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O constrangedor segredo por trás da crença de que a natureza humana é ruim – e uma boa notícia sobre ela
Henry Adams sobre a natureza humana

Artelogy

Você acredita que a natureza humana faz os seres humanos serem corruptos, violentos e egoístas?

Crê que as ideologias utopistas nutrem sonhos impossíveis? Acredita que elas não levam em conta que as pessoas têm e sempre terão o ímpeto da corrupção e do egoísmo na sua constituição biológica ou espiritual?

Então eu aconselho que tenha cuidado com esse tipo de crença. Ela traz um segredo bem constrangedor, que tem bem mais a ver com você e sua imagem de si mesmo(a) do que tem percebido. E que, no final das contas, pode não corresponder à realidade como um todo.

Porém, há uma boa notícia aguardando você no outro lado desse segredo.

 

Quando o apontar do dedo tem dois sentidos

A verdade sobre apontar dedos

Bu Meu Eu

O segredo dessa crença diz muito mais a respeito de quem a manifesta do que sobre a natureza humana propriamente dita. Ou seja, quem diz que “é da biologia” ou “do espírito” ser alguém inerentemente ruim, que precisa ser controlado para não fazer mal, está, na prática, assumindo-se como mau e corrupto.

Ou seja, quem diz que “a natureza humana é egoísta e violenta” está dizendo, em outras palavras, que é uma pessoa egoísta e violenta. Quem aponta para a humanidade generalizando-a com uma essência de corrupção está confessando que é um usuário recorrente de práticas moralmente corruptas.

Quem diz que “o problema da humanidade é o ser humano, não a ordem social”, está se assumindo parte do problema social e moral que condena tantas pessoas a uma vida de privações e violências.

Afinal, se a humanidade tem determinadas características intrínsecas, então a pessoa que alega isso, por ser humana, está admitindo que as possui e, muitas vezes, as pratica.

É o típico caso em que o apontar do dedo acaba tendo dois sentidos, o próprio indivíduo sendo aquilo que acusa nos outros ou no todo.

Mas a boa notícia é que tanto esse pensamento como a postura confessamente antiética resultante dele têm solução.

 

Como desconstruir essa crença fatalista sobre si mesmo e a natureza humana

Rompendo correntes

Geralmente a pessoa é ensinada, pela família, pela igreja e pelos ideólogos de direita, a crer que “o ser humano é assim”. E a partir dessa doutrinação, pensa que não há outro jeito possível de ser, que só se pode se dar bem na sociedade fazendo o pão que o diabo amassou para defender e satisfazer seus interesses pessoais.

Se você se identificou com o indivíduo que “justifica” suas más ações com essas crenças fatalistas sobre a natureza humana, então é possível você desconstruí-las. Em outras palavras, você não tem obrigação de incidir em posturas eticamente corruptas, há outros jeitos muito mais saudáveis e éticos de viver e agir em sociedade.

Uma maneira de conhecer outros caminhos possíveis é por meio de materiais de Ciências Sociais para leigos. A Antropologia e a Sociologia ensinam, com muita sagacidade, que não existem comportamentos morais generalizados a toda a diversidade humana mundial, inerentes a uma natureza humana irreversível.

Muito daquilo que você acredita que é “natural do ser humano” não está presente, ou é fortemente repudiado, em culturas diferentes da sua.

Por exemplo, atitudes antiéticas motivadas por egoísmo são pesadamente condenadas pela moralidade de muitas sociedades, inclusive a nossa própria. Em muitas culturas, a solidariedade e a empatia permeiam os seus integrantes, desbancando a crença de que o ser humano é “egoísta por natureza” e que o individualismo extremado é “essencial à vida humana”.

E mesmo culturas podem mudar internamente, o que é especialmente aplicável nas sociedades modernas. A razão mais forte pela qual não transicionamos ainda de uma sociedade permeada de individualismo exacerbado, veneração às riquezas materiais, autoritarismo e desrespeito às diferenças para uma que prezará pela solidariedade altruísta, pela soberania do ser sobre o ter, pelo espírito democrático e pela plena aceitação das diversidades é a resistência dos conservadores – entre eles muitos que se afirmam “liberais”.

 

Considerações finais

Seja ético. Seja bom. Faça o bem.

Angela Zampiva

A natureza humana não é esse sombrio vilão aprisionado num corpo humano. Com isso, você é mais livre, em termos de poder ser diferente do que sempre lhe ensinaram a ser, do que acredita.

Experimente ler alguns livros introdutórios à Sociologia e à Antropologia que possam ser comprados a baixo preço. Ou, caso não tenha tempo nem dinheiro, assistir a vídeos dedicados a temas das Ciências Sociais para pessoas leigas.

Um mundo novo de possibilidades surgirá diante de você. E, com ele, a felicidade de saber que a natureza humana é muito mais flexível, livre e passível a abraçar a empatia, a ética, a compaixão, a igualdade moral e social e a solidariedade do que você acredita.

imagrs

6 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Guilherme Tuani de Amorim

março 21 2017 Responder

O ser humano não pode ser mal por natureza, mas é comum ter comportamentos maus. Quando tinha 11 anos (um menino da mesma idade que eu na época) tinha uma família estruturada (os pais mostravam a ele como ser educado, eram atentos a ele), mas ele era violento e começou a ser violento aos 11 anos. Então acho isso muito complicado.

Não que eu ache que utopias são ruins (já que sou de esquerda), mas sinceramente se existe machismo, racismo, homofobia, transfobia; prefiro focar nisso do que no especismo. Se talvez seja quase utópico acabar machismo, racismo, homofobia, transfobia; acabar com especismo é uma utopia maior ainda (mesmo se for só entre populações não-tribais da Europa, Oceania e Américas).

Lucia

março 15 2017 Responder

Gostei do Blog. Partilho esse vídeo sobre poder , dinheiro, hierarquia, distribuição de renda e crise mundial!
Vejam e reflitam!
https://www.youtube.com/watch?v=_w0aI-c-ZiA

Felippe Narciso

março 13 2017 Responder

Ok, vamos começar do começo porque existe muita confusão pra ser limpada aqui.

O termo “natureza humana” designa um aspecto dos seres humanos e que possui diversas definições de acordo com os filósofos que discorrem sobre ela, como Aristóteles e São Tomás de Aquino.
Definições são importantes nesse ponto. A definição de natureza humana que você coloca na boca dos teóricos conservadores não é nem de longe a melhor definição a ser usada (tanto que a maioria deles não a usa!). Um jeito sensível de defini-la seria que ” a natureza humana é constituída das regularidades na série dos geralmente recorrentes traços anatômicos, fisiológicos e psicológicos da espécie humana”.

Embora esses traços sejam geralmente recorrentes olhando para a história humana, cada indivíduo humano é único, assim como cada indivíduo animal é único, explicando a grande variação entre indivíduos.

Existe bastante evidência científica (da psicologia, da neurociência e da antropologia, principalmente) apontando a existência de uma natureza humana como definido anteriormente. O filósofo político Stephen Sanderson examinou grande parte dessa evidência nos seus dois livros The Evolution of Human Sociality (Rowman e Littlefield, 2001) e Human Nature and the Evolution of Society (Westview Press, 2014). Essa evidência vem de análises da evidência antropológica, análises de psicólogos sobre a motivação humana, pesquisas feitas por psicólogos através de questionários perguntando-lhes sobre suas motivações, etc.
O resultado é que existem centenas de desejos naturais do ser humano, que existem em todas as sociedades sem exceção, e que podem ser resumidas e categorizadas na seguinte lista:
(1) uma vida saudável, (2) identidade sexual, (3) atividade sexual, (4) cuidado parental, (5) formação de laços familiares, (6) amizade, (7) status social, (8 justiça recíproca, (9) poder político , (10) guerra, (11) identidade étnica, (12) beleza, (13) propriedade, (14) retórica, (15) habituação prática, (16) raciocínio prático, (17) artes práticas, (18) artes estéticas, (19) entendimento religioso, and (20) entendimento intelectual.

A esquerda acredita no criacionismo cultural, ou seja, assim como os criacionistas bíblicos acreditam que o ser humano foi criado com uma alma que transcende a natureza biológica dos outros animais, os criacionistas culturais acreditam que os seres humanos criam sua própria identidade psicológica através da cultura humana como um plano de liberdade humana além do mundo natural.

No entanto, as evidências científicas da psicologia evolucionista negam essa realidade. O motivo de o comunismo nunca ter dado (e nunca dar) certo é que a repressão da propriedade privada vai de encontro ao desejo natural do ser humano de ter propriedade privada.

Eu sugiro a leitura dos livros mencionados acima para desconstruir a ideia de que as pessoas que acreditam na existência da natureza humana estão na verdade apontando seus próprios defeitos. Não existe espaço para subjetividade em argumentos racionais, e a existência da natureza humana é suportada por diversos argumentos racionais. Isso é uma estratégia barata de retórica que é refutada por estudos de psicologia evolucionista.

Alex

março 13 2017 Responder

“Geralmente a pessoa é ensinada, pela família, pela igreja e pelos ideólogos de direita, …”

O maior problema dos seus textos é essa polarização, você acredita mesmo que só os grupos de direita que pensa assim? Conheço muita gente que se acha liberal, vanguardista e que adora falar que a humanidade e ma.

boris

março 13 2017 Responder

legal o post. isso pra mim sempre foi dialético. em determinado momento concordo com isso e em outro discordo, mas seus argumentos são bons.

Newton

março 12 2017 Responder

Creio que existam infinitos tipos de pessoas. Há infinitas variações de tipos de inteligencia, habilidades, consciencia, etc., e as combinações de possibilidades possíveis é praticamente infinita. Não existem dois seres humanos iguais.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo