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jan17

Reflexões sobre minha história política (Parte 1: como eu era no passado e como me tornei quem sou hoje)
Protesto contra aumento das passagens de ônibus em 2011

Eu em protesto contra aumento das passagens de ônibus em 2011. Um momento de minha evolução política, que começou em 1997

Leia aqui a segunda parte deste artigo

Todos nós temos uma história de vida rica.

E em muitos casos, o que somos hoje, em alguns aspectos da nossa vida, como crenças políticas, é muito diferente do que éramos, digamos, 5, 10, 20, 30, 40 anos atrás.

É pensando nas mudanças que vivenciei ao longo da vida, desde meus 10 anos de idade, e no que sua revelação pode trazer de conhecimento novo e motivos de reflexão para você, que venho contar a história de minhas crenças e mutações sociopolíticas.

É um relato autobiográfico que tem muito a lhe ensinar, tanto por meio da própria história como pelas reflexões que faço a partir dela.

Este artigo é dividido em duas partes. Nesta primeira, eu trago a minha autobiografia político-ideológica. E na segunda, eu venho com reflexões sobre o que essa história tem a nos dizer sobre como tratamos quem tem crenças políticas diferentes das nossas e onde está a esperança nestes tempos tão conturbados.

A princípio posso lhe dizer: é um relato que vem trazer esperança e inspiração.

Caso você queira pular o relato e ler logo as reflexões, leia direto a segunda parte (que será publicada ainda nesta semana).

Obs.: Uso várias vezes o termo “coxinha” neste texto, na falta de uma palavra mais séria que tenha como definição: aquele que defende “mais saúde e educação” e se diz “contra a corrupção”, mas o faz de forma vaga e sem reivindicações concretas, e reproduz crenças políticas de direita, a ponto de muitas vezes se declarar como “de direita” mesmo quando não conhece ou compactua com tudo o que o conservadorismo e o neoliberalismo pregam. Portanto, sempre que uso essa palavra, é nesse sentido, não num tom jocoso e depreciativo.

 

1997 e 98: as primeiras lembranças e uma pré-adolescência coxinha

Fernando Henrique Cardoso em 1998

Fernando Henrique Cardoso em guia eleitoral, em 1998

Minhas primeiras memórias da minha época de direita remetem a 1997. Eu tinha 10 anos de idade e estava contemplando pela primeira vez as consequências de um governo medíocre na qualidade dos serviços públicos.

Esses serviços eram especificamente a educação básica e a segurança. Ambos eram de responsabilidade do governo do estado de Pernambuco, então comandado pelo veterano Miguel Arraes, do PSB – partido que na época ainda parecia de esquerda.

Naquele ano eu estudava numa escola pública estadual, e vivia descontente com a fraca educação que recebia ali. Havia lá um descaso em relação à qualidade do ensino, à pobreza de recursos materiais, à ausência de preocupação psicopedagógica da escola perante casos de bullying (que eu sofri lá), à assistência a alunos considerados superdotados – entre os quais eu estava incluído -, à escassez de atenção perante temas como meio ambiente e saúde, entre tantos outros problemas comuns no ensino básico público daquele tempo – muitos dos quais permanecem ainda hoje, 20 anos depois.

No âmbito da segurança pública, já havia um medo constante de assaltos e assassinatos. A Polícia Militar havia feito uma greve naquele mesmo ano, por causa dos baixos salários. As estatísticas criminais já eram altas e não caíam de jeito nenhum.

E um terceiro problema que chamava a atenção naquele tempo era a corrupção. O escândalo dos precatórios pernambucanos dominava a imprensa local. Arraes e o então secretário da Fazenda Eduardo Campos estavam entre os suspeitos de envolvimento no caso.

Esses três quesitos me faziam acreditar que governos de partidos considerados de esquerda poderiam ser medíocres e fracassar no objetivo de promover um “desenvolvimento” garantidor de justiça social. Isso muito embora já estivesse havendo um processo de endireitamento no PSB, com a preparação da Celpe para a privatização.

E paralelamente eu já recebia influência de dois tradicionais veículos de imprensa conservadores: a Rede Globo e a revista Veja, ambas as quais gozavam de um poder político ainda maior do que têm hoje. (O Globo, a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo não tinham muita circulação em Recife, por serem jornais de São Paulo ou do Rio de Janeiro)

A saber, eu “sabia” que esquerda era tudo aquilo que lembrasse socialismo ou comunismo – sabia da existência desses três termos por meio dos livros didáticos de História -, e que direita era a oposição à esquerda. Não sabia muito mais além disso sobre o espectro ideológico.

Por meio dessas duas mídias, eu era acostumado com a crença de que o neoliberalismo conservador brasileiro – apesar de não o conhecer por esse nome e como um sistema de crenças – era a única perspectiva ideológica que retratava fielmente a realidade.

Fui induzido a acreditar, por meio de matérias jornalísiticas e propagandas institucionais, por exemplo, que a privatização das empresas estatais seria uma “ótima” saída para tornar os serviços públicos no Brasil “melhores” e ajudar a “desenvolver o país”, e os sindicatos faziam “baderna” ao promover greves e manifestações.

Somava-se a isso a socialização despolitizada, ainda que sem censuras ideológicas, que tive na família e nas escolas onde estudei. Fui acostumado, e não orientado ao questionamento, embora não diretamente doutrinado, com ideias maniqueístas sobre o quanto a esquerda era “perversa” e “ditatorial”.

Da carga política conservadora que eu recebi, fui induzido, de forma tácita, a crer que a direita brasileira trazia uma visão esclarecedora do mundo. Na mentalidade de uma criança que transitava dos 10 aos 11 anos, pouco capaz de refletir criticamente sobre o que aprendia e sem contato com contrapontos de esquerda, essa crença fixou-se quase como se tivesse sido colada.

Por tudo isso, no ano seguinte, 1998, aos 11 anos, eu achava que era de direita. E, embora não pudesse votar, apoiaria incondicionalmente Fernando Henrique Cardoso, candidato à reeleição presidencial contra Lula; Jarbas Vasconcelos, candidato a governador contra o reelegível Miguel Arraes; e o candidato a senador José Jorge, do então PFL.

Me lembro das discussões que tinha com uma tia petista, que ficava indignada com minha defesa a FHC, e com colegas de classe da 6ª série da Escola Recanto, e de meus argumentos toscos e irrefletidos.

Alguns desses colegas tinham algo mais de conhecimento político do que eu, mesmo sendo pré-adolescentes ou adolescentes de classe média – categoria que hoje costuma ser estigmatizada e injustamente generalizada como coxinha e umbiguista. E sabiam que foi inadmissível, por exemplo, FHC ter chamado de “vagabundos” brasileiros que se aposentam cedo. Já eu não queria admitir que isso depunha contra o então presidente. Eu tentava defendê-lo e relativizar o insulto.

Apesar de tudo, por outro lado, eu nunca havia deixado de ter uma sensibilidade social. Me emocionei de tristeza uma vez, ao passar ao lado de uma favela, ao percorrer de ônibus um viaduto do Recife, por ver aquelas pessoas vivendo em condições miseráveis.

Eu me considerava “de direita”, mas não sabia que a direita defende, por exemplo, que a desigualdade social é algo “natural”, “intrínseco” e até “necessário” nas sociedades humanas, e que o Estado não deveria intervir na economia nem promover bem-estar social. Não me opunha a políticas de redistribuição de renda, nem a investimentos públicos que impulsionassem a economia, e entendia que a concentração de renda e a falta ou fraqueza de políticas públicas eram algo nocivo.

Não havia aprendido que a direita capitalista aborda a pobreza e miséria como algo a ser “resolvido” individualmente, pelo mérito próprio do trabalhador, e no máximo aliviado com políticas paliativas, fossem públicas, privadas ou de terceiro setor, de assistência social.

Mas nem por isso eu via a esquerda como uma alternativa realmente favorável aos excluídos e aos trabalhadores. Achava que Lula, que eu chamava de “Luladrão” ao pior estilo reacionário, e Arraes, que eu apelidava de “ArraeSafado”, eram “comunistas”. Acreditava que comunismo e stalinismo eram a mesma coisa. Achava que Lula e Brizola (vice dele em 1998) iriam implantar no Brasil uma ditadura aos moldes soviéticos e assim “destruir” o país. Dizia que os sindicatos eram meios de propagação do socialismo soviético.

Além disso, sonhava em me tornar, quando crescesse, um presidente de direita, empenhado em proibir a formação e atuação dos sindicatos de trabalhadores, aqueles “propagadores do socialismo ditatorial”.

Na época, foi fácil para FHC e Jarbas vencer as eleições em primeiro turno. Comemorei a vitória deles. E da mesma maneira acreditei que a privatização era algo bom e o neoliberalismo, do qual já ouvia falar bastante, mas cujas características e conceito eu desconhecia, “talvez não fosse esse monstro que os sindicatos dizem que é”.

Me lembro também do meu forte desejo, naquela época, de aderir à classe média-alta, muito embora fosse de uma família que então de baixa renda. Não tínhamos carro, computador, celular, máquina de lavar roupas, forno micro-ondas, videocassete e outros objetos que na época indicavam o pertencimento de uma família à classe média. Meus pais tinham um orçamento doméstico baixo e apertado, mais ainda por causa das crises internacionais de então – dos Tigres Asiáticos e da Rússia.

Mas mesmo assim eu tinha um prazer em comprar e consumir. Achava o máximo ter um gravador de fita-cassete novo, me considerando “mais perto da classe média” por possuí-lo e tê-lo comprado num shopping.

Chegava ao ponto de desejar gastos realmente desnecessários, como usar o telefone de uma mercearia perto de casa, que cobrava 1 real por minuto para fazer ligações por ali numa época em que celular era objeto de luxo.

Para mim, gastar dinheiro com aquele telefone me daria a “gostosa” sensação de “pertencer” à classe média recifense, me faria sentir um gostinho que fosse dessa sonhada ascensão social, muito embora a família estivesse a pelo menos uns 4 mil reais mensais (no valor da época) e diversos bens domésticos de distância dela.

E imaginava, na inocência da infância e tão manipulado pela TV, que ser um jovem de direita pertencente à classe média dos bairros mais ricos e repletos de prédios altos da cidade era “uma delícia”. Curiosamente, é isso que muitos adolescentes, jovens e adultos de hoje imaginam, com a mesma imaturidade política que eu tinha aos 11 anos.

Na minha tentativa (frustrada) de ser uma criança “precoce”, assistia ao noticiário, de olho na crise econômica internacional do momento e na ingênua esperança de ver FHC reeleito livrar o Brasil dela. Ingênua porque não enxergava que a política econômica dele só fazia afundar o país ainda mais na crise, com suas políticas de austeridade fiscal, alta de juros e impostos, recessão, desemprego e pires na mão para o Fundo Monetário Internacional.

Até compus, diante da crise, uma letra de paródia da música de Roberto Carlos É preciso saber viver, cujo cover dos Titãs estava fazendo sucesso nas rádios da época. Essa letra dizia que “é preciso o bem prever”, pregando ingenuamente que os empresários precisavam manter um artificial otimismo sobre os rumos da economia, para que suas empresas não falissem.

Falando em economia, também lembro que assistia, nos guias eleitorais dos partidos então de esquerda, denúncias de como o direitismo econômico do governo FHC estava piorando, não melhorando, a situação do povo brasileiro perante a turbulência global. Mas ignorava, achava tudo “lorota esquerdista”, com direito a jogar bolinhas de papel na tela do televisor quando aparecia algum candidato de partidos que eu considerava “comunistas”.

Isso quando quem estava pensando e falando lorotas era eu, criança que não tinha a mínima noção de economia e política.

 

1999 e 2000: menos atenção à política, mas desejo de reeleger um prefeito de direita

Roberto Magalhães em 2000

Roberto Magalhães, candidato à reeleição para prefeito do Recife, em 2000. Foto: Folha de Pernambuco

No ano seguinte, 1999, deixei mais de lado a política e a economia. Agora com um computador, me divertia com games e, mais tarde, com a internet discada que meu irmão havia conseguido. As discussões sobre política deram lugar aos papos sobre jogos e internet. O sonho de entrar para a classe média dormiu para não acordar mais. Enfim estava tendo um pouco de infância, que não havia realmente aproveitado no ano anterior.

Mas em 2000, aos 13 anos, voltaria a pensar, distorcidamente, em política. Na ocasião, o então prefeito recifense Roberto Magalhães (PFL) concorreu à reeleição, disputando a prefeitura do Recife com João Paulo (PT), Carlos Wilson e outros candidatos. E novamente eu assumiria um imaturo e irrefletido direitismo, apoiando Roberto apesar de ainda não poder votar.

Assistia aos horários eleitorais, sem prestar muita atenção nas propostas dos candidatos. Queria ver  Roberto sendo reeleito. Chamava João Paulo de “João Corno” e atacava a candidatura dele sem qualquer argumento racional, apenas porque ele era (e ainda hoje é) do PT.

Lembro de uma discussão que tive com um professor da escola onde estudei a oitava série naquele ano – o hoje extinto Colégio Santa Cecília. Assim como aquelas que eu tinha com minha tia petista, esse professor ficava impressionado com a falta de qualidade do que eu balbuciava politicamente. Afinal, eram bizarros aqueles argumentos usados contra João Paulo, basicamente ataques pessoais e desqualificações ad hominem por ele ser do PT.

Além disso, é claro que eu ignorava todos os argumentos que a campanha de João Paulo usava para criticar as políticas de Roberto Magalhães. Pelo contrário, achava o máximo quando este último conseguia direitos de resposta e, assim, subtraía um minuto de programa eleitoral do primeiro.

Também gostava do jingle de Roberto no segundo turno: “Mudança sim, baderna não”, e via o guia eleitoral dele acusando João Paulo de ser aliado do MST e ameaçando que, se o petista fosse eleito, o movimento iria promover “caos e baderna” no Recife. Nisso eu percebia, num incipiente senso crítico, que os marqueteiros de Roberto estavam sendo maliciosos ao manipular os eleitores incitando-os ao medo.

João Paulo e Roberto foram para o segundo turno, e no final, depois de uma apuração superacirrada, o petista venceu. E aí eu achei que Recife viveria “tempos de trevas”, porque, afinal, para mim o PT era praticamente um “partido do mal”.

 

2001 a 2003: Ensino médio, greves no Cefet-PE e eleição de Lula

Greve das universidades em 2001

Foto de técnicos-administrativos na greve das universidades federais em 2001. Foto: Cadinho Andrade

Posso dizer que foi nessa época que meu direitismo irracional começou a ser desmontado aos poucos.

Em 2001, vivenciei um pouco do quanto era antipopular a política dedicada por FHC e seu ministro da educação, o hoje falecido Paulo Renato Souza, às escolas federais de nível médio e às universidades. Soube que os vencimentos dos professores dos Cefets (Centros Federais de Educação Tecnológica, antecessores dos atuais Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia) e instituições federais de ensino superior estavam congelados há quase oito anos.

Tomei conhecimento de que o plano do governo do PSDB na época era sucatear o ensino básico, profissionalizante e superior para pressionar a opinião pública a apoiar eventuais propostas de privatização das instituições públicas de ensino.

Foi então que vivenciei uma longa greve, de três meses de duração. Porém, apesar de ter sabido de tudo isso, inicialmente tinha apoiado a greve simplesmente porque, na minha mentalidade adolescente, seria uma época sem aulas.

E com o passar das semanas, passei a ser contra ela porque estava privado de ver uma colega de turma por quem eu tinha uma paixão não correspondida. Cheguei até a declarar ódio ao ministro da educação, não pela sua política contrária aos investimentos em educação, mas sim por ser um dos responsáveis por motivar aquela greve que me impedia de estar perto da tal menina.

Ou seja, no final das contas, os dissabores e imaturidades dos primeiros anos da adolescência pesaram mais do que a consciência de que o ensino público federal pedia socorro.

Mas aquilo acabou tendo, no fundo, um impacto na forma como eu encarava o governo de FHC e o PSDB. Isso porque, no ano seguinte, época de eleições presidenciais, passei a entender por que tanta gente iria votar em Lula para presidente, ou seja, recorrer ao PT que eu, até um tempo atrás, tanto odiava irracionalmente. E achei bom Lula ter sido eleito, inclusive lamentando estar abaixo da idade mínima em que era permitido ter um título de eleitor, uma vez que pretendia votar nele.

Mas vi, a partir de 2003, que o PT no poder não era esse progressismo todo. Uma proposta impopular de reforma da Previdência fez com que os professores de diversos Cefets e universidades de todo o Brasil deflagrassem mais uma greve, que dessa vez durou pouco mais de um mês.

Na época, me chamou a atenção uma camisa que dizia na frente: “Ontem eu oPTei”, e atrás: “Hoje estou PuTo”. E soube também que diversos parlamentares foram expulsos do PT por terem votado contra a reforma – os mesmos que, no ano seguinte, iriam fundar o PSOL.

 

2004 a 2008: demonstrações de atitude coxinha acabando aos poucos

Antigo blog Consciência Efervescente

Cabeçalho do Consciência Efervescente, meu hoje extinto primeiro blog de opiniões

Depois da conclusão do ensino médio, a transformação política continuou, numa lenta gradatividade. Foi uma época em que consciência social se misturava com crenças de senso comum, credulidade perante a mídia e desdém perante as propostas da esquerda socialista.

Me lembro de um momento que, em 2004, enquanto passeava num shopping de Recife, eu refleti como poderia lutar por um mundo melhor. Mas não fazia ideia de como fazer isso fora enviando cartas (na verdade e-mails) aos jornais, algo que eu fiz muito naquele ano para os jornais locais.

Continuaria sem saber como fazer minha parte nos anos seguintes, considerando que eu achava que, para mim, poderia bastar enviar cartas/e-mails aos jornais regularmente, doar uma pequena quantia (uns 20 reais, pensava eu) para o Greenpeace e trabalhar em reflorestamentos.

Porém, apesar dessa preocupação com o mundo, curiosamente quase nunca falava de política no blog-diário que tinha na época (e tiraria do ar no final de 2006). Não me passava pela cabeça que me tornaria blogueiro articulista poucos anos à frente.

Mas havia aqueles momentos, como quando participava do fórum virtual Religião é Veneno, em 2006, em que eu demonstrava que ainda sobrava em mim um pouco do coxinhismo de antigamente, ao reproduzir a ignorante e intolerante crença de que Lula era um “beberrão corrupto”.

Mais adiante, em setembro de 2007, aconteceram dois dos marcos de minha evolução política: aprendi a gostar de ler e a escrever artigos de opinião. Aquilo foi essencial para que eu tanto começasse a ler livros que questionavam a realidade como decidisse estudar Ciências Sociais depois de me formar no curso de Gestão Ambiental.

Só que eu ainda tinha uma visão política muito presa no senso comum. Me lembro de um dos meus primeiros artigos de opinião, de outubro de 2007, em que demonstrava minha contrariedade com supostos abusos cometidos no governo Lula.

Eu já ficava insatisfeito com a repetição, por Lula e equipe, de diversas políticas da época de FHC. Só que, por meio de uma linguagem um tanto agressiva, me colocava como “isentão”, como “nem de esquerda nem de direita”. Dizia defender uma terceira via – a qual viria a ser tema de um outro texto meu em 2009 -, só que esta nada mais era do que uma mescla entre capitalismo e socialismo, ou seja, a velha e limitada socialdemocracia.

Apesar de me considerar um “isentão” na época, em 2008 cheguei a escrever esse texto bastante coxinha. Demonstrei ali minha imaturidade, meu etarismo hipócrita – já que eu tinha 21 anos na época, a mesma idade de muitos que eu estava depreciando ali – e que ainda me restava um tantinho daquele pré-adolescente coxinha que apoiava FHC e odiava o “comunismo”.

Usei ali diversos termos depreciativos contra jovens universitários que defendem o socialismo e o comunismo e contra sua posição política, como “revolucioneiros”, “meninada rubra” e “ideologia vermelhinha”. E ainda chamei a abolição das classes e do Estado, o objetivo da revolução comunista, de “utopia ignorável” inspirada por “ideias inverossímeis e radicalescas”.

2008 também foi o ano em que me tornei blogueiro. Fundei em abril, no Blogger, o blog Consciência Efervescente (que já tirei do ar), com o propósito de escrever ali meus artigos e outras formas de opinar sobre notícias e relatar, com fotografias, o que eu via de errado, por exemplo, nos hospitais e em áreas de preservação ambiental danificadas.

Foi ali que levei adiante minha escrita de artigos. Só que tinham uma linguagem muito agressiva, que às vezes transpareciam uma indignação com ódio e às vezes moralismo, como quando eu criticava raivosamente o forró eletrônico, na época em que as bandas Aviões do Forró e Saia Rodada estavam fazendo sucesso no Nordeste.

 

2009: primeiro contato com as Ciências Sociais e os Direitos Humanos e último artigo coxinha

Ciências Sociais

Ciências Sociais, o curso em que meus olhos mais se abriram

Em 2009, entrei no bacharelado em Ciências Sociais, na UFPE. E tive acesso, pela primeira vez, a muitas ideias que afrontavam o senso comum coxinha.

Me lembro, com carinho, do livro Sociologia: sua bússola para um novo mundo, no qual havia refutações a diversos argumentos contrários às cotas raciais. Inicialmente eu fiquei contrariado pelos argumentos contra as cotas serem exibidos sem ter tanta profundidade quanto os favoráveis. Mas percebi, pouco tempo depois, que a intenção ali realmente era rebater o senso comum que costuma desdenhar desse tipo de política afirmativa.

Fui tendo um contato crescente com pessoas com convicções político-ideológicas de esquerda, que foram me livrando de tudo o que ainda sobrava daquela antiga convicção direitista. Também foi naquela época que tive minhas primeiras conclusões pró-feminismo, como o problema do uso da palavra homem como sinônimo de ser humano, aprendi o quanto era errado falar mal de homens afeminados e usar xingamentos homofóbicos no futebol e descobri que as desigualdades raciais nunca deixaram de ser um grave problema social no Brasil.

Às vezes penso que esse primeiro acesso a esses conhecimentos veio com atraso, considerando que esse acesso foi só a partir dos 22 anos, na universidade, enquanto hoje muitas crianças de 10 anos já têm ainda mais noções de respeito às diferenças e oposição ao preconceito. Mas em seguida me vem um segundo pensamento, contra-argumentativo: antes tarde do que nunca, é melhor alguém se conscientizar com vinte e poucos anos do que permanecer reacionário e fechado a novos conhecimentos a vida inteira.

Foi também naquele ano que Diego, um colega da turma de Ciências Sociais, depois de perguntado o que achava de um artigo meu (que não se encontra mais na internet) que criticava quem tinha vontade de mudar de país por causa dos problemas do Brasil, sugeriu que eu deixasse de ser agressivo em meus textos e visasse realmente conquistar o leitor. Ali minha visão de mundo começou a deixar de ser carregada de raiva e passou a ser mais racional, ponderada e questionadora.

Porém, em março do mesmo ano, depois de sofrer uma tentativa de assalto, escrevi aquele que posso considerar meu último lampejo de coxinhismo: um artigo que, entre outras pérolas, dizia que a educação deveria ensinar que criminosos são seres moralmente “inferiores”.

 

2010: fundação do Consciencia.blog.br e apoio à eleição de Dilma

Primeiro turno das Eleições 2010

Resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2010. Fonte: Jornal do Brasil

Seguindo adiante, em 2010 eu tive, pela primeira vez, a oportunidade de expressar uma visão política de esquerda, ao apoiar Dilma Rousseff em sua primeira campanha presidencial e atuar contra o concorrente José Serra.

