teoricamente, conseguimos paz e prosperidade em nossas vidas e afugentar boa parte dos problemas que nos impedem de ter uma vida plenamente feliz.

Mas tem alguns momentos em que essa autoajuda esotérica, ao mesmo tempo em que nos ensina a “sermos um com o universo”, nos influencia a ficarmos desconectados da sociedade humana em que vivemos.

Como e quando essa esquisita contradição acontece? E qual a importância de ter consciência dela, numa ordem social e moral que nos induz ao individualismo imoderado?

 

Quando a mesma espiritualidade que “liga ao cosmos” aliena o indivíduo do estado de coisas e do sofrimento alheio

Ego X espírito

Um dos exemplos analisados abaixo

São muitos os exemplos em que a autoajuda espiritualizada faz gol contra e, ao invés de nos fazer interligados aos seres da Natureza, inclusos os humanos, reforça a desconexão entre as pessoas. Aqui no artigo eu cito e analiso quatro.

 

Exemplo 1

O primeiro deles, que me chamou a atenção a ponto de inspirar este texto, foi o seguinte ditado:

“O ego diz: uma vez que tudo esteja em seu devido lugar, vou experimentar a paz. O espírito diz: uma vez que eu experimente a paz, tudo vai estar em seu devido lugar.”

O problema dele é ignorar que muitas pessoas estão passando por sufocantes sofrimentos socialmente originados. É partir do pressuposto de que tudo é responsabilidade principal ou exclusiva do próprio indivíduo, independentemente de eventuais vulnerabilidades sociais.

A frase em questão acaba não servido em situações como as seguintes:

  • Uma mulher submetida a um relacionamento abusivo não conseguirá “experimentar a paz” enquanto não conseguir se livrar do parceiro que a maltrata;
  • Um morador de uma comunidade muito pobre, dominada por traficantes de drogas e atacada pela violência policial não vai conseguir “experimentar a paz” se o seu dia-a-dia é repleto do medo de ser morto ora por traficantes, ora por policiais racistas, ora por balas perdidas em tiroteios;
  • Um adolescente vítima de bullying em sua escola não conseguirá “experimentar a paz” enquanto, digamos, seus pais não o mudarem de instituição de ensino ou os bullies não forem parados em definitivo e punidos pela diretoria da instituição;
  • Uma mãe de santo candomblecista vítima de perseguição religiosa evangélica em sua comunidade nunca conseguirá “experimentar a paz” sozinha, enquanto seus perseguidores não forem presos e condenados.

 

Exemplo 2

Outra frase, que considero emblemática para o que estou dizendo, é essa:

“Você é um ímã vivo. O que você atrai em sua vida está em harmonia com seus pensamentos dominantes.”

Esse ditado, à primeira vista, é bonito e inspirador. Mas um olhar mais social acaba mostrando que ele, no fundo, está culpando as pessoas em situações de violência e injustiça social por sua própria desgraça, como:

  • Famílias em estado de miséria absoluta;
  • Mulheres vítimas de violência doméstica;
  • Indígenas e quilombolas sob ataques de pistoleiros;
  • Crianças e adolescentes vítimas de racismo, misoginia, homo-lesbofobia e/ou gordofobia na escola;
  • Jovens ateus expulsos de casa por pais intolerantes-religiosos.

 

Exemplo 3

Uma terceira amostra é esse provérbio:

“Por favor, não tente entender o outro, esse não é o caminho. Tente entender você mesmo, pois você é uma miniatura do universo. Em você há todo o mapa da existência.”

É importante perceber que essa frase foi designada de modo a se aplicar apenas a determinados contextos. Ou seja, dependendo da situação, ela pode ser objeto de uma interpretação passível de trazer ideias e consequências perniciosas.

Ela pode ser facilmente mal interpretada de modo a, por exemplo:

  • Fazer com que um indivíduo de crenças reacionárias pense ter razão ao crer que os seres do universo são todos “iguais” a ele: egoístas, justificadores de violências absurdas, preconceituosos, dotados de empatia seletiva, sedentos de poder e dominação e adeptos de intolerâncias diversas;
  • Induzir a pessoa a se abster de tentar compreender o contexto sociopolítico que faz a maioria das pessoas sofrer diferentes formas de discriminação e exclusão social;
  • Deixar a entender que as desigualdades sociais são algo “natural”, “inerente” à existência da humanidade e do universo como um todo. Afinal, se aquela pessoa é muito pobre e vive numa comunidade cheia de privações, é porque “o universo é assim mesmo”.

 

Exemplo 4

E um quarto e último exemplo é um texto relativamente curto (grifos meus):

Exercite a gratidão

Para sair dessa energia negativa é necessário parar de reclamar, de se queixar, e demonstrar gratidão por tudo que lhe acontece. Faça agora uma contemplação para contar suas bênçãos. Escreva agora em um papel cinco coisas pelas quais você sente-se grato.

Quando você escreve em um papel, em vez de apenas pensar, você consegue sentir gratidão. Mantenha esse sentimento de gratidão pelo seu dia inteiro e perceba como você vai se sentir mais leve, mais contente.

Um bom livro para você se aprofundar nesse assunto é: Pare de Reclamar e concentre nas coisas boas, de Will Bowen, Ed. Sextante.

Esse livro fala do poder de se ficar 21 dias sem queixar, sem falar mal dos outros, sem ficar focado na mente da negatividade. Mostra que a vida pode ser melhor se mudarmos de atitude e pararmos de ver apenas o que há de errado.

Ensina um método simples e eficaz para lhe ajudar nesse processo: escolha um objeto (que pode ser uma pulseira, um anel ou outra coisa), e mude-o de posição toda vez que fizer uma queixa ou uma crítica.

Tenha perseverança para seguir esse método que tem ajudado a muitas pessoas. Insista, sem desistir. É um desafio que pode transformar sua vida, pois ao adotar uma postura positiva você abre caminho para o bem-estar, para a saúde, para ser mais feliz.

“Quando o sentimento de gratidão aflora em seu ser é quando você começa a sentir a presença de Deus à sua volta. E então, toda a sua energia se transforma em gratidão, todo o seu ser se transforma em agradecimento – você se transforma em verdadeira prece. Porque nada mais falta, e o mundo é perfeito e tudo está como deveria estar. ” Osho

Aqui a mensagem, em outras palavras, é que, se você, por exemplo:

  • Sofre frequentemente ataques físicos ou verbais de preconceito, discriminação e intolerância;
  • Tem um relacionamento infeliz, com um parceiro machista e abusivo, do qual não consegue sair;
  • Mora num bairro onde as estatísticas de furtos, assaltos e homicídios batem recorde na sua cidade;
  • Está prestes a ser despedido(a) por causa da privatização da empresa pública onde trabalhava;
  • Sofre assédio moral em sua empresa e, se pedir demissão, corre um risco muito alto de não encontrar outro emprego e, por tabela, passar fome;
  • Sofre um quadro cada vez mais grave de depressão e não pode pagar plano de saúde nem um psiquiatra particular à parte;

A “solução” seria “parar de reclamar, de se queixar, e (começar a) demonstrar gratidão por tudo (sic) o que lhe acontece”, por mais que o mundo exterior a você esteja lhe fazendo mal e incapacitando você física e psicologicamente.

 

Uma curiosa contradição desse tipo de auto-ajuda

Meditação coxinha

Se você reparar bem, há uma contradição no mínimo curiosa nesse tipo de postura de alguns adeptos da espiritualidade da Nova Era.

Autoajudas como as que citei e analisei acima, que tanto parecem “espiritualizadas” e “conectoras cósmicas”, refletem nada menos que as mais egoístas e materialistas crenças do status quo capitalista, competitivo e “meritocrático” em que vivemos.

Elas deixam claro, por meio de mensagens esteticamente aprazíveis, que:

  • A culpa é toda sua” se você vive uma vida cheia de privações e violências sociais, numa sociedade injusta e pouco afeita à ética, num mundo contaminado de poluição e outras formas de degradação ambiental;
  • Você deve “calar a boca” e “ser grato(a)” por tudo de ruim que está fazendo você ter a vida que tem;
  • Para mudar o mundo, basta apenas você se “conectar ao cosmos”, mesmo que isolado de seu mundo, independentemente de se bilhões de outros seres humanos, daqueles que padecem na miséria aos mais poderosos ricaços, não se conectam, nem você se lida a eles;
  • Você pode ser um indivíduo “cósmico” e “espiritualizado” e, ao mesmo tempo, machista, racista, heterossexista, transfóbico, capacitista e elitista, sem problemas;
  • “Conectar-se ao universo” não implica necessariamente você ter ciência dos males de sua sociedade e se engajar para ajudar a diminuí-los ou erradicá-los;
  • Meditar no tapetinho de yoga e acender o incenso de lavanda conta mais para essa “unificação cósmica” do que lutar contra o racismo, o machismo e as desigualdades sociais;
  • Se você quer ser uma pessoa mais “una com a Mãe Natureza” e “transcendente”, precisará eventualmente gastar dinheiro comprando livros, cursos, viagens e músicas.

É em casos assim que a espiritualidade, ao invés de induzir transformações morais e culturais na sociedade para torná-la mais solidária, ética, amiga da Natureza e desapegada dos bens materiais e do dinheiro, reforça ainda mais o status quo individualista, aético, insustentável e consumista.

 

Esteja ciente desse problema, e saiba como buscar a real conexão com o cosmos

Aperto de mãos

Reconhecer as contradições das autoajudas new-age que legitimam os vícios da ordem social, econômica e política é muito importante para você ter uma consciência realmente conectada ao todo universal.

Essa atitude permite a você discernir entre aquilo que vai realmente promover essa conectividade entre os seres humanos e o cosmos e os conselhos papo-furado que na verdade desconectam ou impedem essa religação.

Faz com que os oportunistas, que manipulam uma espiritualidade tão bonita para atender a seus próprios interesses egoístas e mascarar graves defeitos de caráter, sejam desmascarados.

É a primeira etapa para se seguir aqueles caminhos que realmente levam você se tornar um(a) com a Natureza.

A seguinte é encontrar esses novos caminhos espirituais, que, ao invés de aprisionar você no labirinto do mundo com todas as armadilhas dele, orientam verdadeiramente para as saídas rumo a uma vida universal mais feliz e abençoada.

Esses caminhos deixam claro que as outras pessoas, inclusive os seres não humanos, também são parte do universo. Que estabelecer a conexão e unificação com o cosmos também é fazer o mesmo com o seu próximo – sua família e parceiro(a), seus amigos, sua sociedade, a humanidade como um todo, os animais não humanos, as plantas, a biosfera etc.

Entre esses caminhos, estão:

  • Alguns darmas não conservadores das religiões orientais;
  • Diversas vertentes new-age socialmente engajadas;
  • Denominações progressistas das religiões monoteístas;
  • Religiosidades pagãs, de matriz africana ou indígena e sincréticas que prezam pela solidariedade e a plena justiça;
  • E posturas de fazer o bem sem precisar de crenças religiosas e teístas.

É por meio delas que você descobrirá que as melhores diferentes maneiras de estabelecer essa ligação cósmica passam por querer bem os seres sencientes, humanos ou não, que compartilham este mundo com você. E também perceberá que, se você não se solidarizar com o próximo e cultivar os valores da ética em sua vida, nenhuma conexão e unificação com o universo será viável.

 

Considerações finais

Mãos dadas, conexão cósmica

Só é possível conectar-se ao cosmos conectando-se aos outros seres humanos por meio da consciência social

As verdadeiras formas de se conectar com o cosmos infinito passam por se ligar ao seu próximo. Isso é evidente há milhares de anos, provavelmente desde as religiões pré-históricas.

Tendo ciência disso, não se deixe enganar por quem traz autoajuda “espiritualizada” que, com o devido olhar cético, percebemos que só faz reforçar tudo aquilo que quebra os valores ético-morais da espiritualidade humana.

Por exemplo, você não precisa ter uma postura de conformismo e “gratidão” pela ordem socioeconômica e política que lhe concede apenas migalhas e te impede de ter uma vida decente e de qualidade.

Não são seus pensamentos que fazem você, como pessoa alvo de discriminação e exclusão social, ter uma vida cheia de privações.

E, para mudar o mundo, não basta apenas que um indivíduo reforme seus pensamentos e sua maneira de encarar a vida. É preciso que coletividades ajam politicamente para transformá-lo com consistência e de forma sustentável.

É com essa consciência que os seres humanos conseguirão se conectar uns aos outros e, por meio disso, perceberem que são um com o universo.

 

Este artigo fez você perceber, nesse tipo de autoajuda, algum detalhe que até então passava despercebido? Ele te fez refletir sobre a importância da consciência social na filosofia de vida new-age? Comente logo abaixo e compartilhe-o.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Pamylla Oliveira

abril 9 2017 Responder

Ótimo texto! Concordo plenamente.

André Castilho

fevereiro 21 2017 Responder

Bem importante fazer esta distinção entre espiritualidade new age (que eu considero a apropriação da espiritualidade por parte do neo-liberalismo), e os darmas legítimos. No budismo, existe um termo para designar esse tipo de comportamento: materialismo espiritual. Um livro excelente pra conhecer melhor o assunto é “Além do Materialismo Espiritual”, de Chogyam Trungpa Rinpoche.

Mas também deixo um excelente texto sobre isso. Esta é a primeira parte, de três:

http://www.budavirtual.com.br/tres-grandes-ondas-de-distorcao-budismo-ocidente-1a-onda-distorcao-dos-filosofos/

Alysson

fevereiro 15 2017 Responder

Muito interessante essa análise, tenho certa birra dessas “filosofias” por causa disso, inclusive de parte das letras de Reggae pelo mesmo motivo. Mesmo a Programação Neurolinguística que é científica, costuma cair nessa lógica. Gostaria de conhecer algum testemunho (se é que existe), de alguém em situação mais precária que tenha conseguido mudar de vida com algo do tipo. Geralmente as “terapias” são adotadas por pessoas que já possuem um contexto favorável, como bem observou o texto.

Josimar Oliveira

dezembro 9 2016 Responder

Tem muita gente da nossa geração (e eu sou um deles) que começou a estudar espiritualidade pelo livro O Segredo e todos os outros autores que o cercam e naturalmente ficamos fascinados com tudo aquilo maravilhoso (Sheeva wins) que o livro promete trazer só pensando! que maravilha! Mas na vida real não é bem assim assim. Você acaba acreditando que apenas meditar 5 minutos do dia vai te fazer alcançar o Nirvana ou que mesmo que tudo esteja uma bosta na sua vida você precisa ser grato, dizer obrigado quando o cara leva o celular que você acabou de pagar a primeira prestação de 12, o universo dá tudo fácil! ou quando seu chefe te dá aquele esporro gostoso na frente dos clientes. Basta mudar seu pensamento e não pensar em nada negativo como querer matar seu chefe a sangue frio, matar o ladrão de ônibus que levou teu celular novinho você até cogita votar no Bolsonaro. Tem muita gente que segue a fundo essa espiritualidade rasa e como tudo depende dos próprios pensamentos você começar se culpar por as coisas não estarem indo bem na sua vida. Esse texto sintetizou tudo que eu penso hoje em dia em relação a essa espiritualidade fast-food que se compra na revista avon.

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