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Luz entre as nuvens: como uma visita a uma livraria neoliberal me inspirou esperança política
Luz entre as nuvens

Foto: Elcio Douglas

Vislumbrar, numa livraria cheia de livros neoliberais, a esperança pelo renascimento da esquerda combativa, ao invés de pensar que “a direita venceu, tudo está perdido e tempos sombrios vêm aí”, e alegrar-se com isso – acredite, isso é possível.

Foi uma experiência bastante interessante que tive, no final de setembro de 2016, logo antes de viajar a São Paulo. O que vivenciei naqueles minutos é algo que você precisa saber para ganhar um sorriso no rosto.

É algo que poderá lhe trazer a visão, na mente, de um feixe de luz saindo do meio de nuvens cinzentas. Posso dizer que é um alento necessário nesta época que tem trazido tanto medo, derrotismo e desesperança às pessoas adeptas de convicções políticas progressistas.

 

A visita à livraria

Livraria neoliberal em Recife

A livraria neoliberal no Aeroporto do Recife. Foto: Josemir J.

Foi na manhã de 29 de setembro passado, cerca de uma hora antes de entrar no avião que iria me levar para junto da namorada.

Entrei numa livraria, no saguão do Aeroporto dos Guararapes, que eu já era ciente de que continha predominantemente livros reafirmadores e legitimadores da ordem social, econômica e política vigente.

Ficções internacionais com temas que vendem muito, obras de youtubers brasileiros famosos, manuais de autoajuda empreendedora que ensinam os leitores a “pensar como os ricos” e ganhar muito dinheiro sem demora, livros políticos e jornalísticos que elevam ao estrelato quem lutou contra o agora finado governo petista, revistas exaltando a beleza física das mulheres brancas magras e dos homens brancos sarados, livros e revistas de receitas, revistinhas de passatempo…

São milhares de revistas e livros que, esperando para serem comprados, vendem a ilusão do quanto o atual estado de coisas social, político, econômico e moral é “uma delícia” e “permite” a muita gente alcançar com relativa facilidade a glória da riqueza material.

Exibem o quanto é “gostoso” ter como objetivos maiores de vida subir à classe alta, ter muito dinheiro, ganhar fama nacional ou mundial, emagrecer e malhar, ficar fisicamente atraente, saber da vida das celebridades e, para alguns, tornar-se um político defensor (e usufruidor) do status quo capitalista neoliberal. Tudo isso convergindo para o objetivo geral de “ser um vencedor”.

Por outro lado, quase nada vi do outro lado. Foi muito difícil detectar ali algum livro que orientasse o leitorado a pensar fora dessa caixa, questionar essa ordem e seus valores morais, conhecer o mundo desigual lá fora, pensar que um outro mundo é possível, notar o que há de errado com esse estado de coisas que tanto exalta o dinheiro, os bens materiais, o poder, a fama e a beleza física.

É como se eu estivesse fazendo uma visita à Caverna de Platão, aquela em que há prisioneiros sendo instruídos a crer que, mesmo presos e sob controle, são felizes, vivem no único mundo possível, esse mundo é maravilhoso e não deve mudar e tudo que contrarie essas crenças é delírio de gente excêntrica que pensa no que não deve.

 

Um insight de reafirmação e esperança para a esquerda

Enquanto há vida, há esperança

Diante desses livros, relembrei do mundo lá fora, como ele está hoje. Do estado de democracia de mentirinha pós-impeachment, dos candidatos a prefeitos de direita a caminho do triunfo em quase todo o Brasil, do estado decadente da esquerda brasileira, da retomada ou fortalecimento de velhas políticas neoliberais…

Foi então que eu refleti, naqueles minutos que faltavam para eu atravessar o portão de embarque: é porque o mundo está assim que a esquerda existe. Se não houvesse necessidade de mudanças, se o mundo realmente fosse bom do jeito que está e não devesse ser mudado, não existiriam ideologias progressistas e pró-libertação.

Ou seja, toda essa ordem social injusta e desigual que a livraria em questão esconde de seu público é a razão pela qual nós lutamos. Por tabela, se esse estado de coisas piora ainda mais, aumentam as razões de lutar.

 

O que isso implica, numa época de enfraquecimento das lutas sociais e decadência da esquerda

Esquerda luta e resiste em Recife

Protesto contra aumento das passagens de ônibus em Recife, em janeiro de 2017. A esquerda luta e resiste, com cada vez mais razões, e não pode desanimar e parar de lutar. Foto: Thays Estarque/G1

É a partir disso que pensei: quanto mais a realidade piorar, mais as pessoas afetadas verão razões para perceber que a Caverna de Platão onde a mídia, a elite econômica, as igrejas conservadoras e os políticos de direita as prendem não é um mundo bom e feliz como lhes foi prometido.

E isso é um fator de pressão para a esquerda. Ela não pode ficar muito tempo relegada à lamentação pelo que deu errado nos últimos anos. O estado de coisas lhe gritará as razões de se reconstruir, se reconfigurar e voltar a atuar com vigor.

É aqui que se aplica a minha reflexão. Dar de cara com todo o aparato de propaganda ideológica do neoliberalismo e do conservadorismo social, com a ilusão a que ambos tentam induzir os consumidores de livros e revistas, nos é um lembrete do porquê de lutarmos.

Avisa-nos que a esquerda, ainda mais do que em outras épocas, tem legitimidade e razões para ir à luta para retirar do caminho os obstáculos políticos, econômicos e ideológicos que impedem este mundo de ser um lugar melhor.

Isso, se não está claro para muitas pessoas que ainda estão afundadas no pessimismo derrotista sobre o futuro, ficará, à medida que a necessidade da atuação política contra o retrocesso sociopolítico for se tornando uma questão de sobrevivência.

É pensando nisso que vislumbramos como essencial que a autocrítica das esquerdas, pela qual tanta gente tem clamado, e o início da sua reconfiguração e reconstrução aconteçam o quanto antes. Se para muitos falta disposição de fazer isso, logo logo serão forçadas a tal, por uma realidade na qual a única “opção” a lutar será morrer de fome ou de carência de assistência médica.

 

Considerações finais

Reaja!

Reaja! Foto: Morgana Damásio

Vislumbrar o que a direita crê, pensa e propagandeia pode nos influenciar a duas possibilidades bem diferentes: cair de joelhos e crer que “tudo está perdido”, ou relembrar os porquês de a esquerda política existir. Podemos muito bem nos orientar à segunda.

Basta nos concentrarmos no mundo melhor no qual tanto sonhamos, confrontar esse sonho com a realidade que o neoliberalismo conservador tenta nos impor e relembrarmos por que estamos lutando.

Olhando através da espessa neblina dos “tempos sombrios”, veremos lá no fundo uma luz, na qual o cenário político e social está sendo reconstruído e os mais desfavorecidos estão voltando, ou começando, a ter a devida assistência.

É essa luz que nos chama para, hoje, sairmos da inércia pessimista, adquirirmos coragem e retomarmos a postura de enfrentamento que tínhamos alguns anos atrás.

Acredite, essa mudança de postura, individualmente falando, pode acontecer a partir da visita à livraria cheia de livros pró-capitalistas e pró-status quo do shopping ou do aeroporto de sua cidade.

Então, se você está caído(a) na desesperança e no medo do futuro, dê uma passada na livraria, confira alguns livros, respire fundo, medite em seus pensamentos e veja no fundo a luz futura que chama você para fazer a política acontecer no presente.

imagrs

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haroldo

janeiro 17 2017 Responder

Robson, encontrei uma resenha falando que o brasileiro simplesmente não sabe o que é esquerda ou direita, pasme: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/redes-sociais-mostram-que-brasileiros-nao-sabem-o-que-e-ser-de-direita-e-esquerda-por-patrycia-monteiro/

Heloisa Helena Godinho Salgado

janeiro 16 2017 Responder

Ufa!! Sou uma das “caídas na desesperança e no medo do futuro”, Robson. E esse texto, construído com a lógica tão peculiar a você, traz um respiro, um alento. Lambamos as feridas e partamos para a luta!! Um abraço carinhoso <3

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