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dez16

Um meme “de macho” e uma reflexão sobre o conservadorismo moral de parte da esquerda

Homens guerreando na Revolução Russa

Pense numa contradição político-ideológica.

Na direita tem um número imenso delas, não é mesmo? Agora pense naquelas presentes na esquerda.

Entre as contradições lembradas, você pensou na reprodução e promoção de preconceitos e crenças morais conservadoras por pessoas (que se dizem) de esquerda?

Se sim, é aonde eu quero chegar, para convidar você a pensar sobre esse problema.

Quero chamar você a uma reflexão, usando como exemplo ilustrador uma imagem “engraçadinha” que encontrei recentemente numa página de esquerda.

Por meio dela, vamos relembrar que, muitas vezes, aquele direitismo preconceituoso e apegado ao status quo que restou no fundo da mente pode, às vezes, aflorar e atrapalhar os esforços da maioria da esquerda em construir um mundo mais justo, democrático, igualitário, solidário e sustentável.

 

A imagem da página “Testes de Macho”: uma ilustração da esquerda de crenças morais conservadoras e preconceituosas

O meme da Testes de Macho, de dezembro de 2015

O meme da Testes de Macho, de dezembro de 2015. Clique na imagem para vê-la em tamanho maior

Vi ser reproduzida, em setembro de 2016, uma imagem já antiga, de 2015, de uma página chamada Testes de Macho. Ela traz um homem de esquerda “pós-moderno” sendo comparado com um esquerdista “à moda antiga”, do tipo “revolucionário do século 20”.

Antes de tudo, é preciso dizer que a Testes de Macho é uma página de esquerda e diz não ter uma postura baseada em machismo, homofobia e culto à masculinidade. Mas a imagem “comparativa” que ela postou em dezembro de 2015 manchou essa reputação. E não sei se a atitude deles mudou de lá para cá.

A imagem satiriza os dois tipos, mas é possível perceber que há um tom elogioso em relação ao homem de esquerda “tradicional”, e uma jocosidade maior para o “pós-moderno”. Noto que é uma crítica ao “pós-moderno cheio de frescuras”.

E percebendo bem, o homem do lado esquerdo é um tremendo esquerdomacho. Ou seja, aquele que, mesmo que se diga “aliado” do feminismo, frequentemente demonstra atitudes claramente machistas e insiste em se apegar aos valores e atitudes da masculinidade – aquela mesma que coloca tudo o que é considerado “feminino” como “inferior” e “repulsivo”.

Considerando a descrição favorável dada ao esquerdomacho e a zombaria dedicada ao do lado direito, fica evidente o afloramento do machismo de quem fez a imagem.

Isso sem falar do especismo e antiveganismo de ralhar com quem repudia mandar animais para o espaço para morrer dolorosamente em experimentos espaciais. E do menosprezo ao ambientalismo de esquerda, ao mencionar que o “pós-moderno” é um “ecohipster”.

Essa figura expressa que há muitos homens na esquerda saudosos do velho padrão de “revolucionários machos”. Homens que não se importam em pegar em armas e sair atirando nos inimigos da revolução ao som de Rage Against The Machine e, depois da vitória revolucionária, promover o mais glorioso e poluente progresso industrial.

Que acham “mó frescurentos” “esses (estereotipados) pós-modernos veganos, defensores de bichinho, abraçadores de árvore, que vestem saia e acham que ciranda vai mudar o mundo”. Que rejeitam a superação da “virilidade guerreira revolucionária” em favor da liberdade de ser e fazer o que quiser desde que não prejudique outrem.

No final das contas, são homens não tão diferentes dos machões patriotas de direita do cinema estadunidense, aqueles mesmos que colocam a “América (sic) acima de tudo” por meio das armas e do militarismo.

 

Aonde eu quero chegar

O ideal de muitos revolucionários soviéticos era isso: industrialismo, poluição e masculinidade

O ideal de muitos revolucionários soviéticos era isso: industrialismo, poluição e masculinidade

Imagens como essa refletem que, ao contrário do que alguns sonhadores talvez acreditem, parte da esquerda continua impregnada com os mesmos preconceitos e valores morais estagnados da mais conservadora direita.

Tanto essa parcela da esquerda saudosista das revoluções do século 20 como a direita que se acha “tradicionalista” defendem, como meios de reafirmação dos desejos humanos – ou, para ser mais exato, dos homens “viris”:

  • A supremacia da masculinidade em detrimento das mulheres e do feminismo;
  • A exploração animal, com destaque à produção e consumo de carne vermelha, esta que é historicamente um símbolo de virilidade;
  • A heteronormatividade (embora a página Testes de Macho se diga contra a homofobia);
  • O militarismo (seja o paramilitarismo revolucionário ou o culto às forças armadas nacionais);
  • O desprezo às liberdades das minorias políticas, como “imorais” e “contrárias à ordem”;
  • O progresso da sociedade a todo custo, mesmo tratorando o meio ambiente e a vida de bilhões ou trilhões de animais;
  • entre outros valores.

Esse tipo de atitude acaba fazendo a esquerda como um todo ter muito menos capacidade de revolucionar a ordem em vigência, já que:

  • Não tem apreço às liberdades humanas individuais e coletivas;
  • Mantém hierarquias morais intactas;
  • Conserva o autoritarismo como tradição política;
  • Torna a paz um sonho impossível;
  • Traz justiça social para poucos, similarmente às hierarquias do capitalismo.

Ou seja, não constrói um mundo melhor. Só substitui um mundo ruim para a maioria (a soma e combinação das minorias políticas) por um segundo mundo ruim para uma nova maioria bem parecida.

 

Considerações finais

Construir um mundo melhor passa por desconstruir aquela tóxica masculinidade

Construir um mundo melhor passa por desconstruir aquela tóxica masculinidade

A imagem da Testes de Macho, independentemente das intenções atuais dessa página, mostra muito daquilo que deveria ser deixado para trás em todas as vertentes de esquerda.

Exibe, nas entrelinhas, que “a revolução se faz com virilidade” e “preferivelmente” será protagonizada pelos “machos que entendem de pegar em armas”.

E que a “utopia” desse tipo de “revolucionário” não é nem um pouco favorável, é praticamente uma distopia, para mulheres, LGBTs, minorias religiosas, vegans, animais não humanos e outras categorias que continuariam sendo rebaixadas moralmente e discriminadas.

Faz-se urgente, com isso, uma mudança de consciência bem disseminada, que desconstrua aquelas tradições morais conservadoras que o velho revolucionismo do século 20 herdou. Que remova, assim, muitos dos obstáculos internos que impedem a consolidação de ideais realmente igualitários e sustentáveis.

Só assim será possível dizer que as esquerdas têm chances sólidas de vencer as velhas hierarquias morais e mudar o mundo para melhor.

 

O que este artigo inspirou você a pensar sobre o machismo e a masculinidade na esquerda? Comente logo abaixo e, se gostou do texto, compartilhe-o.

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1 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Alysson

fevereiro 15 2017 Responder

É bem a diferença entre Extrema Esquerda e Social Democracia. Extrema Esquerda e Extrema Direita são coletivistas, cada uma a seu modo, daí as afinidades com o autoritarismo.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo