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“Se estudar bem, poderá melhorar o mundo para ele”: saiba os problemas de pensar assim

Tirinha diz que "se estudar bem, [você] poderá melhorar o mundo para ele"

Você já viu essa tirinha?

Nela, uma mulher de azul, pensando com uma moralidade egoísta, aponta para um gari na rua e diz para o filho: “Se não estudar, vai terminar como ele”.

Logo em seguida, à esquerda dos dois, uma outra mulher, ruiva e de roupas mais coloridas, diz à filha vestida de amarelo, numa potente alfinetada à moça de azul: “Se estudar bem, (você) poderá melhorar o mundo para ele”.

A imagem pretende ser uma lição de moral: precisamos estudar não para sermos “melhores” que os outros, mas sim para fazer o bem ao próximo e tornar o mundo um lugar mais justo para todos.

Mas será que é uma boa ideia mesmo nos munirmos da atitude de “estudar para melhorar o mundo para o outro” e não com ele?

 

Quem realmente melhora o mundo?

Quem muda o mundo é a coletividade, não uma dúzia de mentes brilhantes

Quem muda o mundo é a coletividade, não uma dúzia de mentes brilhantes

Será mesmo que as lutas políticas funcionam e dão certo assim, consistindo em os intelectuais construírem um mundo melhor a partir das ideias e os trabalhadores o receberem e desfrutarem passivamente?

A resposta é não.

A História tem nos provado, sucessivamente, que quem faz a história humana engrenar no sentido de melhorar as condições da classe trabalhadora são os próprios trabalhadores.

Da mesma maneira, quem conquista direitos para as mulheres são elas próprias. Quem vence sucessivas batalhas contra o racismo são os próprios negros. Quem está fazendo este mundo ser um lugar melhor para as pessoas LGBTs são elas mesmas. E por aí vai.

Nessas lutas, os intelectuais são auxiliares. Eles constroem a teoria, muitas vezes a partir de suas experiências e/ou observações junto à categoria defendida.

E a teoria, depois de ensinada adequadamente, é debatida entre as pessoas que estão fora do âmbito universitário, em assembleias, reuniões, rodas de conversa, mesas de bar etc. Elas é que vão aplicar, fazer valer a teoria revolucionária que o(a) intelectual elaborou em seu escritório e teve a ajuda delas para concluí-la.

E aliás, historicamente falando, são intelectuais membros das próprias categorias defendidas que constroem as teorias que promovem as mudanças na sociedade, e depois se juntam a seus iguais para colocá-las em prática.

Ou seja, são estudiosas feministas que criam aquelas correntes de pensamento que vêm para realmente tornar o mundo cada vez menos machista.

São universitários trabalhadores que constroem ou reconstroem as teorias das ciências humanas que vão beneficiar sua classe social.

São intelectuais negros progressistas que engajam a Sociologia, a Filosofia e outras áreas de conhecimento para auxiliarem na luta do seu movimento contra o racismo.

Ou seja, os universitários não “melhoram o mundo para os outros”, mas sim com eles. Ainda mais quando fazem parte das mesmas categorias dos “outros”.

 

Os problemas de pensar que o indivíduo intelectual “melhora o mundo para o outro”

Elitismo, segundo o Dicio.com.br

Agora que ficou evidente que as lutas são construídas e travadas pelos próprios interessados num mundo revolucionado, fica mais claro também por que é problemático acreditar que a menina vestida de amarelo “vai estudar para melhorar o mundo para o gari”.

Essa crença é muito elitista e recheada de vícios da tradição liberal. Parte dos duvidosos pressupostos de que:

  • As minorias políticas devem ser tuteladas pela elite intelectual, mesmo que esta hoje seja composta majoritariamente de homens brancos com boas condições financeiras;
  • Afinal, elas “não podem” assumir o protagonismo de suas próprias lutas porque a maioria de seus membros “são pobres”, “pouco instruídos” e/ou “ocupados demais”;
  • O mundo é construído a partir das ideias dos intelectuais, e não das maneiras como os seres humanos lidam com suas condições materiais de vida;
  • Essa construção é feita por indivíduos que se diferenciam daqueles muito “normais” e “medianos”, e não pelas coletividades organizadas;
  • As lutas sociais devem ser hierarquizadas, tendo como líderes seus mentores ideológicos e sendo os membros da minoria política defendida meros soldados obedientes à ideologia embandeirada;
  • A humanidade como um todo é, e deve continuar sendo, organizada em hierarquias com elites e subordinados.

No final das contas, esses pensamentos tendem a desmobilizar a maioria das pessoas. Afinal, favorecem a hegemonia das tradições morais e políticas que relegam à obediência e ao conformismo a maioria numérica da população (composta de pessoas de minorias políticas interseccionadas), e mantêm os poderes e privilégios das elites, entre elas a econômica, a política, a religiosa, a militar e a intelectual.

Além disso, desempodera as pessoas de fora da universidade, que não puderam estudar ciências humanas o suficiente para “adquirirem” a capacidade de mudar o mundo por conta própria.

Induz-as a acreditar que sua sina é serem “arrebanhadas” por indivíduos que viriam pensar por elas, seja ideias progressistas (políticos e pensadores de esquerda e mídia alternativa ou semi-mainstream), seja conservadoras (a maioria dos sacerdotes, a maioria da mídia, políticos de direita, “profetas” do empreendedorismo etc.).

Que seu papel no mundo é meramente segui-los, obedecê-los, aceitar e reproduzir o que dizem e, no máximo, votar em alguns deles nas eleições.

Aí a pretensão de alguns pensadores teóricos de mudar o mundo acaba sendo um tiro saído pela culatra. Eles tentam ser os grandes mentores de um “novo mundo”, mas meio que “esquecem” de debater suas ideias com o povo, e subestimam a capacidade deste de transformar a História.

E com isso, esse “outro mundo” é meramente mais do mesmo, uma nova ordem tão hierarquizada e desigual quanto a anterior.

 

Melhorando o mundo não “para ele”, mas sim com ele

Se você estudar bem, poderá melhorar o mundo com ele

Agora sim

Com a devida reflexão, percebemos que é uma luta vã, e até mesmo uma forma de exclusão sociopolítica, a tentativa de mudar o mundo “para os outros”, sem a participação ativa destes.

Fica cada vez mais evidente – e isso estamos observando hoje nas redes sociais e nas universidades – que qualquer tentativa de engendrar lutas políticas nas quais as próprias categorias defendidas não sejam as protagonistas tende ao fracasso.

O sonhado mundo melhor não será construído a partir de algumas dúzias de mentes brilhantes, esculpidas por anos de estudos. E sim por mãos e mentes sincronizadas de bilhões de seres humanos, sem líderes ou elites intelectuais que os tratem como rebanhos ou soldados rasos.

Fica então o convite à humildade: se você sonha em estudar para melhorar o mundo “para o gari”, converta esse objetivo em melhorá-lo junto com ele. E se você é da classe dos garis, melhor ainda: o protagonismo da luta é de vocês, e o estudo poderá ajudar nela.

 

Este artigo ajudou você a repensar a crença de que pode melhorar o mundo “para” os outros? Despertou alguma outra ideia nova em você? Comente logo abaixo, e compartilhe-o.

imagrs

10 comentário(s). Venha deixar o seu também.

roberto quintas

janeiro 26 2017 Responder

ainda assim existe um rastro de preconceito. ainda está contido a noção de que uma pessoa só ocupa a função de gari porque “não estudou”, ou seja, a função ainda tem o estigma de ser ocupação de pessoas sem qualificação.

Thiago Souza

janeiro 23 2017 Responder

Robson,

Texto interessante sobre lugar de fala (assunto que é meio que mencionado en passant no texto) e elitismo (o assunto principal). Muito bom.
Pena que só o li hoje, quase dois meses após a publicação dele.
Enfim.

Bem, queria lhe dizer que o seu blog é uma luz no fim do túnel e é necessário. Por conta disso, eu estou interessado a ajudar com a manutenção dele.
Como faço?

Thiago Souza

Filipe

dezembro 15 2016 Responder

A reflexão que quero trazer é: O capitalismo funciona levando produtos que fazem o mundo melhor para as pessoas e COM as pessoas, porque procura atender pesquisas de mercado. E há mais liberdade também. Parece-me que ideias de esquerda tendem a ser mais controladoras, impositivas de comportamento. Não acham?

    roberto quintas

    janeiro 26 2017 Responder

    Felipe, a ideia de que o capitalismo “funciona levando produtos que fazem o mundo melhor para as pessoas e COM as pessoas, porque procura atender pesquisas de mercado” é uma ilusão. assim como é ilusório dizer que o capitalismo fomenta a liberdade. qual melhora traz a produção de armas? qual melhora traz a produção de cigarro? onde e como as pessoas são incluídas nessa “melhoria de mundo”? o capitalismo foi e tem sido o maior patrocinador de ditaduras e guerras. o ser humano é obrigado a trabalhar para poder comprar seus mantimentos de um mercado que expõe apenas os itens de determinados fornecedores… isso NÃO é liberdade.

Filipe

dezembro 14 2016 Responder

Olá Robson.
Na verdade, já comentei no Blog, faz tempo…
Voltei para contribuir para a diversidade do debate.
Numa definição moderna, eu seria um fundamentalista religioso cristão de direita heteronormativo. Ou algo assim.
Eu gostaria que vc falasse um pouco do papel dos profissionais de exatas nesse mundo melhor. E sabe, o capitalismo também contribuiu muito para a melhoria de vida de muita gente. Também tentamos melhorar o mundo, apenas pensamos de outro jeito!

    Robson Fernando de Souza

    dezembro 15 2016 Responder

    Oi, Filipe. Obrigado pela sugestão, mas, sobre esse assunto, infelizmente não tenho informações suficientes pra escrever.
    Abs

    Newton

    dezembro 20 2016 Responder

    Filipe, tomo a liberdade de responder:

    Pense sobre isso:

    As Exatas versam sobre COMO fazer as coisas; as Humanas sobre POR QUE fazê- las.
    O ponto de equilíbrio está no meio termo. Desejo sem ação é inútil, ação sem desejo é estéril.

Newton

dezembro 9 2016 Responder

Os 6 itens citados como vícios da tradição liberal são muito semelhantes à ideologia preconizada por Antonio Gramsci, que foi e ainda é o grande influenciador das esquerdas.

Alex

dezembro 8 2016 Responder

“as lutas são construídas e travadas pelos próprios interessados num mundo revolucionado.”

Por isso eu não acredito em veganismo, os interessados não estão lutando a causa e é muita ingenuidade achar que a maioria dos opressores vai abrir a mão do seu privilégio de boa vontade, sem a participação dos oprimidos na luta.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo