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dez16

No ato de chamar protestos contra discursos de ódio e preconceito de “vitimismo”, quem está sendo realmente o vitimista?
Quem se faz de vítima: aqueles que vivem apontando "vitimismo" no protesto alheio

Quem se faz de vítima mesmo? Os que protestam contra o preconceito e a discriminação, ou aqueles que vivem apontando “vitimismo” no protesto alheio?

Aviso de conteúdo: O texto menciona palavras e expressões ofensivas de caráter machista e racista usadas por reacionários

Provavelmente você tem visto isso com frequência nas redes sociais e em portais de notícias.

A cada manifestação de uma ou mais pessoas contra piadas, falas sérias e atitudes racistas, machistas, heterossexistas, gordofóbicas, transfóbicas, intolerantes-religiosas, xenófobas etc., aparece uma variedade de reacionários chamando o protesto de “mimimi”, “vitimismo” e/ou “coitadismo”.

Só que eles não percebem uma coisa interessante: sua própria atitude é típica de quem realmente está com uma postura considerada “mimimi” e vitimista diante de algo que não o agrada.

Convido você a saber por quê, vai ser interessante ver esse argumento reacionário voltando-se contra os seus próprios adeptos.

 

As acusações de “mimimi vitimista”

Tirinha sobre quem chama os outros de vitismistas

É bastante comum, em portais de notícias (os que ainda abrem suas notícias e reportagens a comentários de leitores) e nas páginas sociais desses mesmos sites, além de fanpages, fóruns e blogs de direita, esse tipo de acusação contra pessoas ou grupos insubmissos de minorias políticas.

Se se noticia que uma moça negra apontou machismo e racismo no maltrato que havia sofrido de um homem branco, vem um bando de comentadores acusá-la de “afrovitimista” e “femimimista”.

Se um ator famoso, adepto de posições políticas progressistas, discursa sobre por que os homens têm a obrigação de desconstruir seu machismo, vem haters dizendo que ele está com “mimimi” e “apoiando o vitimismo das feministas”.

Se um rapaz negro pobre se posiciona no Facebook revoltado contra os problemas de exclusão social e assédio moral racista que sofre no seu dia-a-dia, é visto como “coitadista que prefere se lamentar” por seus contatos de rede social conservadores.

Se uma mulher gorda denuncia uma piada gordofóbica que ouviu no trabalho, é uma “mimimizenta chata que não tolera brincadeiras (sic)”.

E os exemplos vão se acumulando a toda hora nos recantos da internet.

Só que esses dedos acusatórios e depreciativos em riste falam muito mais dos seus donos do que estes imaginam. Eles esquecem que, ao mesmo tempo que seu indicador aponta para quem é diferente e se recusa a baixar a cabeça, há três outros dedos de sua mão voltados para eles mesmos.

 

A essência vitimista e “mimimizenta” de chamar a pessoa diferente insubmissa de “vitimista” e acusá-la de “mimimi”

Olhá lá, filho, um "antivitimista" se sentindo "vítima" das minorias

Olhá lá, filho, um “antivitimista” se sentindo “vítima” das minorias

O dicionário online Priberam define o vitimismo como “sentimento de ansiedade, preocupação ou raiva de quem é vítima de algo ou de alguém; tendência obsessiva para se fazer de vítima”. Vitimista, por sua vez, é “relativo a vitimismo ou próprio de vítima.”

Fica muito claro que o sentido do “vitimismo” usado no meio reacionário é a “tendência obsessiva para se fazer de vítima”. É a pessoa se considerar seriamente afetada por algo que, segundo o senso comum conservador, “não seria algo realmente nocivo” a ponto de causar um mal físico ou psicológico real a alguém.

A questão aqui é que, a cada vez que uma pessoa de minoria política tem uma atitude de insurgência e não aceitação perante atos discriminatórios e odientos de algum privilegiado preconceituoso, os reacionários sentem estar perdendo sua “liberdade” de proferir discursos de ódio e serem preconceituosos sem serem responsabilizados, rechaçados e punidos.

A partir dessa sensação de ameaça àquela ordem moral que sempre os privilegiou, sentem-se “vítimas” de quem luta, individualmente ou através de movimentos sociais, contra o preconceito, a discriminação, a intolerância e a desigualdade de asseguramento de direitos.

Alegam e creem assim que estão sendo “oprimidos” pelos negros, pelas mulheres, pelos pobres, pelos não heterossexuais, pelas pessoas cisgêneras etc.

É daí que acreditam ter a “necessidade” de diminuir e calar, por meio da ridicularização e do menosprezo, a luta, a queixa, a reivindicação, o protesto de quem é diferente deles.

Isso os impele a vociferar que quem não abaixa a cabeça perante os seus desmandos, ódios e desvios de ética é “vitimista” e “mimimizento”.

Ou seja, o ato de acusar a outra pessoa de “vitimismo” e “mimimi” é por si só um “mimimi” motivado pela crença de que estão sendo “vítimas” do “politicamente correto”, do “racismo reverso”, da “cristofobia”, da “heterofobia”, da “misandria” etc.

Em outras palavras, por causa do vitimismo sem aspas próprio deles. Afinal, estão se fazendo de vítimas sem ser por causa de algo que, longe de causar um mal legítimo, busca na verdade a valorização da ética, o respeito às diferenças e a igualdade moral e de direitos entre todos os seres humanos.

 

Considerações finais

Diga não ao coitadismo... de quem chama os outros de coitadistas

Já dizia a psicanálise que a projeção é o ato de a pessoa atribuir a outrem um erro ou desqualidade que é dela mesma. É exatamente o que os vitimistas antiminorias e anti-Direitos Humanos fazem, ao atribuir a quem protesta contra as injustiças um vício que é próprio deles.

Sempre que algum deles vier apontar o dedo do vitimismo e do “mimimi” a quem reivindica uma sociedade igualitária, demandemos que ele se atente para a trave do próprio olho antes de falar mal do cisco alheio.

Será interessante eles perceberem e engolirem a seco o fato de que quem está promovendo “mimimi coitadista” não são as minorias políticas, mas sim quem eles menos esperam estar incidindo em tal postura: eles mesmos.

 

O que este artigo fez você (re)pensar sobre a atitude de chamar pessoas insubmissas de minorias políticas de “vitimistas”? Aliás, se você tinha essa atitude antes e deixou de tê-la, conte-nos o que fez você parar. Comente logo abaixo e, se gostou do texto, compartilhe-o.

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4 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Victor

outubro 30 2017 Responder

Essa semana escutei uma aluna de “Direito” falando a seguinte frase para outra colega: “Tadinhos, coitadinhos, as vítimas da sociedade!”. No momento eu me senti mal, pois sentir o puro racismo naquele discurso. Há alguns dias venho notado as posições dela em relação às lutas sociais. Ela age com indiferença com as outras pessoas e sempre tem um ar de altivez. O que me deixa indignado é o fato desse discurso sair da boca de um futuro profissional da área da Advocacia. O que causa temor à nossa sociedade, pois se ela não mudar essa atitude preconceituosa, tenho a plena certeza que o nosso país está dando poder a futuros profissionais não éticos e que não respeitam os direitos humanos daqueles que sofrem discriminação nesse país.

Natalia

Janeiro 6 2017 Responder

hajhajhaja o primeiro comentário é o exemplo perfeito de mimimi reverso

Newton

dezembro 9 2016 Responder

Hehehe, não posso responder pelos outros, mas na minha opinião, estão havendo exageros por parte de algumas pessoas. Claro que devemos ficar indignados com coisas que degradam as pessoas, mas por outro lado ninguém é tão frágil que não possa reagir. Me chamou de magricelo? Já emendo direto: ” Vai TNC, seu cretino de m****! Não preciso fundar uma Ong para defender os magricelos.
O povo oriental é discriminado também, só que por questões culturais, eles preferem se calar e seguirem em frente estudando e se dedicando. Depois de alguns anos, provavelmente aqueles que ridicularizaram os “japas” estarão trabalhando de empregados na empresa do “japoronga”.

    Ezco Musaos

    dezembro 11 2016 Responder

    Olha aí, o primeiro comentário já é uma ilustração perfeita do que o post fala. Rsrs

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