Ao longo da campanha eleitoral para presidente, até gravei vídeos – no meu canal pessoal, antes de criar o Consciencia.VLOG.br – para mostrar por que votar em Serra não seria uma boa. E visitei blogs de direita que o apoiavam, percebendo o quanto estes eram cheios de ódio e preconceito já naquela época e descartavam qualquer intenção de promover debates racionais e cordiais sobre os dois principais candidatos.

Em relação a Dilma, eu inicialmente não iria votar nela. Inicialmente queria optar por Marina Silva, tendo inclusive mudado minha visão sobre ela no ano anterior – antes a via como uma fundamentalista que queria impor o criacionismo cristão nas escolas e uma equipe ministerial teocrática, mas percebi que ela não é assim. Mas a falta de sustância e metodologia nas posições e promessas dela me fizeram desiludir com a então membro do Partido Verde.

Decidi então por Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL. Mas um debate na TV, no qual ele negou agressivamente a importância do turismo e agiu como um marxista demasiadamente ortodoxo e raivoso, desmontando a imagem de questionador admiravelmente racional e sagaz que os debates anteriores lhe tinham dado, me fez desistir também dele.

Me vi obrigado a votar em Dilma, mais para não deixar Serra ganhar do que realmente por ter me agradado com as propostas dela. Eu a via como muito desenvolvimentista e descomprometida com os Direitos Humanos e o meio ambiente – tanto que Marina era intrigada com Dilma por causa das posições antagonizadas entre ambas sobre problemas ambientais, como se o desenvolvimento petista deveria ou não ser ambientalmente sustentável e obras de impacto ambiental irrazoável deveriam ou não ser construídas.

Além das eleições, aquele ano teve como marco a fundação do Consciencia.blog.br, sucessor do Consciência Efervescente, e o tema principal do blog naquele ano foi o desmatamento no entorno de Suape. Até o começo de 2011 ainda manteria o mesmo estilo do Consciência Efervescente de escrita.

E também veio a primeira vez em que participei de manifestações de rua com dezenas de pessoas ou mais: as onde eu tomei parte foram contra o aumento abusivo dos salários dos deputados e senadores e, pouco depois, das passagens de ônibus.

 

De 2011 para frente: consolidação da minha convicção política de esquerda

Libertação animal, libertação humana

Em 2011 eu já me considerava de esquerda e opositor do reacionarismo. Naquele ano os artigos sobre política não eleitoral começavam a se tornar mais frequentes, tornando-se um dos temas principais do Consciencia.blog.br em abril de 2013.

Em 2012 comecei a ter mais simpatia pelo anarquismo. Mas não cheguei a dedicar tempo à leitura de livros, e-books e artigos anarquistas, e me muni de literalmente centenas de dúvidas sobre essa ideologia, as quais até hoje estão carentes de respostas. Esse interesse pelo anarquismo acabou se dissipando, e até hoje não voltei a me entusiasmar em estudar o tema, embora a simpatia tenha continuado.

Em 2013 comecei a falar de política dentro do âmbito do veganismo e dos Direitos Animais, criticando veganos reacionários e especistas de esquerda e defendendo que a causa vegano-abolicionista tem tudo a ver com os ideais políticos da esquerda. Foi esse o ano em que fundei o Veganagente, blog de veganismo e Direitos Animais que tem como um dos focos a mescla entre veganismo e política.

Ao longo desses anos, tenho aprendido atitudes decisivas para tornar as pessoas mais conscientes, curiosas, céticas e questionadoras em relação à realidade em que vivem. Algumas delas são desconstruir e evitar as certezas precipitadas, perguntar por quê para tudo sempre que possível, reconhecer meus privilégios sociais e saber o que significa cada conceito-chave em minhas colocações político-ideológicas. Muitas vezes são essas posturas que distinguem um coxinha de alguém realmente esclarecido.

Atualmente (2017) eu me identifico como de esquerda, sem um rótulo ideológico definido, tendo mais aproximação com o socialismo democrático e libertário e muita simpatia pelas vertentes libertárias da esquerda, como o anarquismo.

 

Leia aqui a segunda parte deste artigo, com muitas reflexões interessantes relacionando minha história de vida com nossa postura perante a atual conjuntura política brasileira. A próxima leitura poderá lhe trazer um sorriso no rosto e devolver a esperança na nossa atuação sociopolítica e no futuro do país.

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Guilherme Tuani de Amorim

janeiro 26 2017 Responder

Nossa, Robson!
Que coisa, você era super-dotado mesmo!

Porque eu com 10 anos só queria saber de brincar, com 11 anos tive uma melhor consciência do dinheiro, porque antes disso queria ficar comprando brinquedos em um fast-food que dava brinquedos para quem comprasse um hamburguer. Quando tinha 10 anos tinha um monte de brinquedos e queria comprar mais brinquedos e meu pai falou com raiva que eu queria comprar mais sendo que eu tenho um monte de brinquedos aí eu falei para o meu pai não vou comprar mais nada; quando tinha 11 anos queria comprar alguns brinquedos, mas não quis comprar porque falei que não ia comprar nada.
Por mais que gostasse de História e Geografia desde os 11 anos, só fui entender melhor essas 2 matérias quando tinha 16 ou 17 anos (quando comecei a ter maturidade intelectual); sou de classe média alta, mas com 12 anos comecei a não querer parecer rico, porque ficava indignado com existência de pobreza e desigualdade social (por mais que não tinha noção desses 2 nomes);
Quando tinha 16 anos uma professora de história falou sobre anarquismo, comunismo e socialismo; comecei ser de esquerda, até que comecei a querer um mundo mais justo; ficava até de auto-castigo por ser de classe média alta e ter tanta pobreza no mundo, quando um professor da escola falou que para existir o rico deve existir o pobre, pensei até em virar pobre para diminuir a pobreza no mundo (por mais que só uma pessoa fizesse isso não iria diminuir a pobreza no mundo).
Essa professora de História não explicou a diferença entre o socialismo real e o comunismo descrito por Marx e pensava que em Cuba tivesse o comunismo descrito por Marx. Tanto é que fui para Cuba (foi minha viagem de formatura, fiz quando tinha 18 anos) porque: juntei o dinheiro de quando fiz estágio na escola que estudei (trabalhei de monitor de sala de informática), tinha visto um documentário turístico sobre Cuba; por último a vontade de saber se Cuba é comunista do jeito que Marx criou e se o governo dos Irmãos Castro melhorou a saúde e educação de Cuba. Essa viagem que eu fiz foi muito importante para mim, porque descobri coisas sobre o entendimento de História e de Geografia sobre Cuba, algumas coisas tenho dúvidas sobre isso, se fosse de novo para Cuba poderia ser mais investigativo sobre algumas dessas coisas que faltou eu ver. Depois falo sobre isso.
Em 2012 comecei a fazer a graduação em Geografia e também comecei a ver vídeos no Youtube e sem querer acabei conhecendo canais neoliberais no Youtube que se apoiam na Escola Austríaca de Economia e os Guias Politicamente Incorretos de História, eu que historicamente compartilhei com ideais de esquerda virei neoliberal, mas mesmo assim queria saber mais sobre o esquerdismo também. Na graduação e na internet até meados de 2014 não vi alguns textos/livros que desmentissem falácias neoliberais como países desenvolvidos tem os mercados mais livres. Até que no segundo turno das eleições de 2014 conheci o canal Merlin das Trevas e aí ele desmentiu falácias neoliberais, voltei a ser de esquerda; em 2015 fiz algumas matérias na graduação que desmentiram algumas falácias neoliberais, como que o marxismo levava o socialismo real (considero que foi renascimento esquerdista).
O que me preocupa é que ainda há pouca divulgação na internet (principalmente no Youtube) de coisas desmentindo o neoliberalismo como os Capítulos sobre Economia dos Guias Politicamente incorretos de História. Também não vi esquerdista refutando o capítulo Negros do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil

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