26

jan17

Reflexões sobre minha história política (Parte 2: o que a minha trajetória de vida pode ensinar e fazer pensar hoje)

Frase de Harvey Spencer Lewis

Leia aqui a primeira parte deste artigo

Esta é a segunda e última parte do meu artigo que relata minha história político-ideológica. Trago aqui algumas reflexões sobre o que narrei na primeira parte.

Convido você a ler esta segunda parte para saber: que lições aquilo que você leu anteriormente pode nos trazer sobre o estado de coisas atual na política brasileira?

São ensinamentos muito interessantes, que podem inclusive reacender a esperança em você pelo futuro, caso esteja se sentindo pessimista, amedrontado e desesperançoso sobre o que nos espera nos próximos meses e anos.

 

Reflexão: que conselhos posso dar a partir dessa experiência de vida

Dialogando

Acredito que minha experiência de vida tem muito a contribuir para as discussões sobre que rumos a esquerda precisa tomar para se reconstruir e começar a conquistar as classes populares e a classe média.

Eu falo como um ex-coxinha, como alguém que, ao longo de sua juventude, aprendeu a arte de duvidar do senso comum e adquiriu gradualmente conhecimentos sobre Direitos Humanos, História  do Brasil e o que as esquerdas realmente pensam e defendem.

Esses fatores me influenciaram a mudar politicamente:

  • Tive acesso amplo a conhecimentos de conscientização social, política e ambiental;
  • Muitas pessoas souberam dialogar comigo com paciência, cordialidade e espírito didático, apontando o que era falho naquilo no que eu acreditava. Aquelas que eram agressivas e impacientes quando falavam de política comigo nunca influenciaram minha revisão de crenças e posturas e, pelo contrário, correram o risco de estar fomentando o surgimento de um futuro antiesquerdista e conservador assumido;
  • Soube usar a internet e seu amplo acervo de fontes jornalísticas, históricas, social-científicas e filosóficas como fonte múltipla de informações;
  • Desde a adolescência eu não uso mais a TV como meio regular de obter informações;
  • Aprendi a ser cético em relação a notícias falsas ou ideologicamente enviesadas e identificar os interesses políticos maliciosos por trás delas. Esse ceticismo fortaleceu-se quando eu comecei a duvidar das crenças cristãs, abandoná-las e migrar gradualmente para o ateísmo, em 2004;
  • Tenho a sorte de ter uma família estável e que sempre me deu liberdade de buscar a verdade em locais diferentes, sem censuras e restrições arbitrárias (como ser proibido de estudar Marx ou de ler sobre religiões não cristãs);
  • O pouco de instrução religiosa que tive (nunca frequentei igrejas) não foi fundamentalista nem me incitou à intolerância;
  • Desde 2007, quando aprendi a gostar de ler, tenho um carinho muito grande pela Sociologia e pela Filosofia e bastante interesse por Ciência Política, Antropologia e História.

Em resumo, foram o ambiente familiar, o fomento à curiosidade, a liberdade de aprendizado político, o ceticismo e a facilidade e diversidade de acesso à informação que me permitiram ser quem sou politicamente hoje. Com isso, tenho alguns conselhos a dar:

  • Aquele colega antipetista e “anticomunista” roxo de sua turma da faculdade ou da escola pode ser o autor de livros de esquerda de amanhã. A mudança de que ele precisa ainda está para começar;
  • Grande parte das pessoas, mesmo muitas daquelas que vociferam senso comum e mesmo ódio político, são capazes de evoluir politicamente, uma vez que adquiram as condições e tenham a boa vontade de acessar uma diversidade boa de fontes de informação sociopolítica;
  • Se você é de esquerda e trata mal os seus interlocutores em discussões sobre política mesmo quando eles vêm com dúvidas e demonstram alguma abertura ao debate, reveja essa postura. Você pode estar desperdiçando a chance de livrar alguém de uma postura reacionária impensada e induzi-lo a buscar a conscientização, ou mesmo, sem querer, reforçando o ódio dele contra a esquerda;
  • Se você integra algum coletivo político democrático, recomendo a você induzir um debate interno, ou mesmo a realização de palestras e rodas de conversa pelo grupo, sobre como conversar com colegas considerados coxinhas que sejam abertos ao diálogo;
  • Tem muito coxinha por aí precisando apenas de uma mão amiga que o oriente à curiosidade, ao ceticismo, ao estudo e ao questionamento;
  • Cuidado ao rotular de “fascistas” e “golpistas” aquelas pessoas que, no fundo, estão apenas precisando dessa orientação e não são intolerantemente fechadas ao contraditório;
  • As esquerdas precisam debater sobre como incluir entre seu público-alvo as massas populares que, atualmente, só têm a TV, os jornais, os grandes portais de notícias, o Facebook e o WhatsApp como fontes de informação jornalística;
  • Sem diálogo, paciência e espírito conscientizador, a esquerda tende a se estagnar ou mesmo diminuir de tamanho;
  • As pessoas não nascem de esquerda, de direita, “coxinhas”, “isentonas”, fascistas ou revolucionárias. Elas têm suas convicções políticas porque foram ensinadas. Portanto, o mais lógico é assumirmos uma postura de ensinar Política, História, Direitos Humanos e noções de Sociologia e Filosofia ao máximo possível de pessoas;
  • Elas também não aprendem política por osmose ou mágica. Por isso, não esperemos as massas, que hoje não se opõem a Michel Temer, ao PSDB e aos conservadores, se converterem à esquerda do nada, sem intervenções significativas dos movimentos sociais e de cada pessoa de esquerda;
  • Muitas delas acham que são de direita, por aceitarem o que a imprensa e os colunistas conservadores lhes repetem. Mas possuem uma sensibilidade social que a direita conservadora e neoliberal despreza, lamentam haver tanta pobreza e miséria no Brasil e no mundo, acham péssimo que o governo invista pouco em saúde e educação, querem investimentos públicos no desenvolvimento socioeconômico e políticas de combate à pobreza, apoiam os direitos civis, políticos e sociais, creem que felicidade não se faz apenas com muito dinheiro e não acreditam que a ascensão social depende unicamente dos esforços individuais;
  • Trabalho de base precisa ser uma das palavras-chave da reconstrução da esquerda brasileira. As massas abandonaram o PT, viraram as costas para as esquerdas e optaram por votar em direitistas ou em ninguém porque, entre outros motivos, nós não herdamos dos movimentos sociais pós-Anistia o costume de interagir nas comunidades e bairros, ouvir as mentes e corações das pessoas e promover diálogos pedagógicos que lhes permitam pensar política com mais maturidade;
  • Precisamos parar de nos confinar em nossas bolhas ideológicas. Há fora delas muitos cidadãos com grande potencial de se conscientizar, nos entender e aprender a construir politicamente um mundo melhor;
  • Não adianta tentar trazer conhecimento em linguagem acadêmica para pessoas que nunca passaram por um curso universitário de ciências humanas, tampouco fazer isso de uma maneira unilateral e paternalista, sem ouvir o outro;
  • Se a esquerda fala tanto de inclusão social, ela própria precisa promovê-la internamente, abandonando a tendência elitista de dar mais voz aos intelectuais, artistas e universitários de classe média;
  • Antes de julgarmos o outro por sua atual postura em relação a temas sociais e político-ideológicos, lembremo-nos de como éramos antigamente e como nos tornamos quem somos hoje. E tenhamos consciência de que muitos dos coxinhas de hoje são como nós éramos outrora e, dadas as devidas oportunidades, possivelmente pensarão parecido conosco num futuro próximo;
  • Pense como trataria seu eu do passado se pudesse se comunicar com ele, e se esse eu passado se tornaria seu eu de hoje se recebesse tal tratamento.

 

Como isso importa para a situação da política hoje

Frase de Oscar Niemeyer

Nesta época de crise política e esquerda deseperançosa e desnorteada, um olhar temporal para nós mesmos e as reflexões que dele surgem, como as que eu faço aqui, nos permitem perceber como a esperança e a luta serão reconstruídas.

Provavelmente, naquele 1998 em que eu era um pré-adolescente coxinha, a esquerda da época tinha muita esperança na juventude que estava nas escolas. Muitos, pelo visto, sonhavam que, a partir daquelas crianças e adolescentes que debatiam política antes da idade de votar, mesmo daquelas que defendiam FHC e as privatizações sem refletir, surgiriam diversos intelectuais e lideranças para guiar o país a um futuro promissor.

Pois eu, que na época tinha posições antiprogressistas e nem sonhava em me tornar de esquerda algum dia, me tornei um blogueiro e aspirante a autor de livros, e adotei posturas muito diferentes daquelas. Meu trabalho hoje visa ajudar meus leitores a se livrarem de antigas crenças conservadoras de senso comum e aprenderem a pensar por conta própria, assim como auxiliar as esquerdas na tão necessária autocrítica.

Da mesma maneira, entre os que hoje reproduzem jargões de direita, como “Privatize já”, “Bandido bom é bandido morto” e “Imposto é roubo”, há muitos futuros pensadores progressistas cujas obras irão questionar suas próprias posições atuais.

Considerando essa perspectiva futura, a luz do fim do túnel será viabilizada se realizarmos esse trabalho de base a partir de hoje e pensarmos que, tal como pudemos transformar nossas próprias mentalidades com o passar dos anos, podemos ajudar a conscientizar outras mentes.

Isso tende a acontecer com mais força e necessidade numa época em que o neoliberalismo e o conservadorismo estão proporcionando o empobrecimento da população, o aumento da insegurança pública, o enferrujamento da democracia e o envenenamento das discussões políticas com comunicação violenta e autoritária.

Mais pessoas, mesmo que apenas uma parcela da população total, perceberão que a direita está trazendo ainda mais problemas e acordarão. Para que isso aconteça, precisarão que aqueles que já são de esquerda dialoguem com elas – não meramente lhes “transmitam” informações unilateralmente – e lhes mostrem aquilo que ainda desconhecem.

E o melhor de tudo é que isso tenderá a acontecer num verdadeiro efeito cascata: pessoas conscientizadas irão conversar com seus pares sobre o que aprenderam, mais conscientes irão surgindo e a coisa vai se massificar.

Ou seja, é pela fé no diálogo, na conscientização e no abrir de olhos – os quais precisam de bons métodos – que a esperança, que tanta falta tem feito ultimamente, retornará como um clarão abrindo o céu nublado.

 

Considerações finais

Frase de Montaigne

Acredito, e assim espero, que minha trajetória de vida pode ajudar você a refletir sobre o outro, aquele que atualmente vive repetindo clichês de direita, fala bem dos Bolsonaros, Aécios e Temers da vida e acredita estar atendendo à única visão de mundo aceitável e verdadeira.

Também quero muito que você se lembre de seu passado ideológico. Das crenças de senso comum que defendia, dos boatos nos quais acreditou, dos candidatos nos quais votou e hoje se arrepende de ter votado, nos diálogos em que você demonstrava pensar bem diferente do que hoje pensa.

É assim que temos muitos de nossos insights sobre como agir no mundo lá fora, com outras pessoas, e intervir no mundo para mudá-lo para melhor. A partir de nós mesmos podemos enxergar o outro com mais empatia, compreensão e curiosidade.

E percebemos que o outro que hoje aceita tudo o que a TV e os jornalões dizem e repete “Fora PT” provavelmente é o progressista consciente e sonhador de amanhã.

Com isso, passe a perceber esse outro como o você do passado, que precisa apenas de mais esclarecimento, senso crítico e fome de saber.

imagrs

3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Newton

janeiro 27 2017 Responder

Hoje em dia não existem mais nem esquerda e nem direita. Qualquer coisa que fale sobre tal posicionamento, com exceção de fatos históricos, possuí interesses obscuros. Pense bem nisso. Aliás, não querem que pensemos nisso.

    Robson Fernando de Souza

    janeiro 29 2017 Responder

    “Hoje em dia não existem mais nem esquerda e nem direita.” – Diz aquele que vem ao blog frequentemente fazer comentários de direita.

      Newton

      março 5 2017 Responder

      Acho que você não entendeu…VOCÊ considera de direita os comentários. É exatamente isso que quis dizer, essa polarização, não tem de ser obrigatoriamente de direita OU de esquerda. É simplesmente um comentário, são as pessoas que têm a mania de classificar e catalogar tudo.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo